A Quercus encontra-se solidária com os agricultores e as populações que têm sido afetados por prejuízos, acidentes rodoviários ou distúrbios em zonas urbanas provocados pela presença de javalis, e que levaram o Governo a lançar um incentivo para combater o aumento da sua densidade populacional em 60 concelhos do país, através do pagamento pelo abate de machos (50€) e fêmeas (70€).
Contudo, tal como afirmado no próprio Plano Estratégico e de Ação do Javali em Portugal, promovido pelo ICNF entre setembro de 2020 e dezembro de 2022, os resultados “sugerem que a caça recreativa per se não constitui uma ferramenta de gestão suficiente para o controlo da expansão e dos impactos da espécie”.
A Quercus vê, por isso, com cautela a criação deste projeto-piloto de incentivo ao abate de javalis, na medida em que acaba por tratar a consequência em vez de lidar com as causas.
Redução de predador e de alimento natural
A regressão histórica do lobo-ibérico – um predador natural do javali – em grande parte do território português é um dos fatores-chave que explica a aparente maior densidade populacional e dispersão geográfica do javali. Atualmente, estima-se que existam cerca de 300 indivíduos em Portugal, representando apenas 15% da população do lobo-ibérico.
Apesar de ser uma espécie estritamente protegida no nosso país, o lobo-ibérico pode ser abatido assim que atravessa a fronteira para a Espanha, pelo que seria fundamental uma coordenação ibérica na proteção e recuperação do mesmo (integrada no Programa Alcateia 2025-2035), tal como sucede no caso do lince-ibérico.
A menor presença do lobo-ibérico no território não só reduziu a predação natural do javali, como alterou completamente a dinâmica populacional deste último. Não sendo tão condicionados pelo lobo, os seus movimentos são mais dispersos, reforçando a sensação de maior densidade populacional.
Outro fator que também contribui para a dispersão geográfica do javali está diretamente relacionado com o abandono progressivo da gestão do território e a diminuição do habitat natural disponível. A expansão das monoculturas agrícolas e florestais, em detrimento das florestas nativas, traduz-se em menos alimento disponível, nomeadamente frutos de árvores e arbustos autóctones. Com menos recursos disponíveis nos ecossistemas naturais, os javalis tendem a procurar alimento noutros locais, invadindo explorações agrícolas ou até mesmo contentores de resíduos urbanos.
Quercus apela a um Plano de Ação estrutural
Antes de pagar pelo abate dos animais, é preciso saber se e onde existem efetivamente densidades excessivas. O próprio ICNF fala em “correção de densidade”, pelo que pagar por cabeça e abater o maior número possível de animais não significará necessariamente um resultado eficaz e uma redução dos prejuízos.
Consideramos que existem outras medidas que podem e devem ser implementadas: investir na proteção das culturas agrícolas; garantir que as compensações aos agricultores afetados são justas e estão a ser pagas; adotar outras estratégias de gestão cinegética (em algumas zonas, são mantidas populações abundantes de javali para a caça e recorre-se à alimentação suplementar para atrair/concentrar os animais).
Se a caça é apresentada como instrumento de gestão populacional, é necessário avaliar também o seu efeito sobre a população e os danos no ecossistema e na biodiversidade, e não apenas apresentar o número total de animais abatidos. A Quercus questiona, por isso, se a densidade populacional do javali vai ser devidamente quantificada antes e depois da implementação desta medida de incentivo ao abate.
A gestão populacional do javali em Portugal deve ser enquadrada, na opinião da Quercus, através de um Plano de Ação estruturado e abrangente, com medidas multi-sectoriais que abordem a raiz do problema e apresentem resultados a longo prazo.
Fonte: Quercus















































