O regadio nos Estados Unidos da América (EUA) pode evitar 363 vezes mais emissões de gases com efeito de estufa (GEE) do que aquelas que produz, ao permitir cultivar mais alimentos em menos área e travar a conversão de ecossistemas naturais em terras agrícolas, conclui um estudo da Universidade Estadual do Colorado (CSU).
Segundo os investigadores, se o regadio fosse eliminado nos EUA, compensar a perda de produção exigiria expandir as terras cultivadas, e as emissões associadas a essa conversão seriam 363 vezes superiores às que o regadio gera atualmente. A equipa estima que as emissões evitadas equivalem a 363 anos das atuais emissões anuais do setor.
Ao todo, os investigadores calculam que a menor conversão de terras evita cerca de 6,86 gigatoneladas de emissões de GEE. Este valor supera o total das emissões dos EUA em 2024 (5,91 gigatoneladas) e corresponde a cerca de 13% das emissões globais desse ano, segundo Avery Driscoll, autora principal do trabalho.
De acordo com o estudo, o uso da terra para agricultura e a conversão de terras associada à produção de alimentos, fibras e combustíveis representam quase um quarto das emissões globais de GEE. “Este trabalho deixou claro que o regadio tem um efeito líquido positivo sobre as emissões”, afirmou a responsável, explicando que “as emissões evitadas pela redução das alterações indiretas no uso das terras foram muito maiores do que as emissões diretas, e isso poderia diminuir ainda mais com a eletrificação.”
A maior fonte de emissões diretas do regadio é a energia necessária para bombear a água, tanto nas explorações agrícolas como na transferência entre bacias hidrográficas. Substituir as bombas movidas a combustíveis fósseis por equipamentos elétricos poderia reduzir estas emissões, sobretudo à medida que a rede elétrica se torna mais limpa, e os investigadores sugerem que os decisores políticos considerem incentivos à eletrificação nos programas de agricultura climaticamente inteligente.
Para chegar aos resultados, a equipa calculou a relação de produtividade entre culturas de sequeiro e de regadio em cada estado, com base em inquéritos agrícolas e num modelo de aprendizagem automática, e usou um modelo económico global para simular o que aconteceria se todas as culturas norte-americanas dependessem apenas da chuva. Os resultados foram depois cruzados com mapas do carbono armazenado na vegetação e no solo. A análise não incluiu as emissões da aplicação de fertilizantes nem o metano de origem pecuária.
Os autores sublinham, contudo, que os benefícios climáticos são apenas parte de um debate mais amplo sobre o uso da água. “Quando falamos sobre o uso da água, particularmente no oeste dos EUA, existem compensações em cada uso, e compensações que vão além da produção de alimentos e das emissões de GEE”, afirmou o coautor Nathan Mueller, professor associado da CSU.
Para além do ganho de produtividade, os investigadores apontam o regadio como estratégia de adaptação, por aumentar a resiliência das culturas ao stress térmico e à seca, e defendem que as políticas climáticas agrícolas devem contabilizar tanto as emissões diretas nas explorações como os efeitos indiretos da produtividade no uso da terra.
O artigo foi publicado originalmente em Vida Rural.















































