O day after no setor agroalimentar – Gonçalo Almeida Simões

O day after no setor agroalimentar – Gonçalo Almeida Simões

Passado que está o estado de emergência, é hora de fazer um balanço preliminar daqueles que foram os mais afetados no setor agroalimentar.

À semelhança de outros setores de produção de bens essenciais, o agroalimentar nunca parou e ganhou até um novo protagonismo junto da sociedade portuguesa, cujas tendências de consumo se focaram novamente no made in Portugal e em produtos com denominação de origem nacional. As cadeias de distribuição curta saem também reforçadas com os mercados locais e entregas ao domicílio, por parte de pequenos produtores, algo que já era trendy para a classe média-alta urbana ou uma questão de princípio para os entusiastas da sustentabilidade ambiental e que agora se generalizou.

O setor agroalimentar sai incólume em termos de saúde pública porque apenas se assinalaram dois casos mediáticos de Covid-19, o dos trabalhadores rurais em Faro e o da indústria de carne de aves na Azambuja, o que mostra bem a sua resiliência em termos sanitários, pois conseguiu conviver saudavelmente com a pandemia sem nunca cessar a atividade.

Passado que está o estado de emergência, é hora de fazer um balanço preliminar daqueles que foram os mais afetados no setor agroalimentar: o vinho (bem não essencial, dependente do canal Horeca e da exportação); flores e frutos vermelhos (bens não essenciais, muito perecíveis e altamente exportáveis); queijos (muito dependentes do canal Horeca) e carne (mercados de leilões encerrados).

Em sentido inverso e tendo em conta o açambarcamento inicial e uma nova cultura de consumo unicamente doméstico ou em versão take away há produtos que tiveram um crescimento considerável no consumo, incluindo massas, arroz, azeite, atum e enlatados em geral. Veremos agora se estes produtos terão taxas de crescimento sustentando, depois de esgotado o stock doméstico que cada um de nós acumulou em modo “formiguinha”.

A economia nacional retomará de forma muito progressiva sendo evidente que os maiores perdedores do agroalimentar não irão recuperar de um dia para o outro. Sabemos também que o consumidor, dada a diminuição do poder de compra, abandonará em breve algum ímpeto consumista e tenderá cada vez mais a olhar para o preço, dada a pressão no orçamento familiar. Por isso mesmo, há já movimentações de alguma grande distribuição com campanhas promocionais agressivas e contactos para diminuir preços pagos à produção, argumentando com a situação excecional que estamos a viver. Há ainda a incerteza sobre a mão-de-obra disponível na altura das colheitas, que começa agora e se prolongará, dependendo da cultura, até ao final do ano.

Em futurologia global, há sinais de alarme que podem desde já desequilibrar os mercados mundiais da alimentação: a FAO alerta para uma pressão alimentar global, a OMC fala de uma queda do comércio internacional de 15% a 30% e a Rússia acaba de fechar a exportação de cereais até 1 de julho. Não seria por isso de estranhar que os debates protecionistas sobre soberania alimentar ganhassem ainda mais força.

Consultor para o agroalimentar

O artigo foi publicado originalmente em Dinheiro Vivo.

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