Para muitos consumidores, o rótulo “biológico” está associado a alimentos mais saudáveis, melhor valor nutricional e padrões de produção mais elevados. Embora o frango biológico apresente frequentemente níveis superiores de alguns nutrientes benéficos, investigações recentes sugerem que a realidade é mais complexa do que uma simples comparação entre produtos biológicos e convencionais.
Cientistas que estudaram o comportamento da carne de frango durante a digestão verificaram que alguns cortes de frango biológico apresentavam uma maior propensão para a oxidação, um processo químico natural que ocorre durante a confeção e a digestão. Os resultados não indicam que o frango biológico seja prejudicial para a saúde, mas desafiam a ideia de que um sistema de produção é automaticamente superior em todos os aspetos.
O que acontece à carne depois de a consumirmos?
A qualidade dos alimentos é frequentemente avaliada em função do seu valor nutricional, sabor, frescura ou método de produção. No entanto, a digestão também desempenha um papel importante.
À medida que os alimentos são degradados no estômago e no intestino, ocorrem diversas reações químicas. Durante esse processo, algumas gorduras e proteínas podem reagir com o oxigénio, originando compostos conhecidos como produtos de oxidação. Estas reações ocorrem naturalmente e são influenciadas pela própria composição dos alimentos.
O grau de oxidação depende de vários fatores, incluindo o tipo de gordura presente, o teor de ferro da carne e os níveis de antioxidantes naturais que ajudam a proteger os tecidos contra danos químicos.
Nem todos os cortes de frango se comportam da mesma forma
Uma das principais conclusões do estudo é que o tipo de carne tem grande influência nos resultados observados.
A carne da coxa apresentou um comportamento muito diferente da carne do peito. Por ser mais escura, a carne da coxa continha maiores quantidades de gordura, ferro e ácidos gordos polinsaturados, incluindo ómega-3 e ómega-6. Embora estes nutrientes sejam frequentemente considerados benéficos para a saúde, são também mais suscetíveis à oxidação.
Por outro lado, a carne do peito demonstrou maior estabilidade durante a digestão e produziu menores quantidades de compostos de oxidação. Os investigadores acreditam que tal se deve, em parte, à presença de níveis mais elevados de compostos antioxidantes naturais que ajudam a limitar estes processos.
Para os consumidores, isto significa que as diferenças entre cortes podem, por vezes, ser tão relevantes como as diferenças entre sistemas de produção.
Porque se destacou a carne da coxa proveniente de produção biológica?
Entre todas as amostras analisadas, a carne da coxa de frango biológico apresentou a maior tendência para formar produtos de oxidação durante a digestão.
Esta situação esteve principalmente associada à sua composição. As coxas provenientes de produção biológica continham níveis superiores de gorduras polinsaturadas e ferro, dois fatores que favorecem as reações de oxidação. Como resultado, a digestão originou concentrações significativamente mais elevadas de vários marcadores de oxidação quando comparada com a carne proveniente de sistemas convencionais.
À primeira vista, esta conclusão pode parecer contraditória. Afinal, níveis mais elevados de ácidos gordos ómega-3 são geralmente considerados uma vantagem nutricional. No entanto, os mesmos compostos que oferecem benefícios nutricionais podem também ser mais vulneráveis a alterações químicas.
Este exemplo ilustra um princípio fundamental da ciência da nutrição: os alimentos raramente podem ser classificados simplesmente como “bons” ou “maus”. Uma característica que proporciona uma vantagem pode, simultaneamente, trazer outros desafios.
Significa isto que o frango biológico é menos saudável?
A resposta é não.
Os investigadores sublinham que uma maior oxidação durante a digestão não implica automaticamente um maior risco para a saúde. O organismo humano dispõe de numerosos mecanismos de proteção e os efeitos destes compostos dependem de diversos fatores, incluindo a quantidade formada e a forma como são metabolizados.
Além disso, o estudo foi realizado através de um modelo laboratorial que simula a digestão e não através de ensaios de alimentação em seres humanos. Embora estes modelos forneçam informação científica valiosa, não reproduzem integralmente o que acontece no corpo humano.
Por esse motivo, os resultados não devem ser interpretados como um motivo para evitar o consumo de carne de aves proveniente de produção biológica. Pelo contrário, evidenciam a necessidade de continuar a investigar a forma como diferentes alimentos se comportam após a ingestão.
O que significa isto para os consumidores?
A principal conclusão é que a qualidade alimentar é mais complexa do que aquilo que um simples rótulo pode transmitir.
O frango biológico pode apresentar vantagens, como um perfil diferente de ácidos gordos e métodos de produção valorizados por muitos consumidores. O frango convencional pode possuir outras características que influenciam a sua estabilidade durante a confeção e digestão. Nenhum dos sistemas pode ser avaliado apenas com base num único parâmetro nutricional.
Para quem procura manter uma alimentação equilibrada, as recomendações gerais permanecem inalteradas:
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Manter uma alimentação variada;
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Incluir diferentes fontes de proteína;
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Evitar considerar qualquer alimento como um “superalimento”;
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Dar prioridade aos padrões alimentares globais, em vez de se concentrar exclusivamente em nutrientes isolados ou em rótulos específicos.
Os especialistas em nutrição têm vindo a demonstrar que os resultados para a saúde dependem sobretudo da alimentação e do estilo de vida como um todo, e não de um único alimento.
Olhar para além do rótulo
A crescente popularidade dos alimentos biológicos reflete o interesse dos consumidores por questões como a sustentabilidade, o bem-estar animal e a qualidade dos alimentos. Estes aspetos continuam a ser importantes. Contudo, esta investigação demonstra que a relação entre o método de produção e a qualidade nutricional nem sempre é linear.
O que acontece aos alimentos após serem consumidos pode ser tão importante quanto aquilo que é apresentado no rótulo nutricional. À medida que a investigação avança nas áreas da digestão, metabolismo e química alimentar, será possível compreender melhor a forma como os diferentes alimentos influenciam a saúde.
Por agora, estes resultados servem como um lembrete útil: escolher alimentos saudáveis raramente depende de um único rótulo. Trata-se de compreender o contexto global e reconhecer que a nutrição é frequentemente mais complexa do que parece à primeira vista.
Sobre o Projeto INTAQT (https://h2020-intaqt.eu/)
O INTAQT é um projeto de investigação com a duração de cinco anos, financiado pelo programa Horizonte 2020 (H2020) da União Europeia. O projeto explora a relação entre os sistemas de produção pecuária e a qualidade dos produtos provenientes de aves e bovinos. Através do conceito de“One Quality” (Qualidade Única), o INTAQT procura demonstrar que é possível produzir, de forma consistente, produtos de origem animal seguros, nutritivos e apreciados pelos consumidores, tanto em sistemas extensivos como intensivos, contribuindo simultaneamente para uma produção pecuária mais sustentável.
Fonte: INTAQT Project
















































