O Olive Oil World Congress (OOWC) deu início à sua primeira jornada técnica com a inovação como protagonista incontestável. Inteligência artificial, drones, plataformas de gestão de dados, digitalização da cadeia de valor e automatização industrial estiveram no centro das primeiras intervenções de um programa que confirma que o olival e o lagar do século XXI encontram na tecnologia o seu principal fator de competitividade.
Miguel Córdoba, da xFarm Technologies, inaugurou as sessões técnicas com uma apresentação sobre o impacto real que a aplicação das novas tecnologias já está a ter na cultura da oliveira, que vive atualmente um momento-chave de convergência tecnológica. Sob o título “Smart farming no setor do azeite: IA, drones e dados”, Córdoba mostrou como as plataformas de gestão digital permitem atualmente monitorizar parcelas em tempo real, otimizar a rega e a fertilização, detetar a presença de pragas — como a mosca-da-azeitona — e planear os trabalhos agrícolas com um nível de precisão até agora inacessível para a maioria dos olivicultores.
O especialista sublinhou que estas tecnologias, longe de serem exclusivas das grandes explorações agrícolas, estão cada vez mais acessíveis aos produtores de média dimensão, apelando ao setor para que as encare como um investimento estratégico para reduzir custos e aumentar a qualidade.
O setor agroalimentar digital continua a crescer
Chiara Corbo, diretora do Smart AgriFood Observatory do Politécnico de Milão, apresentou os dados globais que enquadram esta transformação. Segundo o observatório que dirige, 2025 marcou um ponto de viragem: o investimento mundial em inovação digital para o setor agroalimentar cresceu 21%, atingindo os 11,5 mil milhões de dólares, enquanto o número de startups ativas no setor aumentou 6%, após o abrandamento registado em 2024.
“Estamos perante uma fase de maturidade: os investidores já não financiam promessas, financiam soluções escaláveis com impacto real na cadeia de valor”, afirmou Corbo.
A consolidação do ecossistema reflete uma seleção mais exigente por parte dos fundos de capital de risco, orientados para iniciativas capazes de gerar impacto concreto ao longo de toda a cadeia agroalimentar.
Segundo os dados apresentados por Corbo, a Inteligência Artificial consolida-se como a tecnologia mais difundida: quatro em cada cinco explorações agrícolas que já adotaram soluções 4.0 planeiam continuar a investir nos próximos anos. As aplicações mais comuns incluem a previsão meteorológica, a otimização da rega e da fertilização, o controlo de qualidade e a rastreabilidade dos produtos.
O setor do azeite já apresenta exemplos concretos desta transformação: drones para a deteção da mosca-da-azeitona e aplicação de tratamentos fitossanitários em zonas de difícil acesso, fertilização de taxa variável com recurso à cartografia espacial do olival e ferramentas digitais de rastreabilidade que protegem o produto contra a falsificação e permitem gerir grandes volumes de dados ao longo de toda a cadeia de valor.
Corbo alertou, contudo, que a fraca conectividade nas zonas rurais, os problemas de interoperabilidade entre plataformas e as barreiras culturais entre os agricultores continuam a dificultar a adoção destas tecnologias, defendendo políticas públicas de apoio à transição digital.
A própria União Europeia, na sua “Visão para a Agricultura e a Alimentação”, coloca a digitalização no centro da transição para uma agricultura mais competitiva e sustentável, reforçando os fundos do programa Horizon Europe destinados à inteligência artificial e às tecnologias avançadas.
O lagar do futuro: automatização, eficiência energética e economia circular
Na sessão dedicada aos processos industriais, Dolores Pérez, investigadora da Universidade de Córdoba (UCO), Antonio López, da GEA Group, e Julián Ferrer, da De Prado, participaram na mesa-redonda “O lagar do futuro: automatização, eficiência energética e circularidade”.
Os três especialistas concordaram que o lagar do século XXI deverá integrar sistemas de automatização que reduzam a dependência da mão de obra, otimizem os tempos de extração e garantam uma qualidade homogénea do azeite, complementados por sistemas de rastreabilidade digital que reforcem a confiança do consumidor e permitam diferenciar o produto nos mercados premium.
A eficiência energética ocupou igualmente um lugar central no debate. O custo da energia representa uma das principais despesas operacionais dos lagares e, segundo os especialistas, existe uma ampla margem de melhoria através da recuperação de calor nos processos de extração, da integração de energias renováveis e da monitorização inteligente dos consumos.
A economia circular completou o triângulo da discussão. Os subprodutos do processo de extração — bagaço de azeitona, águas ruças e caroço de azeitona — encerram um potencial industrial e energético que o setor continua a não explorar plenamente. Para os participantes, transformar estes subprodutos em novas fontes de valor representa não apenas uma oportunidade económica, mas também uma exigência de sustentabilidade que os mercados e a regulamentação irão impor de forma crescente.
Estas sessões integram o intenso programa da primeira jornada do OOWC, que prossegue ao longo do dia com sessões dedicadas ao melhoramento genético e à resiliência climática do olival, à rega e fertilização, à qualidade e segurança do produto, às propriedades sensoriais do azeite virgem extra e à apresentação de pósteres científicos, antes da prova de azeites do mundo e da cerimónia de entrega de prémios que encerrará o dia.
O Congresso conta com o apoio institucional do Conselho Oleícola Internacional (COI), do CIHEAM Zaragoza e da Fundação Dieta Mediterrânica, bem como de entidades públicas como o Ministério da Agricultura e Assuntos Marítimos de Portugal, a Junta de Castilla-La Mancha (Campo y Alma), a Generalitat da Catalunha, a Junta da Andaluzia e o IMIDRA.
No setor privado, apoiam já esta segunda edição, além da Olivum, entidades como o AgroBank, o BPI do Grupo CaixaBank, a Interprofissional do Azeite Espanhol, a GEA Group, a Novonesis-Univar Solutions, a APOAC (Associação para a Promoção do Olival e Azeite de Aire e Candeeiros), através da sua marca Olivedos do Carso, a Adsaica (Associação de Desenvolvimento das Serras de Aire e Candeeiros), a Feira de Saragoça (ENOMAQ), a Kubota, a Dazeite e a Siliker.
Sobre o OOWC
O Congresso Mundial do Azeite reúne os principais especialistas mundiais em cada área de conhecimento, promovendo a partilha das mais recentes novidades e inovações em todos os elos da cadeia de valor do azeite. Operadores de todo o mundo reunir-se-ão em Lisboa com o objetivo de unir esforços e continuar a trabalhar em conjunto para o desenvolvimento do setor. Mais informações em: www.oliveoilworldcongress.com.
Fonte: Olive Oil World Congress














































