A União Europeia demonstra constante preocupação com o envelhecimento do setor agrícola e identifica a renovação geracional como uma prioridade. Contudo, a forma como este fenómeno é medido centra-se quase exclusivamente na figura do “Jovem Agricultor”, deixando de fora uma parte significativa dos jovens profissionais que asseguram diariamente o funcionamento, a modernização e a inovação da agricultura.
No âmbito da PAC, considera-se Jovem Agricultor, de forma simplificada, o agricultor até aos 40 anos (inclusive) que assume a responsabilidade pela gestão de uma exploração agrícola e cumpre os requisitos de formação ou competências definidas pelo Estado-Membro. Mas será que esta definição nos permite medir verdadeiramente a presença dos jovens na agricultura? Ou estaremos apenas a contar os que assumem a titularidade das explorações, deixando de fora muitos outros que contribuem diariamente para o setor?
Há jovens engenheiros agrónomos, técnicos agrícolas, consultores, diretores de irrigação, projetistas de sistemas de rega, comerciais de fatores de produção, comerciais de equipamentos agrícolas, prestadores de serviços agrícolas, técnicos de associações e organizações de produtores, analistas de dados, profissionais ligados à agricultura de precisão, à tecnologia, à comunicação, entre muitos outros. Todos eles fazem parte do ecossistema agrícola. Todos contribuem para a produtividade, modernização, inovação, sustentabilidade e renovação geracional do setor.
Em que outro setor se incentiva um jovem a assumir, desde o primeiro dia, a responsabilidade integral pela gestão de uma empresa, apoiando financeiramente essa transição? Não valerá a pena questionar se o próprio modelo de apoio à renovação geracional merece ser repensado? Ainda para mais quando sabemos que estes apoios podem, em algumas situações, criar condições de elevada vulnerabilidade empresarial — gerir uma exploração agrícola é gerir uma empresa. Gerir uma empresa exige competências diversificadas: capacidade de gestão, conhecimento do mercado, capacidade financeira e experiência na tomada de decisões. Uma exploração agrícola está ainda exposta a riscos climáticos, que afetam, muitas vezes, a produtividade e, por consequência, a saúde financeira. Um Jovem Agricultor sem fundo de maneio para os momentos mais difíceis é, frequentemente, condenado ao insucesso.
Vão sempre existir jovens no setor agrícola se este for um setor atrativo, sobretudo do ponto de vista financeiro. Mais do que criar incentivos para que os jovens entrem no setor, importa criar condições para que os jovens e os menos jovens tenham vontade de permanecer nele. E isso passa, desde logo, pela rentabilidade. Há várias formas de a promover:
A primeira é investir no regadio. Quantos hectares de terra com potencial de negócio conhecemos que estão abandonados ou subaproveitados? O acesso à água pode transformar profundamente a capacidade produtiva de uma exploração e permitir culturas de maior valor acrescentado. Investir em regadio é investir diretamente na capacidade de gerar rendimento.
A segunda é reduzir a burocracia. Um agricultor deveria poder ter um ponto único de contacto onde pudesse tratar das diferentes licenças, autorizações e procedimentos necessários à sua atividade. Atualmente, uma parte significativa do tempo de quem produz é consumida a tentar descobrir quais são as exigências administrativas e a responder a estas, a preencher formulários e a percorrer diferentes serviços. Cada hora passada a tratar de burocracia é uma hora que não é passada no campo, na gestão da exploração ou na procura de melhores soluções para produzir.
A terceira é promover uma relação de maior confiança entre a Administração Pública, os agricultores e os consumidores. O atual enquadramento tende, muitas vezes, a assentar numa lógica predominantemente fiscalizadora e de desconfiança, quando seria desejável uma abordagem mais orientada para o acompanhamento, a prevenção e o apoio ao cumprimento das regras. O agricultor não pode ser tratado como um infrator à partida; O agricultor de hoje está cada vez mais consciente da importância de produzir bem, de utilizar corretamente os recursos, de adotar boas práticas agrícolas e de garantir a qualidade e a segurança dos alimentos que coloca no mercado. Em muitos casos, os agricultores adotam práticas que vão além das exigências legais, procurando responder às expectativas dos consumidores e aos desafios ambientais cada vez mais exigentes.
A renovação geracional não se faz substituindo uma geração por outra. Faz-se criando condições para que diferentes gerações trabalhem em conjunto, combinando experiência, conhecimento técnico, inovação e capacidade de adaptação. O futuro da agricultura não depende apenas de atrair jovens; depende, sobretudo, de construir um setor onde valha a pena entrar e ficar. É desta complementaridade entre jovens e profissionais mais experientes que nasce uma agricultura mais forte, mais preparada e verdadeiramente sustentável.
O artigo foi publicado originalmente em Vida Rural.
















































