O incêndio queimou vinhas, olival e amendoal em Valpaços, um concelho que é essencialmente agrícola, prevendo-se quebras significativas nas próximas vindimas e campanha de azeitona.
O presidente da Junta de Santa Valha, Carlos Vieira, descreveu à agência Lusa um “inferno” que passou pelas aldeias da sua freguesia. O fogo começou terça-feira em Valpaços, distrito de Vila Real, e chegou aos concelhos de Mirandela, Vinhais e Macedo de Cavaleiros, no distrito de Bragança.
Hoje o dia ainda é de combate, mas no terreno já se faz o levantamento dos prejuízos.
Na freguesia de Santa Valha, o fogo veio de sul para norte, coisa “nunca antes vista” e à sua passagem atingiu “muitos hectares” de vinhas e olivais, a principal fonte de rendimento dos residentes destas aldeias.
Carlos Vieira disse que está a ser feito o levantamento dos prejuízos, mas considerou que vai ser uma tarefa complicada “porque há muita área ardida”, apontando ainda à “perda da paisagem”, já que ficou um rasto negro pela freguesia.
Aqui também arderam casas, duas de segunda habitação e algumas devolutas.
“O fogo vinha muito perigoso por causa dos ventos e o fumo que se acumulou impediu a atuação dos meios aéreos e ficamos entregues aos meios terrestres”, contou o autarca, lembrando que a Santa Valha ficou rodeada de chamas, as estradas cortadas e que algumas pessoas mais idosas ficaram confinadas no centro por segurança.
A Quinta do Salvante é uma produtora de vinho e de azeite e, segundo disse à Lusa Nuno Miguel Neves, foi “afetada tanto na vinha como no olival”.
“As vinhas não arderam, mas acabaram por secar com o calor resultante do fogo que andava à volta no mato e nos pinhais. Acabou por afetar também oliveiras muito antigas”, contou.
O impacto na próxima vindima e na campanha de azeitona vai ser, segundo disse, “muito grande”.
“Na parte da vinha, as folhas secam e também acabam por secar as uvas e essas uvas não vão chegar ao lagar. No olival a mesma coisa, a azeitona acaba por secar, porque a folha secou completamente. O calor foi tanto que a folha secou e a azeitona acaba por cair”, salientou.
Nuno Miguel Neves disse que ainda não houve tempo para o levantamento dos prejuízos e que ainda se está a tentar assimilar o que aconteceu.
“Estivemos preocupados com a aldeia porque esteve rodeada de chamas. Isto foi muito preocupante e a nossa atenção estava direcionada para as pessoas e para as casas”, sublinhou.
A Quinta do Sobreiró de Cima perdeu cerca de 15 hectares de vinha em produção e quatro hectares de amendoal, num prejuízo preliminar calculado em cerca de um milhão de euros.
Uma fonte da propriedade adiantou que aqui foram igualmente destruídos sistemas de rega, infraestruturas elétricas, caminhos agrícolas, muros, tanques e charcas, que seriam, agora, essenciais para a hidratação das plantas (regas), essencial para aumentar a probabilidade de sobrevivência.
Nesta quinta a prioridade foi repor algumas mangas novas para a reativação faseada dos sistemas de rega, mas, apesar deste esforço, a propriedade estima uma “quebra de 50% na produção de vinho” nesta quinta, referindo ainda que o seguro de colheita já foi ativado.
A Câmara de Valpaços pediu ao Governo a declaração do estado de calamidade no concelho, estando a aguardar uma resposta.
Nesta freguesia, o fogo passou em Santa Valha e Gorgoço na quarta-feira, quinta-feira foi Pardelinhas que esteve em risco, mas “só ardeu mato”.
No largo perto da junta, alguns homens jogavam às cartas esta tarde. Pouco queriam falar sobre o incêndio e do grupo apenas Armando Tender aceitou prestar declarações.
“Arderam-me cerejeiras, pinheiros, oliveiras. O prejuízo é sempre”, afirmou o homem de 84 anos, que adiantou que “já não merece a pena contabilizar os prejuízos” e que este ano já não espera apanhar a azeitona.
Mais à frente, Aniceto Vaz, 71 anos, referiu que salvou casa e armazém, mas que perdeu sobreiros, pinheiros e oliveiras, calculando elevados prejuízos porque previa tirar a cortiça de quase de 200 sobreiros no próximo ano.
“Vi o inferno perto de mim e eu lá sozinho”, afirmou, explicando que ficou junto ao armazém e a mulher e a neta em casa para defenderem estes edifícios.
O vento errático dificultou a ação de quem estava no terreno a combater o fogo.
“Aquilo foi em segundos”, salientou.
Pelas estradas e aldeias, há hoje meios no terreno também a repor a energia e as comunicações.
Segundo a Autoridade Nacional de Emergência e Proteção Civil (ANEPC), pelas 17:45 estavam mobilizados para o combate a este incêndio 991 operacionais, 317 viaturas e 10 meios aéreos.












































