Venezuela. “Estão a furar a quarentena, porque não têm comida”

Venezuela. “Estão a furar a quarentena, porque não têm comida”

“Queda-te em casa” (fica em casa), é o conselho mais repetido na campanha lançada pela Cáritas da Venezuela através dos meios de comunicação. Num país onde falta quase tudo, é prioritário ensinar a população a proteger-se do novo coronavírus. As recomendações de higiene são para todos, e há spots direcionados às crianças, a quem é pedido que ajudem os pais e os familiares.

À Renascença, Janeth Márquez, diretora da Cáritas Venezuela, fala numa situação dramática, em que o desespero da fome faz com que muitos já não cumpram as regras de isolamento.“Mais de 80% da população está na pobreza. Desses, mais de 60% viviam da economia informal, paralela, mas como agora estão em casa, não podem trabalhar e não têm nada na despensa, muitos estão a sair para arranjar alimentos. Estão a furar a quarentena, porque não têm comida”, conta.

A falta de combustível está a complicar tudo. “Mais de 90% da população não consegue arranjar gasolina, e até as organizações humanitárias como a Cáritas e as Nações Unidas estão com problemas para levar ajuda”. O mesmo acontece com os bens essenciais. “Os camiões não conseguem trazer a produção do campo até às cidades. Temos conhecimento de agricultores e produtores de leite que tiveram de o deitar fora, porque não há maneira de o transportar”.

Mas, outro problema grave – ainda mais em plena pandemia – é que muitos venezuelanos nem sequer têm água em casa. “Mais de 60% da população não tem água corrente, potável. Ora, uma das medidas mais importantes que temos para combater o coronavírus é lavar as mãos com água e sabão, só que não há água! Isto vai-se complicando.”, lamenta Janeth Márquez.

Higiene e alimentação só para quem mais precisa

Dar resposta às necessidades imediatas é a grande preocupação da Cáritas, que já começou a distribuir “kits” de higiene, com “cloro, detergente, desinfetante, sacos do lixo. Queremos entregar pelo menos três mil kits de higiene a três mil famílias”. Mas, não é um programa de apoio para todos. “É para as pessoas com necessidades especiais, os mais vulneráveis”, explica à Renascença.

Janeth Marquez receia que dentro de uma ou duas semanas se acabem os recursos para a Cáritas continuar a ajudar, porque com a pandemia estão da dar resposta “a situações que não estavam previstas”.

“Para nós também tem sido uma aprendizagem, saber focalizar as ajudas. Já não temos programas só para os pobres, mas dentro dos pobres temos de ver quem está mais necessitado”.

Os “kits” de higiene não têm máscaras, porque não as há, mas a Cáritas está a ensinar como podem ser feitas. “Estamos a incentivar que as senhoras nas comunidades façam máscaras. Mesmo não sendo com os melhores materiais, mas perante o facto de não termos nada, pelo menos termos essas que ajudem a população”.

A prioridade, ao nível do apoio alimentar, continuam a ser os idosos e as crianças subnutridas. “Já apoiávamos 10 mil crianças com défice nutricional, e continuamos a fazê-lo, entregando suplementos nutricionais e alimentos a esta população que já tinha sido diagnosticada este ano, 2020. Estamos a dar prioridade às famílias com crianças nestas condições, e também aos idosos que vivem com os netos, porque os filhos emigraram. Estamos a dar-lhes alimentos”.

“Não sabemos qual é a situação real da pandemia”

Janeth Marquez receia que os dados oficiais sobre o número de infetados com Covid-19 na Venezuela estejam longe da realidade. “A Venezuela é um dos países que, segundo o governo, tem menos casos de infetados e mortos. O nosso medo é que é também o país que tem feito menos testes de diagnóstico. Até foi o país que avançou com a quarentena mais rápido (em meados de março ), mas sem testes não sabemos qual é a situação real da pandemia na Venezuela”, explica.

Dos casos conhecidos “60 por cento são de pessoas que vieram do estrangeiro, pessoas da classe média que viajaram, sobretudo à Europa. Mas neste momento é preciso conhecermos os casos mais ‘comunitários’, como dizem os peritos, porque se os casos alastrarem no resto da população isto vai complicar-se muito. Oxalá não aconteça”.

Janeth Márquez alerta para a situação que começa a agravar-se junto à fronteira, com o regresso de um número considerável de venezuelanos que tinham emigrado, por causa da crise, e estão a voltar. Números certos não tem. “Há quem fale em 15 mil, há quem diga que já entraram 40 mil”. O que sabe é que há um risco acrescido nessas zonas.

“Numa situação de pandemia, há falta de albergues na fronteira, então começa a haver uma situação complicada com as pessoas que estão a voltar, e têm necessidade não só de ficar em quarentena, mas de comer e tomar banho, mas não há água, não há alimentos!”, diz.

Apesar das muitas – cada vez mais – dificuldades para ajudar, a Igreja católica, através da a Cáritas continua próxima dos venezuelanos, com apoio concreto no terreno e conselhos práticos que passam diariamente na rádios do país. “A Igreja e a Cáritas estão contigo”, é a mensagem repetida nos vários spots da campanha de prevenção da instituição católica.

Segundo o relatório divulgado em janeiro pela Conferência Episcopal da Venezuela, em 2019 a Cáritas apoiou, direta e indiretamente, 6 milhões de pessoas, com refeições, medicamentos e assistência médica, tendo conseguido instalar 70 mil estações de tratamento de água.

O artigo foi publicado originalmente em Rádio Renascença.

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