Portugal desperdiçou mais de 1,8 milhões de toneladas de alimentos em 2024, o equivalente a 161,2 kg por habitante. Os dados provisórios mais recentes do Instituto Nacional de Estatística (INE), divulgados em julho de 2026, mostram que cerca de 65% deste desperdício teve origem nas famílias. Mas o problema atravessa toda a cadeia agroalimentar, desde a produção até ao consumo, e inclui alimentos que, apesar de seguros e de qualidade, encontram dificuldades para chegar ao mercado por não cumprirem determinados requisitos comerciais.
É neste contexto que surge o BREADCRUMB, um projeto europeu financiado pelo programa Horizonte Europa que procura compreender a relação entre as normas de comercialização e o desperdício alimentar, identificando soluções para valorizar produtos que ficam de fora dos circuitos habituais de venda.
A iniciativa reúne 21 entidades de sete países (Bélgica, Itália, Dinamarca, Eslovénia, Espanha, Alemanha e Portugal) e conta com a participação da MC, o único retalhista europeu envolvido no projeto. Os resultados foram apresentados a 5 de novembro, em Bruxelas.
Ao longo da cadeia de abastecimento, critérios relacionados com o tamanho, a forma, a aparência ou a classificação dos alimentos podem condicionar a sua comercialização. Estas exigências, estabelecidas por normas públicas ou por especificações privadas de empresas, têm influência na seleção dos produtos que chegam aos consumidores, mas podem também limitar as oportunidades de escoamento de alimentos próprios para consumo.
Para avaliar esta realidade, o BREADCRUMB analisou cinco categorias alimentares — frutas e hortícolas, carne, ovos, cereais e peixe — através de 16 estudos de caso em diferentes países europeus. O trabalho cruzou o levantamento das normas existentes com a análise do comportamento dos consumidores e a auscultação de empresas do setor.
Um dos exemplos estudados é o das cenouras. De acordo com os resultados do projeto, os requisitos privados relativos ao tamanho e à ausência de deformações significativas podem dificultar o encaminhamento de cerca de um quarto das cenouras cultivadas para os seus principais canais de comercialização.
Os cinco objetivos do BREADCRUMB
➜ Inventariar as normas públicas e privadas de comercialização alimentar na União Europeia.
➜ Medir o desperdício associado aos requisitos de comercialização em cinco categorias alimentares.
➜ Compreender como estas regras condicionam o destino dos alimentos.
➜ Encontrar novos canais de venda para produtos que não cumprem os padrões convencionais.
➜ Produzir recomendações para empresas e decisores políticos.
A aparência não é, contudo, o único fator em causa. Os consumidores tendem a considerar as cenouras bifurcadas ou com formas irregulares menos práticas, o que pode influenciar a decisão de compra. O projeto identificou formas de contrariar esta tendência, nomeadamente através de mensagens que valorizem a qualidade além da aparência e de formatos de venda que agrupem cenouras de diferentes tamanhos, acompanhados de receitas e sugestões de utilização.
O caso das cenouras demonstra como pequenas alterações na apresentação e comercialização dos alimentos podem abrir novas oportunidades de mercado. Para isso, será necessário articular as exigências das empresas com as expectativas dos consumidores, sem comprometer a segurança alimentar ou a confiança nos produtos.

Mais de 1.350 normas identificadas
Entre os resultados do BREADCRUMB está um inventário de mais de 1.350 normas públicas e privadas de comercialização alimentar na União Europeia. O projeto desenvolveu também ferramentas e orientações para facilitar o acesso ao mercado de produtos que não correspondem aos padrões estéticos convencionais, além de recomendações dirigidas às empresas, aos decisores políticos e a outros intervenientes da cadeia alimentar.
A participação da MC permite integrar a perspetiva do retalho na análise e na discussão de soluções aplicáveis ao setor agroalimentar. Esta colaboração junta-se a outras iniciativas que a empresa tem vindo a desenvolver para reduzir o desperdício alimentar.
Com a apresentação dos resultados, o projeto pretende contribuir para decisões mais informadas sobre as normas de comercialização e para a criação de alternativas que permitam aproveitar melhor os alimentos produzidos.
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