Criar florestas de maior valor para as pessoas e para o Planeta é um dos grandes desafios que orienta a investigação do Centro de Estudos Florestais (CEF) do Instituto Superior de Agronomia (ISA) há cinco décadas.
A economia de base florestal representa 4,6% do PIB português e emprega 90 mil pessoas. A floresta, que ocupa mais de um terço do território nacional, é também essencial para a conservação da biodiversidade, a proteção do solo e da água e a regulação do clima, prestando serviços ambientais avaliados em 2,6 mil milhões de euros por ano. É neste contexto de relevância económica, social e ambiental que o Centro de Estudos Florestais (CEF) do ISA tem desenvolvido, desde 1976, investigação multidisciplinar para apoiar uma gestão florestal mais sustentável, produtiva e resiliente.
Em 50 anos, o CEF focou-se nas diferentes espécies e tipos de floresta, estudou o seu funcionamento e as interações com o solo e a água, e ajudou a melhorar a sua gestão e a produção de bens. Hoje, os cientistas recorrem a DNA ambiental, drones, satélites e tecnologia LIDAR, e inteligência artificial, para estudar os ecossistemas florestais, monitorizar o carbono e desenvolver estratégias de gestão que reforcem a mitigação e a adaptação às alterações climáticas.
O futuro do sobreiro pode passar por África e por novas técnicas de reflorestação
Já a pensar no futuro, os cientistas do CEF participaram na colheita de sementes de sobreiro na bacia mediterrânica e estabeleceram em Portugal, há quase três décadas, campos experimentais pertencentes a uma rede europeia de ensaios genéticos de sobreiro para analisar e comparar o crescimento, a adaptabilidade das árvores e a qualidade da cortiça nas nossas condições edafoclimáticas.
“Poderemos fazer a migração assistida das plantas, por exemplo, se alguma das populações de sobreiro se revelar mais adaptada do que as autóctones. Os resultados são muito promissores apontando para a superior capacidade adaptativa das plantas provenientes de Marrocos. Esta poderá ser uma estratégia adaptativa para o futuro do montado português no contexto das alterações climáticas”, explica a investigadora coordenadora do CEF, Manuela Branco.
Os estudos do CEF têm contribuído para melhorar a qualidade das plantas produzidas e dessa forma aumentar a taxa de sobrevivência das novas plantações de sobreiro. “Estudámos novos processos de conservação da semente, que resultaram na melhor qualidade e sobrevivência das plantas”, reconhece Manuela Branco. Para isto também contribui a adaptação das técnicas de reflorestação, privilegiando o ensombramento natural ou artificial, a promoção de florestas mistas em consociação, e a proteção da regeneração natural, naquilo que designa por novos modelos de silvicultura próxima da natureza.
Uma biblioteca de cortiça única no mundo
A suberoteca é um dos recursos científicos mais valiosos do CEF, que integra amostras e dados de mais de mil sobreiros, de Norte a Sul do país, acompanhados desde a década de 1980. Cada sobreiro monitorizado possui um código único, o que permite cruzar dados genéticos, climáticos e do solo com as características da cortiça. Esta biblioteca de cortiça, única no mundo, tem sido a base de vários projetos científicos para estudar o crescimento e a qualidade da cortiça, em ligação com as melhores práticas de gestão do montado de sobro.
Patentes por melhoria da qualidade da cortiça
O CEF tem mantido uma colaboração permanente com a indústria corticeira, com diversos trabalhos de investigação aplicada ao desenvolvimento e à melhoria de processos, nomeadamente no controlo da qualidade das rolhas e no fabrico de aglomerados naturais de cortiça, o que permitiu aumentar a volumetria da cortiça, com ganhos médios de 30%, de onde resultaram duas patentes internacionais. O processo mais inovador, que utiliza micro-ondas, foi premiado pela Universidade Técnica de Lisboa em 2008 e, em 2013, pela Agência Europeia de Patentes (EPO), na área industrial.
O CEF tem mantido uma colaboração permanente com a indústria corticeira, com diversos trabalhos de investigação aplicada. – Fotografia: Conceição Caldeira
Ciência aplicada à indústria do papel
O CEF trabalha em estreita cooperação com empresas líderes do setor da pasta para papel e papel, como a The Navigator Company e o Grupo Altri. Numa fase inicial da sua história, o CEF estudou materiais genéticos de eucalipto adaptados às diferentes regiões produtoras, nomeadamente às condições de frio das zonas montanhosas do Centro e do Norte de Portugal. Este trabalho apoiou programas de melhoramento genético. O Centro de investigação do ISA também desenvolveu modelos para prever o crescimento dos povoamentos e estimar o impacto das pragas na produção de madeira.
«Os modelos permitem estimar a produção de madeira, em metros cúbicos por hectare, para uma determinada idade das árvores, bem como calcular as perdas económicas associadas às pragas. Esta informação ajuda os proprietários florestais a decidir quando se justifica realizar tratamentos ou abater árvores», explica a coordenadora do CEF.
Da Austrália para os eucaliptais: novos agentes de controlo biológico
O estudo de agentes de controlo biológico é outra área de trabalho do CEF. No caso do gorgulho-do-eucalipto (Gonipterus platensis), a principal praga desfolhadora do eucalipto, os investigadores do CEF em colaboração com o RAIZ e o Grupo Altri estudaram novas espécies de parasitoides como a vespa Anaphes inexpectatus e o díptero Anagonia lasiophtalma nativos da Austrália, como alternativa ao principal agente biológico utilizado em Portugal – o parasitoide Anaphes nitens – que tem pouca eficácia em zonas montanhosas acima dos 400 metros de altitude.
