Não há cérebro B

Não há cérebro B

[Fonte: Público]

Os cientistas têm o hábito de estarem permanentemente errados e, ao mesmo tempo, de em cada momento da história nunca terem estado tão certos. A ciência pode estar errada, mas é um profundo erro ignorá-la. O consenso científico é de que existem alterações climáticas devido ao efeito de estufa e de que o efeito de estufa tem aumentado por influência dos seres humanos, mesmo que eles não sejam totalmente responsáveis por esse aumento. Qualquer pessoa com o mínimo de respeito pela ciência só pode formar uma opinião sobre o clima começando por estas premissas, que até se podem comprovar erradas um dia, mas que são o melhor que temos.

Infelizmente, para muitos, o respeito pela ciência termina na climatologia. A partir daqui, assumem uma posição quase religiosa em relação ao ambiente, em que a única atitude perante o problema é o sacrifício pessoal e colectivo. Em muitos casos guiados por preconceitos de origem marxista, o “decrescimento” ou o “fim da sociedade capitalista” é apontado como solução para os problemas do planeta. Esta é, pelos motivos que veremos a seguir, uma perspectiva muito perigosa e, ironicamente, anti-científica. Aceitando a ciência para estabelecer a situação de partida, talvez fosse importante não rejeitar outras áreas do conhecimento ao decidir a melhor estratégia para o combater.

E que áreas do conhecimento não podemos esquecer? Não podemos esquecer a economia. O que a economia nos diz é que a estratégia de travar o crescimento económico para salvar o ambiente tem uma falha óbvia: as pessoas só se preocupam com causas comunitárias de longo prazo quando as suas necessidades individuais de curto prazo estão resolvidas. No mais recente Eurobarómetro, fica bastante claro que é nos países mais ricos que existe uma maior consciencialização para o problema ambiental. Nos países mais ricos da UE, mais de 20% da população coloca o ambiente no topo das suas preocupações. Entre os mais pobres, os valores são inferiores a 10%. Se olhássemos para os países de terceiro mundo, o resultado seria ainda mais baixo. Fica claro que a única forma de trazer o ambiente para o topo das preocupações das pessoas é eliminar outras preocupações de curto prazo, ou seja, crescer economicamente. A estratégia do decrescimento defendido por alguns mais radicais é uma estratégia contraprodutiva para o ambiente por lhe retirar apoio político a prazo.

A economia também nos diz que quando temos um bem partilhado, os incentivos de cada um a cuidar desse bem são muito pequenos. O planeta, e o seu clima, são o caso mais extremo de um bem partilhado. Emissões de CO2 em Portugal têm efeitos no clima de todo o mundo, mas o contrário também é verdade. Existem 7,5 mil milhões de seres humanos, dos quais 0,15% vivem em Portugal. Nós podíamos adoptar todas as políticas de decrescimento defendidas pelos fundamentalistas, acabar com o consumo de carne e combustíveis fósseis, que ainda assim não mexeríamos a agulha do aquecimento global. A temperatura não deixaria de subir um centésimo de um grau pelo nosso sacrifício. Mas esta estratégia colocar-nos-ia numa posição perigosa: estaríamos indefesos e incapazes de mitigar as consequências da subida da temperatura. Um país pobre e descapitalizado sofreria de forma mais grave evidente com os problemas das alterações climáticas. Mas nem sequer precisamos que os outros países não cumpram a sua parte para sentirmos as consequências das alterações climáticas. Mesmo assumindo que todos os países cumprem o Acordo de Paris, a temperatura global ainda assim subirá pelo menos 1,5 graus, com todas as consequências que daí advêm. Não estar preparado para tal é irresponsável e um atentado às próximas gerações.

Finalmente, não podemos ignorar a história. Não é a primeira vez na história da humanidade que há uma ameaça existencial. No passado, todas essas ameaças (desde subprodução agrícola, doenças e esgotamento de recursos) foram ultrapassadas graças ao progresso tecnológico. No século XVIII, utilizando os dados que existiam, Malthus chamou a atenção para o risco de sobrepopulação e da incapacidade de alimentar todos os seres humanos. Menos de três séculos depois, a população mundial é oito vezes maior e hoje a obesidade já mata mais pessoas no mundo do que a fome. Todas as premissas de Malthus estavam certas, mas ele esqueceu-se de contabilizar o efeito do progresso tecnológico e a capacidade do ser humano em adaptar-se. Não devemos nunca subestimar a necessidade de continuar a alimentar o progresso tecnológico. Mas para o progresso tecnológico existir, é preciso haver capacidade de investimento e essa só se consegue com países capazes de um crescimento economicamente robusto (basta ver o que aconteceu aos níveis de investimento em Portugal nestes últimos 20 anos de estagnação).

O crescimento económico e o progresso tecnológico são muito importantes por uma razão adicional: hoje as alterações climáticas poderão estar a ser causadas pelos seres humanos, mas no futuro poderá haver alterações climáticas resultantes de outros factores. Abdicar da melhor ferramenta que temos para nos adaptarmos não é só pouco inteligente, é profundamente irresponsável e perigoso.

Alguns dos efeitos das alterações climáticas já se começam a fazer sentir no país. No litoral há problemas de avanço do nível das águas. No interior, alguns agricultores, incluindo do importante sector vitivinícola, começam a ter problemas de falta de água. O país precisa de pensar em medidas de adaptação caso a situação se continue a agravar e de ter capacidade, e consenso político, para as aplicar. Precisamos de pensar em investir em estações de dessalinização, por exemplo, ou em processos de gestão de solos que maximizem a captura de CO2. Acima de tudo, precisamos de continuar a investigar e desenvolver conhecimento sobre o tema porque os problemas (e soluções) de amanhã podem não ser os de hoje. Abdicar do crescimento económico, hostilizar quem o promove, é de uma profunda irresponsabilidade.

Chegou o momento de pensarmos no ambiente sob uma perspectiva realista e cientificamente transversal, abandonando perspectivas simplistas e enviesadas ideologicamente. Seguir estas perspectivas não é só pouco inteligente e historicamente ignorante, é perigoso para o país e para a nossa capacidade de enfrentar os problemas. Na questão ambiental, como em todas, convém ter capacidade crítica e não comprar todas as narrativas de quem quer usar uma causa nova (o ambientalismo) para atingir objectivos antigos (a destruição do capitalismo). Convém abstrair-se daquilo que nos querem fazer pensar e usar o seu próprio cérebro. Afinal, não há cérebro B.

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O artigo Não há cérebro B foi publicado originalmente em Público.

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