A subida dos combustíveis em Moçambique está a comprometer a viabilidade da pesca artesanal, fonte de rendimento para quase 400 mil pessoas, agravando a insegurança alimentar e elevando o preço do peixe, segundo um estudo.
Segundo uma análise divulgada pelo Observatório do Meio Rural (OMR), organização não-governamental moçambicana, o aumento dos preços dos combustíveis em maio está a afetar severamente a pesca artesanal, setor responsável por cerca de 90% da produção pesqueira nacional, por aproximadamente 3% do Produto Interno Bruto (PIB) e pelo sustento direto de quase 400 mil pessoas.
O estudo elaborado pelo economista e investigador Yasser Arafat Dadá, refere que, em maio de 2026, “uma revisão abrupta dos preços dos combustíveis em Moçambique, com o gasóleo a subir 44,5%, a gasolina 12,1% e o petróleo de iluminação 45,9%, atingiu em cheio a pesca artesanal moçambicana”.
A análise surge após Moçambique ter vivido, em abril, uma crise de abastecimento de combustíveis, marcada por filas generalizadas e escassez nos postos em todo o país, afetando vários setores da economia.
A 07 de maio o Governo aprovou a primeira atualização dos preços em cerca de um ano, justificando a medida com problemas de fornecimento associados ao conflito no Médio Oriente.
Segundo o OMR, dos 42.723 barcos registados na pesca artesanal, apenas 1.986 são motorizados, representando menos de 5% da frota nacional.
Apesar disso, essas embarcações realizam as maiores capturas, abastecem os mercados e são as mais expostas ao aumento dos custos dos combustíveis.
“O combustível representa tipicamente a maior parcela dos custos variáveis, estimando-se que absorva entre 40% e 60% dos custos operacionais totais de uma jornada de pesca motorizada”, refere.
De acordo com os cálculos apresentados, uma embarcação com motor de 25 cavalos e consumo médio de oito litros por hora passou a suportar custos diários de combustível de cerca de 930 meticais (12,6 euros), contra 639 meticais (8,7 euros) antes da revisão dos preços, no caso do gasóleo.
Para um pescador que realize 20 jornadas por mês, o acréscimo pode atingir 5.820 meticais mensais (79 euros).
O relatório alerta para o “paradoxo inflacionário”: Embora o preço do peixe fresco tenha aumentado 11,7% nos mercados urbanos em maio, os pescadores não estão a beneficiar dessa valorização.
“O resultado é que o preço ao consumidor sobe mais do que o preço ao produtor”, aponta.
Segundo a análise, o pescado passa por vários intermediários antes de chegar aos consumidores, incluindo compradores de praia, grossistas, transportadores e retalhistas, que transferem para o preço final os custos crescentes de transporte e armazenamento.
“O consumidor paga mais, o intermediário mantém ou aumenta a sua margem, o pescador que tem menor poder negocial e que precisa de vender rapidamente para não perder o produto perecível é o que menos beneficia da subida do preço de mercado”, acrescenta.
O documento avisa igualmente para possíveis consequências sobre os recursos pesqueiros, nomeadamente “o risco de intensificação do esforço de pesca nas zonas costeiras mais acessíveis”.
Segundo o OMR, os pescadores motorizados podem ser forçados a reduzir as distâncias percorridas para poupar combustível, aumentando a pressão sobre áreas costeiras já exploradas pelas comunidades que pescam sem embarcações motorizadas.
O estudo dedica ainda um capítulo às mulheres, que considera serem as mais expostas e menos protegidas na cadeia de valor da pesca artesanal.
“As 397.688 pessoas identificadas pelo censo incluem 122.731 profissionais noutras atividades ao longo da cadeia de valor. É precisamente neste grupo que as mulheres têm maior presença”, refere.
O estudo aponta que as mulheres são particularmente afetadas pelo aumento dos custos de transporte, processamento e comercialização do pescado, além de enfrentarem dificuldades acrescidas no acesso ao crédito formal.
“É um ciclo com duas vítimas simultâneas: o pescador, que não sai ao mar porque o combustível está demasiado caro e que, portanto, não tem rendimento, e o consumidor, que não encontra peixe a preço acessível porque a oferta caiu”, sustenta o estudo.














































