O Laboratório de Patologia Vegetal “Veríssimo de Almeida” (LPVVA), Unidade de Apoio Tecnológico do ISA, ajuda agricultores, viveiristas, empresas e municípios a encontrar respostas para problemas das plantas que nem sempre são fáceis de diagnosticar.
De pragas e doenças que ameaçam produções agrícolas e ornamentais à avaliação da saúde e da estabilidade de árvores urbanas, o LPVVA transforma conhecimento científico em decisões práticas. O objetivo é claro: identificar problemas, avaliar riscos e apoiar soluções mais eficazes, sustentáveis e seguras.
Ciência ao serviço das cidades. Ana Paula Ramos e Filipa Maia, respetivamente, coordenadora e técnica superior do LPVVA, usando um resistógrafo.
«Mais do que identificar os agentes responsáveis pelos problemas observados, procuramos fornecer informação tecnicamente robusta que apoie a tomada de decisão e contribua para uma gestão mais sustentável e eficaz da saúde das plantas», explica Ana Paula Ramos. Na prática, isto significa ajudar a proteger culturas, viveiros, espaços verdes, árvores urbanas e ecossistemas, num contexto em as alterações climáticas, a circulação internacional de plantas e a emergência de novos organismos nocivos tornam os desafios fitossanitários cada vez mais complexos.
A fitopatologista recorda dois casos em que a intervenção do laboratório foi decisiva.
Quando a ciência encontra a solução
Um produtor nacional de baby leaf enfrentava uma elevada mortalidade de plântulas, apesar do rigoroso controlo das condições ambientais nas estufas. O problema persistia e colocava em causa a viabilidade da produção. “Depois de visitar as instalações, fazer análises e discutir os procedimentos com os responsáveis, concluímos que o problema estava na base das placas de cultivo, onde permaneciam ovos e estados jovens de insetos que posteriormente colonizavam as plantas e comprometiam o seu desenvolvimento”, recorda a fitopatologista.
A equipa recomendou alterações ao processo produtivo, incluindo o reforço das medidas de higienização e ajustamentos das condições ambientais. Pouco tempo depois, a incidência da praga diminuiu para níveis sustentáveis, demonstrando a importância de um diagnóstico rigoroso para a resolução eficaz de problemas fitossanitários.
Noutro caso, um dos maiores produtores europeus de Amaryllis defrontava-se com uma redução da qualidade das flores sem conseguir identificar a causa. O LPVVA, em articulação com o Laboratório de Nematologia do INIAV, detetou uma espécie de nematode até então não assinalada na Península Ibérica, que atacava os bolbos e enfraquecia as plantas. “O viveirista que fornecia os bolbos foi informado e alterou procedimentos de seleção e propagação do material vegetal, o que permitiu resolver o problema”, explica Ana Paula Ramos.
Estes casos mostram a importância do diagnóstico especializado. Não basta saber que uma planta está doente. É necessário compreender a natureza do problema, os fatores envolvidos e as medidas mais adequadas para o resolver.
Ana Paula Ramos com Marta Rocha e Pedro Talhinhas no Laboratório de Patologia Vegetal “Veríssimo de Almeida”.
O LPVVA combina metodologias clássicas de diagnóstico fitopatológico com técnicas laboratoriais avançadas, incluindo ferramentas de diagnóstico molecular. Mas, segundo Ana Paula Ramos, o principal fator diferenciador continua a ser a capacidade da sua equipa para interpretar problemas complexos, integrar informação proveniente de diferentes fontes e transformar resultados laboratoriais em conhecimento útil para a tomada de decisão.
O LPVVA tem contribuído para a identificação precoce de problemas emergentes e para o desenvolvimento de soluções com impacto direto nos setores agrícola, florestal e dos espaços verdes.
