O gado ocupa agora a estrada antes da cidade moçambicana de Xai-Xai, procurando comida pela pouca terra que não está tomada por cheias que também interromperam vidas, desesperadas por chegarem a casa, nem que seja em pequenos barcos.
A cerca de cinco quilómetros da cidade, os irmãos Alexandre e Agostinho, emigrantes na África do Sul, juntaram o gado de ambos, mais de 70 vacas e bois, e seguem pela N1, em plena via, outrora movimentada e agora deserta, rodeada de água, com casas, armazéns e outras construções submersas à volta.
São 17:00 e os dois irmãos, de cajado na mão e com o apoio de algumas crianças, já andam à procura de comida para os animais desde que saíram de Chicumbane, arredores de Xai-Xai, sul de Moçambique, pelas 06:00.
“Pastar o gado pela estrada, isso não é normal, por causa das cheias nós estamos aqui, aproveitamos o capim que está ao lado da estrada, para os animais poderem aguentar”, explica à Lusa Alexandre Chambisso, 36 anos, que só vê paralelo nestas cheias com as de 2000, que afetaram igualmente Gaza.
Hoje, com estimativas de 40% da província afetada pelas cheias de janeiro, receia que venha aí “muita fome”, começando pelos animais.
“Mesmo com estas cheias muitos animais morreram, com fome também. Não sabemos para onde nós vamos, porque capim os animais já acabaram e aqui a água ainda está cheia, então não sabemos o que fazer”, diz.
Em casa não escaparam às cheias e perderam desde milho a patos e galinhas. Os dois irmãos emigrantes estavam de férias, para o período das festas em dezembro, e quando estavam para regressar à África do Sul, o pesadelo abateu-se “de repente”, com chuvas fortes ininterruptas por vários dias, que rapidamente fizeram o nível das águas subir.
“E ainda estamos aqui. Não adiantava nada bazarmos para a África do Sul e deixar aqui o gado a sofrer”, desabafa Alexandre, pai de cinco filhos.
Enquanto vai tomar conta do gado, perante a esporádica passagem de viaturas na principal estrada de Moçambique, que liga Maputo ao norte, o irmão, Agostinho Mazuze, 57 anos, comenta o que tem visto por ali nos últimos dias: “Aconteceu uma coisa que nós nunca vimos (…) muita cheia que está aí, nós perdemos muita coisa”.
Com oito filhos em casa, os dois irmãos levam os animais pela estrada, de olho no pouco capim que fica entre o alcatrão e a água das cheias.
“Os nossos pés estão a doer de andar”, admite, lamentando ainda: “Não há sítio para pormos o gado”.
Num cenário em que, ao longo de quilómetros, “só ficou a estrada”, assume preocupação com a fome que está para vir, com colheitas perdidas e gado sem comida.
“Só estamos a andar atrás das vacas, a comer o capim. Mas não há capim, não há nada”, diz, desalentado.
Ao longe, o tabuleiro da ponte sobre o rio Limpopo está agora pouco acima do nível das águas, que já tomaram todos os terrenos à volta da capital da província de Gaza.
Esse acesso continua a ter uma portagem para pagar, mesmo que pouco depois não dê a lugar nenhum.
“Todos pagam”, diz o portageiro, na única cabine em funcionamento e praticamente sem movimento. É que poucas centenas de metros depois, a estrada N1, que atravessa Xai-Xai, está submersa pelas cheias e corta a ligação terrestre para norte, deixando milhares, em cada um dos lados, à espera, procurando e pagando por qualquer solução.
É o caso de Bibichela Mbandze, 31 anos, e outras duas colegas, que estudam para serem técnicas de saúde no Instituto Politécnico Índico. Terminaram o estágio de 10 meses no Centro de Saúde de Inharrrime, Inhambane, província mais a norte, e ficaram isoladas pelas cheias em Gaza, com centenas de quilos de malas, quando tentavam regressar a Maputo.
“O estágio terminou. Estamos aqui porque não tem como andar, a estrada está mal, tivemos que apanhar barco”, conta à Lusa, enquanto faz contas à vida com o que está a gastar e a passar nesta viagem de regresso.
“É muito caro, não tem dinheiro. Nós somos estudantes, para chegar até aqui ou para ir para casa os nossos pais estão a sacrificar-se”, lamenta, explicando que cada uma pagou 1.000 meticais (13,20 euros) só para passar de barco a zona de Xai-Xai, tornando a viagem ainda mais cara.
“É muito arriscado, é muita água e uma longa distância (…) Quase duas horas de barco e não é aquele barco a motor, é manual”, explica Bibichela, que conta agora com a ajuda do irmão.
Cansadas, descalças, com água que chega perto dos joelhos, recuperam da viagem de barco, e ainda têm de arranjar boleia para chegar, com todas as trouxas, ao ponto onde vão poder apanhar transporte, a quase dois quilómetros de distância por uma estrada submersa.
Por ali está Fernando Matlombe, empresário de transporte marítimo na praia do Bilene, alguns quilómetros a sul. Levou para Xai-Xai dois barcos a motor para fazer as ligações entre as duas margens criadas pelas cheias, que obrigam ao transbordo marítimo até à entrada da ponte sobre o rio Limpopo.
“Claro, estamos a ajudar porque não tem como”, diz.
Por dia consegue garantir 80 viagens com cada barco, que transporta seis pessoas de cada vez, numa viagem de cerca de minutos que permite a centenas ultrapassar o bloqueio criado pelas cheias em Xai-Xai.
Há quatro dias a operar ali, passou agora a concentrar os seus barcos na carga, para tirar partido dos motores “mais fortes”, deixando os passageiros para os outros menos potentes.
“Quantos barcos aqui se estragaram”, questiona, apontando. É que com vários barcos avariados na margem, devido a problemas nos últimos dias, admite que tem de cobrar pelas viagens, para suportar o combustível e o risco dos barcos que navegam por cima de estradas, engolidas pelas cheias.
“Porque aqui não está fácil (…) não é para brincadeiras”, diz, desvalorizando as queixas sobre os preços.
“Antes de eu chegar estava a 1.000. Então pediram para arriar o preço e agora está a 500 por pessoa”, diz, sempre de olho no vaivém de barcos, que chegam e partem carregados de passageiros e de todo o tipo de carga, tentando manter as ligações a fluir, entre inundações históricas.
Zubaida Cristiana, 28 anos, acaba de chegar de barco até à ponte em Xai-Xai, numa viagem que por estrada já soma mais de 250 quilómetros e que tem outros tantos até Maputo. Soma-se o barco: “Foi muito difícil (…) cinco horas de tempo do outro lado para cá”.
Com a carga que leva, pagou 700 meticais [9,20 euros] e agora ainda tem de procurar outro transporte por terra: “É muito caro”.
Só desde 07 de janeiro, as cheias em Moçambique já afetaram acima de 720 mil pessoas em Moçambique, sobretudo nas províncias de Gaza e Maputo, provocando mais de 20 mortos e destruição generalizada, de campos agrícolas a infraestruturas e estradas, além de centenas de milhares de casas inundadas e destruídas.
















