Os testes laboratoriais e de campo demonstraram que os novos parasitoides podem ser eficazes no parasitismo das posturas e das larvas do gorgulho-do-eucalipto, impedindo o desenvolvimento das suas populações. Segundo os estudos, estes parasitoides apresentam um risco nulo ou negligenciável para a biodiversidade e fauna nativas. Graças a estes estudos, o ICNF começou a autorizar largadas controladas destes insetos na natureza para travar os estragos do gorgulho-do-eucalipto.
Proteger as nossas florestas
A investigação do CEF em castanheiro resultou no registo de três novas variedades destinadas a porta-enxertos, com resistência melhorada à doença da tinta, causada por Phytophthora cinnamomi, uma das principais ameaças à sustentabilidade dos soutos portugueses. O estudo dos mecanismos de defesa das espécies asiáticas de Castanea, naturalmente mais resistentes, e a aplicação de ferramentas de genómica, transcriptómica e biotecnologia vegetal, permitiu identificar e transferir fatores de resistência para o castanheiro europeu (Castanea sativa).
O CEF tem contribuído ainda para minimizar o impacto do nemátodo-da-madeira-do-pinheiro no pinhal nacional, através dos estudos que permitem compreender os mecanismos de dispersão do inseto vetor e desenvolver estratégias de “contenção” da doença, e participa em estudos que visam a deteção remota de árvores doentes.
“A prioridade atual é conter o avanço do nemátodo-da-madeira-do-pinheiro e, para tal, é necessário dotar os proprietários de ferramentas para que possam detetar árvores infestadas e realizar o abate fitossanitário antes de o inseto vetor (Monochamus galloprovinciallis) emergir e propagar o nemátodo a árvores saudáveis. Se tal for feito de forma rigorosa, ano após ano, poderá reduzir a incidência da doença a níveis residuais”, garante Manuela Branco.
Ferramentas de apoio à gestão florestal sustentável
Desde 1990 que o CEF tem vindo a desenvolver modelos de crescimento e produção, e a integrá-los em simuladores da floresta amigos do utilizador. Em 2024, foi lançada a plataforma web https://www.isa.ulisboa.pt/cef/forchange/fctools/pt/inicio e a versão App https://www.simflor.online que é uma ferramenta de apoio à gestão florestal das espécies sobreiro, eucalipto, pinheiro bravo, pinheiro manso, castanheiro e azinheira, prevendo a evolução de povoamentos florestais, segundo sistemas de silvicultura alternativos através da calendarização das respetivas operações e/ou cenários climáticos definidos pelo utilizador.
A plataforma simflor.online disponibiliza simuladores de apoio à gestão de sobreiro, eucalipto, pinheiro bravo, pinheiro manso, castanheiro e azinheira.
Como podemos proteger as savanas africanas dos incêndios?
Um estudo inovador do CEF recorreu a imagens de satélite e inteligência artificial para criar um atlas das áreas ardidas da Reserva Especial do Niassa, em Moçambique, entre 2000 e 2023. Esta ferramenta permite identificar as zonas mais afetadas pelo fogo e perceber onde é mais urgente intervir, apoiando a prevenção de incêndios, a proteção da biodiversidade e a gestão sustentável destes ecossistemas. Uma abordagem inovadora que poderá também ajudar a proteger outras áreas naturais ameaçadas pelo fogo.
Gestão multifuncional participativa
Ao longo de 25 anos, o CEF e a Associação Florestal de Vale do Sousa desenvolveram um Laboratório Vivo que reúne proprietários, empresas, indústria, entidades públicas e organizações do setor para construir uma gestão florestal mais sustentável. Desta colaboração nasceu um sistema inovador de apoio ao planeamento da paisagem, envolvendo a cocriação de planos de gestão para 14 316 hectares, de 376 proprietários, e conciliando diferentes serviços de ecossistema, da produção de madeira à biodiversidade, proteção contra incêndios e sequestro de carbono.
A recuperação de florestas paludosas e zonas húmidas, bem como de florestas ribeirinhas, é outra das atividades do CEF, contribuindo para a sua gestão e para os serviços de ecossistema que fornecem, tais como o sequestro de carbono e a manutenção da biodiversidade.
O futuro da investigação do Centro de Estudos Florestais do ISA passa pelo desenvolvimento de ferramentas que permitam antecipar ameaças e adaptar a gestão às novas condições climáticas. “Será necessário aprofundar o conhecimento sobre os efeitos das alterações climáticas nas diferentes espécies, rever as práticas de gestão, incluindo a densidade dos povoamentos, e desenvolver soluções para o restauro dos ecossistemas degradados”, considera Manuela Branco.
Ao cruzar múltiplas ciências naturais com tecnologia de ponta, o CEF assegura que as florestas do futuro continuem a criar valor para as pessoas e resiliência para o Planeta.
O artigo foi publicado originalmente em Instituto Superior de Agronomia.
















































