A subida dos preços dos fertilizantes já está a levar agricultores a rever decisões sobre utilização de fatores de produção, calendário de sementeiras e opções produtivas. O alerta foi deixado pela World Farmers’ Organisation, durante um evento realizado na sede da FAO, a 13 de julho de 2026.
A intervenção decorreu no âmbito do evento “Implicações das perturbações no Estreito de Ormuz para os mercados e comércio globais agrícolas e de fertilizantes”, realizado à margem da 77.ª sessão do Comité de Problemas das Matérias-Primas da FAO.
Segundo Andrea Porro, secretário-geral da World Farmers’ Organisation, embora as perturbações nas cadeias de abastecimento continuem a ser uma preocupação, o constrangimento mais imediato para muitos agricultores é o preço dos fertilizantes, mais do que a sua disponibilidade.
A organização refere que os preços elevados já estão a afetar decisões nas explorações. Alguns agricultores estão a reduzir as doses de aplicação, a adiar compras e, em certos casos, a atrasar sementeiras. Os efeitos podem ainda não estar totalmente refletidos nos mercados alimentares, mas poderão surgir mais tarde no ciclo produtivo, através de quebras de rendimento e menor disponibilidade de alimentos.
Pequenas explorações mais expostas
A World Farmers’ Organisation sublinhou que os agricultores não têm a mesma capacidade para absorver o choque. As pequenas explorações e as explorações familiares tendem a ajustar-se mais cedo e de forma mais acentuada, por terem menor acesso a liquidez, armazenamento e compras antecipadas.
Já os produtores de maior dimensão podem estar mais preparados para gerir a volatilidade de curto prazo, recorrendo a compras antecipadas, reservas de tesouraria ou mecanismos de compra coletiva.
Para a organização, as respostas à crise devem ter em conta os diferentes níveis de exposição dos agricultores e a sua capacidade para suportar uma pressão prolongada sobre os preços.
Resiliência não depende apenas das importações
Andrea Porro defendeu que a resiliência não deve ser medida apenas pelo volume de importações. Entre as medidas apontadas estão a compra cooperativa e coletiva, o crédito sazonal acessível, reservas estratégicas, fontes e rotas de abastecimento diversificadas, melhor informação de mercado e maior transparência nos preços.
Estas medidas devem ser combinadas com apoio ao comércio aberto, previsível e baseado em regras, bem como com investimento de longo prazo em gestão integrada de nutrientes, análises de solo, serviços de extensão rural e aplicações mais precisas de fertilizantes.
Segundo o responsável, as decisões dos agricultores tendem a agravar-se à medida que a pressão persiste. Numa primeira fase, podem ajustar o momento das compras devido a limitações de liquidez. Se os preços continuarem elevados, podem reduzir as doses de aplicação, atrasar sementeiras ou recorrer mais a fontes locais de nutrientes, quando disponíveis. Em situações prolongadas, podem ser obrigados a decidir que culturas ou parcelas devem ser priorizadas.
O acesso à água acrescenta outro fator de risco. Em áreas de sequeiro, aplicar fertilizante quando a precipitação é incerta representa um risco financeiro relevante. Ao mesmo tempo, uma precipitação favorável pode não gerar todo o seu potencial produtivo se os agricultores não conseguirem suportar os custos de nutrição das culturas.
Incerteza sobre custos futuros
Os membros da World Farmers’ Organisation que preparam as próximas campanhas agrícolas manifestaram preocupação com os preços dos fertilizantes, que ainda não estão definidos, aumentando a incerteza sobre os custos de produção.
A organização alerta ainda que países sem litoral, pequenas ilhas e países fortemente dependentes de importações enfrentam exposição adicional, devido a custos mais elevados de energia, transporte e logística.
Para países do Sul Global muito dependentes de fertilizantes importados, Andrea Porro identificou quatro prioridades recorrentes entre os membros da organização: facilitar compras cooperativas e coletivas, melhorar o acesso a crédito acessível para pequenas explorações e explorações familiares, desenvolver reservas estratégicas e diversificar fontes e rotas de abastecimento.
A World Farmers’ Organisation defende também investimento em biofertilizantes, análises de solo, formação e serviços de extensão rural. Segundo a organização, estes serviços e tecnologias continuam a ser particularmente difíceis de aceder para produtores de menor dimensão.
A organização considera ainda essencial melhorar a informação de mercado e a transparência de preços, para ajudar os agricultores a planear compras e tomar decisões de produção mais informadas.
O artigo foi publicado originalmente em Vida Rural.















































