Análise da Freedom24 identifica o açúcar, o óleo de palma, o cacau e o café entre as matérias-primas mais expostas ao fenómeno climático. João Lampreia, especialista de mercado da Freedom24, alerta que os conflitos no Mar Negro e as perturbações no estreito de Ormuz poderão agravar os problemas nas cadeias de abastecimento e aumentar os custos da energia, dos fertilizantes e do transporte, amplificando os riscos para a inflação mundial.
O Super El Niño poderá provocar novas perturbações nos mercados mundiais de matérias-primas em 2027, com efeitos particularmente relevantes sobre vários produtos agrícolas. Segundo uma análise da Freedom24, o açúcar, o óleo de palma, o cacau, o café, o arroz e a farinha de peixe estão entre os produtos mais expostos a potenciais quebras de produção. A conjugação dos riscos climáticos com os conflitos geopolíticos e as perturbações no abastecimento energético poderá intensificar a volatilidade dos mercados e criar novas pressões inflacionistas.
A atualização da Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA), publicada a 8 de outubro, aponta para uma intensificação do fenómeno. A anomalia da temperatura na região Niño-3.4 situa-se nos +2,1 °C, sendo superior a 83% a probabilidade de ocorrência de um El Niño forte a muito forte entre janeiro e março de 2027.
Segundo estimativas do Banco Central Europeu (BCE), episódios historicamente fortes de El Niño estiveram associados a uma subida de aproximadamente 9% nos preços mundiais das matérias-primas alimentares, no pico do efeito, que ocorre cerca de 16 meses após o início do fenómeno. Para o conjunto das matérias-primas não energéticas, o impacto histórico agregado é estimado em cerca de 5%.
Este cenário surge num contexto geopolítico adverso. A guerra no Irão fez subir o petróleo Brent para cerca de 108 dólares por barril, enquanto os fluxos de gás natural liquefeito provenientes do Médio Oriente continuam muito abaixo dos níveis habituais e o abastecimento de fertilizantes enfrenta perturbações.
Açúcar, óleo de palma, cacau e café entre os mais expostos
O açúcar destaca-se pelo potencial de valorização, devido aos riscos para a produção na Índia, na Tailândia e noutras regiões do Sudeste Asiático, bem como no Brasil. No início desta semana, o açúcar bruto era negociado a cerca de 20,7 cêntimos de dólar por libra, aproximadamente 31% acima do valor de há um ano. A StoneX prevê um défice mundial de cerca de 900 mil toneladas em 2026/27.
No óleo de palma, a Associação Indonésia de Óleo de Palma antecipa uma redução de 3% na produção do país em 2027 e uma possível queda de 15% nas exportações. Contudo, as reservas elevadas na Malásia poderão limitar a subida dos preços no curto prazo.
O cacau também enfrenta riscos de quebra da oferta. A StoneX prevê uma redução de 11% na produção da Costa do Marfim e de 13% no Gana em 2026/27. No café, os riscos para a produção de robusta no Vietname e na Indonésia, bem como para a próxima colheita de arábica no Brasil, poderão contribuir para uma recuperação dos preços, apesar de o arábica continuar abaixo dos níveis de há um ano.
A farinha de peixe é outro mercado vulnerável. No Peru, a primeira época de pesca foi suspensa em junho e a segunda cancelada em outubro, num contexto em que a biomassa de anchoveta se encontra cerca de 23% abaixo da média de longo prazo. Como o país representa habitualmente até 20% da produção mundial de farinha e óleo de peixe, estas restrições poderão afetar a oferta internacional.
Conflitos no Mar Negro e em Ormuz agravam os riscos para os cereais e a energia
Nos cereais, o impacto do El Niño será desigual entre regiões. A evolução dos preços continua, contudo, fortemente condicionada pela guerra e pelas perturbações no Mar Negro. O trigo negociado em Chicago encontra-se cerca de 31% acima do valor de há um ano, em grande medida devido aos ataques aos portos da região.
João Lampreia, analista de mercado da Freedom24, destaca a importância da Rússia e da Ucrânia para o abastecimento mundial. “As exportações de cereais da Rússia e da Ucrânia representam cerca de 35% do comércio internacional, pelo que as perturbações no Mar Negro continuam a dificultar a normalização do abastecimento e a sustentar os preços. Atualmente, menos de metade das exportações destes dois países consegue ser escoada através de outros portos ou de alternativas de transporte”, refere.
O analista alerta também para o efeito combinado das perturbações no abastecimento e do aumento dos custos de produção. “O cenário mais preocupante seria a conjugação de perturbações no abastecimento de matérias-primas com o aumento dos custos de transporte e de produção, nomeadamente dos fertilizantes. Se os conflitos no Mar Negro e as restrições à circulação no estreito de Ormuz se prolongarem, poderemos assistir a um choque particularmente severo nos mercados internacionais”, acrescenta.
No mercado energético, as perspetivas divergem entre os Estados Unidos e a Europa. Um inverno mais ameno, associado ao El Niño, poderá reduzir a procura de gás natural nos Estados Unidos. Na Europa, pelo contrário, os preços permanecem pressionados pelas perturbações no abastecimento de GNL proveniente do Médio Oriente. Em meados de outubro, o gás natural no mercado TTF atingiu cerca de 86 euros por MWh, o nível mais elevado desde o final de 2022, enquanto as reservas de gás da União Europeia se situavam em cerca de 74% da capacidade.
João Lampreia sublinha a ligação entre os preços da energia e as condições financeiras. “Num contexto em que as taxas de juro das principais economias representam um dos maiores riscos para a atividade económica mundial em 2027, importa destacar que a recente subida das taxas de juro alemãs a dois anos reflete, em grande medida, a evolução dos preços do gás natural nos mercados internacionais”, afirma.
O cobre poderá igualmente enfrentar pressões adicionais devido a possíveis perturbações na produção mineira e ao aumento dos custos de matérias-primas utilizadas no processamento. O metal atingiu um máximo histórico de cerca de 14.875 dólares por tonelada a 10 de setembro e continua aproximadamente 30% acima do valor registado um ano antes.
Riscos para a inflação em 2027
A Freedom24 considera que a combinação do Super El Niño com o choque energético e as tensões geopolíticas poderá agravar a inflação mundial. Os países do Golfo representam cerca de 43% das exportações marítimas de ureia, um fertilizante essencial para a agricultura.
O JPMorgan estima que um Super El Niño poderá acrescentar cerca de 0,7 pontos percentuais à inflação alimentar mundial no pico do efeito. Se for combinado com um choque energético, o impacto poderá atingir entre 1,3 e 1,5 pontos percentuais. A instituição estima ainda que a combinação dos dois fatores poderá acrescentar cerca de 0,3 pontos percentuais à inflação mundial em 2027, com os mercados emergentes entre os mais afetados.
O impacto final dependerá da intensidade do fenómeno, dos danos efetivos nas colheitas e da evolução dos conflitos. A Freedom24 salienta que os efeitos do El Niño se manifestam de forma gradual, à medida que as alterações meteorológicas afetam a produção, a oferta e, posteriormente, os preços. Por isso, uma parte significativa das consequências económicas poderá tornar-se mais visível ao longo de 2027.
A próxima atualização da NOAA, prevista para 12 de novembro, deverá permitir avaliar se se mantém a perspetiva de um episódio climático historicamente intenso.
Fonte: Freedom24














































