Não de obra

Não de obra

O problema não é novo mas adensa-se de ano para ano. A dificuldade em encontrar mão de obra disponível para trabalhar nas explorações agrícolas está a levar ao recrutamento de milhares de trabalhadores das mais variadas nacionalidades que estão a assegurar as colheitas e outras operações culturais um pouco por todo o país. Mesmo que uma parte deste recrutamento seja feito através de agências de trabalho temporário, as dificuldades mantêm-se. E vão desde a capacidade de alojar grupos de trabalhadores em condições dignas até à responsabilização pela vacinação de grupos de pessoas com origens que vão do Nepal ao Egipto e que não dominam minimamente a língua portuguesa.

Esta questão leva-nos a dois pontos importantes. Em primeiro lugar à reflexão da sociedade em que nos transformamos, onde políticas sociais desajustadas levam a que muita gente apta para trabalhar escolha estar em permanente estado de desemprego e a viver de rendimentos estatais sem que isso incomode. Isto é transversal a muitas atividades, desde a construção civil à restauração e, claro, à agricultura.

A juntar a esta dificuldade, a falta de tecnologia madura que contorne a necessidade de mão de obra humana em tarefas que as máquinas (ainda) não podem fazer. A vinha e o olival já dispõem de soluções (embora não sirvam para todos) mas na área hortofrutícola ainda há pouco desenvolvimento e não será seguramente para muito breve o aparecimento de automação eficiente e barata para culturas como pequenos frutos, maçãs peras ou abacates, só para dar alguns exemplos.

Num país onde o desenvolvimento agrícola foi notório na última década, com uma orientação clara para a exportação e para a produção de qualidade, e com a bandeira da autossuficiência a agitar, é preciso olhar para a escassez de mão de obra como um sério problema que merece a definição de uma estratégia clara, co-construída por todas as partes interessadas e apoiada politicamente. E quando falo em apoio político, o que se pede muitas vezes é simplificação. Até porque, como se diz na gíria, “só que não empate já ajuda”…

O artigo foi publicado originalmente em Vida Rural.

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