Subproduto da indústria florestal poderá oferecer uma solução sustentável e de baixo custo para um dos maiores desafios ambientais da atualidade
Um subproduto abundante da indústria florestal poderá vir a desempenhar um papel importante no combate à poluição farmacêutica das águas residuais. Investigadores da Universidade de Oulu, na Finlândia, desenvolveram um material à base de casca de pinheiro capaz de remover com elevada eficiência resíduos de medicamentos presentes nas águas residuais, apresentando-se como uma alternativa sustentável e economicamente competitiva face às tecnologias convencionais.
O aumento do consumo de medicamentos em todo o mundo tem conduzido à presença crescente de resíduos farmacêuticos em rios, lagos e zonas costeiras. Antibióticos, analgésicos, antidepressivos e medicamentos para a hipertensão chegam aos sistemas de saneamento através de habitações, hospitais e atividades industriais.
Embora as estações de tratamento de águas residuais consigam eliminar parte destes compostos, uma quantidade significativa continua a chegar ao ambiente. Esta realidade preocupa a comunidade científica, sobretudo devido ao seu potencial contributo para o desenvolvimento da resistência antimicrobiana, considerada pela Organização Mundial da Saúde uma das maiores ameaças à saúde pública global.
Uma resposta inspirada na floresta
Perante este desafio, a equipa da Universidade de Oulu procurou explorar o potencial da casca de pinheiro, um resíduo abundante da indústria florestal. Este material contém elevadas concentrações de polifenóis, compostos naturais capazes de se ligar quimicamente a diversos contaminantes.
Através da modificação da casca com compostos de ferro, nomeadamente magnetite, os investigadores criaram um adsorvente capaz de capturar resíduos farmacêuticos e de ser facilmente separado da água após a sua utilização.
“Esta investigação oferece uma solução prática e económica baseada em subprodutos da indústria florestal, ao mesmo tempo que promove os princípios da economia circular”, explica Mahdiyeh Mohammadzadeh, investigadora da Universidade de Oulu e responsável pelo estudo.
Resultados promissores em condições reais
A tecnologia foi testada durante quatro meses em estudos-piloto, demonstrando uma elevada capacidade de remoção de vários medicamentos frequentemente encontrados nas águas residuais.
Entre os compostos analisados estavam antibióticos, antidepressivos, analgésicos e medicamentos para a tensão arterial. As taxas de remoção variaram entre algumas dezenas de pontos percentuais e mais de 90%, dependendo da substância.
O antibiótico trimetoprim foi praticamente eliminado na totalidade, enquanto a taxa de remoção do antidepressivo venlafaxina ultrapassou os 90%.
Paralelamente, os investigadores desenvolveram ainda bionanocompósitos à base de cobalto e magnetite capazes de degradar compostos farmacêuticos como a levofloxacina, um antibiótico amplamente utilizado.
Alternativa mais acessível às tecnologias existentes
Atualmente, tecnologias como o carvão ativado e a ozonização são consideradas altamente eficazes na remoção de micropoluentes farmacêuticos. No entanto, os custos de instalação e operação continuam a ser elevados.
Segundo os investigadores, os materiais produzidos a partir de casca de pinheiro poderão representar uma alternativa mais económica, beneficiando simultaneamente da ampla disponibilidade desta matéria-prima proveniente da indústria florestal.
“A elevada disponibilidade da casca de pinheiro favorece uma utilização mais sustentável dos recursos”, sublinha Mohammadzadeh.
Novas oportunidades para os subprodutos florestais
Os resultados reforçam o potencial dos subprodutos da floresta na criação de soluções ambientais inovadoras. Ao transformar materiais de baixo valor económico em tecnologias avançadas para o tratamento da água, esta abordagem contribui para aumentar a eficiência na utilização dos recursos e para promover modelos de economia circular.
A equipa da Universidade de Oulu está já a desenvolver novas linhas de investigação utilizando taninos extraídos da casca de abeto para a remoção de resíduos farmacêuticos, prevendo testar espumas à base destes compostos em futuras aplicações de tratamento de águas.
Regulamentação europeia impulsiona procura por novas soluções
A relevância desta investigação ganha especial importância no contexto da revisão da Diretiva Europeia relativa ao Tratamento de Águas Residuais Urbanas, que entrou em vigor em 2024 e introduziu requisitos mais exigentes para a remoção de micropoluentes.
Com a necessidade crescente de tecnologias eficazes, sustentáveis e economicamente viáveis, soluções baseadas em biomateriais florestais poderão vir a desempenhar um papel relevante na modernização dos sistemas de tratamento de águas na Europa.
Os investigadores alertam, contudo, para a necessidade de aprofundar estudos sobre a reutilização destes materiais, os seus ciclos de regeneração e eventuais impactos ambientais associados à sua utilização em larga escala.
Ainda assim, o potencial da floresta como fonte de soluções para problemas ambientais contemporâneos volta a ficar demonstrado, desta vez através de um recurso frequentemente considerado um simples resíduo industrial: a casca de pinheiro.
O artigo foi publicado originalmente em UNAC.














































