Em entrevista, o Professor Carlos Lopes, do Instituto Superior de Agronomia, revela os resultados de um projeto pioneiro que alia a produção vitivinícola à energia fotovoltaica, explorando o potencial do agrivoltaico na adaptação da vinha às alterações climáticas e na promoção de uma viticultura mais sustentável.
O “Luz da Tapada” é apresentado como o primeiro vinho português feito com uvas cultivadas sob painéis fotovoltaicos. Como nasceu este projeto?

Este projeto nasceu de uma proposta por parte da GALP para estudar a temática do Agrivoltaico, aplicada à vinha, isto é, explorar a possibilidade de conciliar a produção vitícola e a produção de energia fotovoltaica no mesmo terreno. Dado tratar-se de uma temática emergente e muito interessante do ponto de vista da investigação, aceitámos o desafio e instalamos o projeto-piloto em duas parcelas de castas brancas (Viosinho e Encruzado) da nossa vinha da Tapada.
Os resultados apontam para menos radiação solar, temperaturas foliares mais baixas e uma redução do escaldão dos cachos. Que impacto prático tem isto para o viticultor?

O principal impacto do sombreamento induzido pelos painéis fotovoltaicos é uma alteração do microclima da vinha que, em regiões mediterrânicas como a nossa, se pode traduzir em grandes vantagens no âmbito da resiliência às alterações climáticas. Com efeito o agrivoltaico aplicado à vinha é considerado uma medida de adaptação polivalente que pode trazer múltiplas vantagens, designadamente a redução do stress hídrico e térmico da folhagem e do escaldão dos bagos o que, associado à produção de energia verde, representa uma importante mais valia para o viticultor.
Em 2025, a vindima sob os painéis aconteceu dias mais tarde do que na parcela de controlo. Porque é que este atraso na maturação é tão relevante?

Comparativamente à parcela testemunha, o sombreamento provocado pelos painéis tem induzido um atraso na maturação de duração variável com a casta e com o ano. Este efeito, ao contrariar o efeito das alterações climáticas na antecipação das vindimas, pode ser vantajoso pois, para além de permitir maturações mais lentas, permite adiar a vindima para períodos de temperaturas mais baixas com consequentes vantagens quer na composição da uva quer na logística de colheita e vinificação. No entanto pode também constituir uma desvantagem em situações onde as condições climáticas sejam mais problemáticas para a maturação, como é o caso de regiões com elevada humidade relativa e/ou chuvas na proximidade da vindima, devido sobretudo ao aumento dos riscos de podridão.
O que distingue o “Luz da Tapada” de um vinho produzido numa vinha convencional?
As diferenças dependem da casta e do ano e têm a ver com as condições microclimáticas em que as uvas se desenvolveram. No caso da vinha convencional, as uvas desenvolvem-se a céu aberto, sujeitas à variabilidade climática, em particular aos eventos extremos como chuvadas, dias de intensa radiação solar e ondas de calor. No caso do vinho “Luz da Tapada” as uvas desenvolvem-se sob condições microclimáticas um pouco diferentes, beneficiando da proteção exercida pelos painéis. Este sombreamento dos painéis pode-se traduzir numa maturação mais longa e diferenciada e, consequentemente, num vinho com características diferentes como por exemplo maior frescura e potencial aromático.
O ISA tem uma longa tradição em investigação e desenvolvimento no sector vitivinícola. Que papel pode ter esta investigação na definição de soluções como o agrivoltaico?
Com efeito o ISA é uma escola com uma grande tradição em ensino e investigação na área da viticultura e enologia. Dando continuidade a esta tradição, a investigação em curso no âmbito deste projeto-piloto pretende responder às principais questões levantadas por esta tecnologia, em particular aos seus impactes no vigor e produção da videira e na qualidade da uva e do vinho. Nesse sentido os resultados deste projeto poderão ajudar os potenciais utilizadores, contribuindo para a sua tomada de decisão relativa à adoção da tecnologia. O nosso papel de investigadores é estudar as vantagens e inconvenientes do agrivoltaico aplicado à viticultura, cabendo depois a cada um dos potenciais utilizadores, a decisão sobre a viabilidade da implementação desta tecnologia para a sua situação específica.
O artigo foi publicado originalmente em Instituto Superior de Agronomia.
















