“Mudámos a forma como os municípios gerem os relvados”
Em 2019, vários municípios começaram a contactar o LPVVA perante um problema inesperado: relvados de grama-inglesa estavam a secar rapidamente, sem causa aparente. A equipa deslocou-se a vários locais e identificou o percevejo-dos-relvados, Blissus insularis, um inseto que não tinha ainda sido registado na Europa, e que já se encontrava disperso na região da Grande Lisboa. “Os estudos que fizemos permitiram suportar a documentação técnica que os Serviços Oficiais prepararam para reportar a praga a Bruxelas e contribuíram para a definição de medidas de mitigação”, recorda Ana Paula Ramos. “Este trabalho teve também um impacto importante na gestão dos espaços verdes urbanos, promovendo uma utilização mais racional da água, dos fertilizantes e dos produtos fitofarmacêuticos, bem como uma maior adaptação dos relvados às condições climáticas mediterrânicas”.
Árvores urbanas mais seguras e cidades mais resilientes
A atividade do LPVVA estende-se igualmente ao arvoredo urbano, uma área onde o laboratório se tem afirmado como referência nacional. A equipa realiza diagnóstico de agentes associados ao declínio das árvores, avalia a sua condição fitossanitária e biomecânica e apoia entidades gestoras na análise do risco e na definição de planos e estratégias de gestão. Entre os vários casos acompanhados, destaca-se a identificação de Inonotus rickii, fungo responsável por podridões do lenho em várias espécies ornamentais. O diagnóstico permitiu apoiar a avaliação do risco associado às árvores afetadas e contribuir para uma reflexão mais ampla sobre a diversificação do património arbóreo urbano e a sua resiliência.
A ligação do LPVVA aos espaços verdes urbanos tem uma história longa. “Em 1997, o professor Pinto Ganhão, à época Diretor do LPVVA, estabeleceu um protocolo com a Câmara Municipal de Lisboa, que permanece ativo e que marcou o início de uma forte atividade de transferência de conhecimento nesta área”, recorda Ana Paula Ramos. Desde então, o laboratório tem contribuído para a gestão sustentável do arvoredo urbano, conciliando saúde das árvores, segurança das pessoas e adaptação às alterações climáticas.
Avaliar a saúde e a estabilidade das árvores
Municípios como Lisboa, Cascais, Sintra, Almada, Seixal, Tomar e Vila Nova da Barquinha, entre outros, recorrem regularmente aos serviços do LPVVA para avaliar o estado geral do arvoredo e apoiar a definição de intervenções de gestão.
A equipa do LPVVA utiliza equipamentos especializados, como o resistógrafo e o tomógrafo, que permitem caraterizar e detetar zonas degradadas ou cavidades nas raízes, no tronco e nas pernadas de uma árvore.
“Mais recentemente adquirimos um Arboradix, que permite o diagnóstico e mapeamento de sistemas radiculares. Este é um aspeto muito importante, porque muitas vezes o estado da parte aérea está relacionado com o estado das raízes”, explica Ana Paula Ramos.
Formar profissionais para responder aos desafios do setor
A ligação entre ensino, investigação e prestação de serviços constitui uma das características distintivas do LPVVA. Os estudantes acompanham casos reais provenientes da agricultura, dos viveiros, dos espaços verdes e do arvoredo urbano, adquirindo competências fundamentais para a sua futura atividade profissional. Paralelamente, o laboratório promove formação especializada dirigida a técnicos, consultores, gestores de espaços verdes e outros profissionais do setor.
Antecipar os riscos é o futuro da proteção das plantas
Num contexto de alterações climáticas, globalização do comércio de plantas e circulação crescente de pragas e doenças, os desafios fitossanitários tendem a tornar-se mais frequentes, mais complexos e mais difíceis de prever. Para Ana Paula Ramos, esta realidade reforça o papel dos laboratórios especializados como o LPVVA na antecipação de riscos e no apoio a decisões fundamentadas, contribuindo para uma agricultura, uma floresta e um património vegetal mais resilientes.
Criado em 1923 e herdeiro do legado de Veríssimo de Almeida, primeiro diretor do ISA, o LPVVA continua a cumprir uma missão atual e decisiva: transformar ciência em soluções para os desafios da saúde das plantas e contribuir para sistemas produtivos, cidades e paisagens mais resilientes.
O artigo foi publicado originalmente em Instituto Superior de Agronomia.















































