Pedro Moleira, da SIC, conduziu este debate digital que contou com a presença de Pedro Miranda, Carlos Fulfgêncio, Pedro Barata, e Tiago Martins de Oliveira (da esquerda para a direita) “Falta-nos algo como uma Lei de Bases do clima”

“Falta-nos algo como uma Lei de Bases do clima”

Projectos Expresso. O segundo debate digital do projeto “50 para 2050”, um projeto do Expresso e da BP, decorreu esta terça-feira, 20 de outubro. Daqui a uma semana há mais um encontro, novamente no Facebook do Expresso, tendo como tema o roteiro de descarbonização portuguesa

O projeto “50 para 2050”, uma iniciativa do Expresso e da BP, prosseguiu esta terça-feira com um mais um debate digital, desta vez sobre o tema “Os impactos das alterações climáticas em Portugal”. Um encontro que, tal como o da semana passada, calhou decorrer na semana em que a tempestade Bárbara está a atravessar o país, provocando chuvas fortes e constantes. “Uma das consequências das alterações climáticas é uma maior intensidade de eventos extraordinários, como tempestades”, diz Carlos Fulfgêncio. O coordenador em Portugal do The Climate Reality Project, fundado por Al Gore, foi um dos oradores do debate desta tarde e a ele juntaram-se ainda Pedro Miranda, professor da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa; Pedro Barata, CEO da Get2C, uma empresa de consultoria na área das emissões de carbono, e Tiago Martins de Oliveira, presidente da Agência de Gestão Integrada dos Fogos Florestais. Estas foram as principais conclusões do encontro.

Medidas mais ousadas

  • A luta contra o aumento das emissões de gases com efeitos de estufa e, consequentemente, contra as alterações climáticas e os impactos que têm nos territórios, no ecossistema e na sociedade, tem sido intensificada nos últimos anos e a União Europeia tem liderado essa luta, mas ainda não chega, até porque as alterações climáticas são um fenómeno mundial e não basta tomar medidas de forma individual. Tem de ser um esforço global: “as decisões não são suficientemente ousadas e há estados que bloqueiam essas decisões”, diz Carlos Fulgêncio.
  • Em Portugal, onde já se faz muito na área das energias renováveis como forma de reduzir as emissões de carbono, é ainda necessária uma maior concertação na área do clima e do ordenamento do território. “Falta-nos algo como uma Lei de Bases do clima que vincule os sucessivos governos a metas mais fortes em termos de mitigação e de adaptação às alterações climáticas. Por exemplo, hoje são vistas como um anexo ao ordenamento do território, mas isso tem de ser interiorizado. Uma empresa florestal que não tenha um plano de adaptação está em maus lençóis”, diz Pedro Barata, corroborando uma sugestão de Carlos Fulgêncio.
  • De facto, o uso dos solos e o ordenamento do território são duas áreas que têm sofrido com as alterações climáticas, contudo ainda não têm um plano de intervenção dedicado. Até agora, as medidas tomadas têm sido mais na área da descarbonização da produção energética, mas seria essencial intervir no ordenamento do território, porque o território é responsável pela produção agrícola e de produtos alimentares para exportação e também porque o seu ordenamento e limpeza ajuda na prevenção dos fogos.
  • Já percebemos que a solução não é por via do combate, mas sim da prevenção. Depois dos incêndios de 2017 reduziram-se para 50% os fogos provocados por queimadas”, diz Tiago Martins de Oliveira, que sugere ainda que a população promova a compostagem.

Incêndios, seca, falta de água, pragas, praias e agricultura ameaçadas

  • Parece um cenário apocalíptico mas não é. São, sim, algumas das consequências possíveis das alterações climáticas no mundo e, claro, em Portugal. De facto, com o clima a mudar de forma “dramática”, como diz Pedro Barata, os impactos – directos e indirectos – já se fazem sentir e, até ao final deste século podem agravar-se, principalmente se nada for feito.
  • De acordo com Carlos Fulgêncio haverá mais ondas de calor, menos chuva, mais seca e mais tempestades. E haverá um aumento do nível do mar que pode inundar as zonas ribeirinhas, os estuários do Tejo e do Sado ou fazer desaparecer praias (recorde-se de uma notícia deste fim de semana que dava conta do desaparecimento de 60% do areal do Portinho da Arrábida), repara Pedro Miranda.
  • Estes eventos vão ter um impacto na agricultura – menos água para a rega e mais pragas, por exemplo – e, consequentemente, na sociedade e na economia – menos alimentos locais e menos exportações. “Podemos ter problemas na exportação de azeite e vinho. Aliás, o aumento da temperatura pode alterar a qualidade do vinho em Portugal”, nota Carlos Fulgêncio.
  • Vão haver também mais incêndios. “Os gases com efeito de estufa vão aumentar e a temperatura vai aquecer e, portanto, vai haver menos chuva antes do verão e os outonos vão ser mais secos e isso provoca mais incêndios”, remata Tiago Martins de Oliveira.

O artigo foi publicado originalmente em Expresso.

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