As tecnologias de agricultura de precisão apresentam condições de viabilidade económica em cerca de 42% das terras agrícolas mundiais, percentagem que poderá aumentar para 50% nos próximos 20 anos e atingir 75% num cenário de regulamentação ambiental mais exigente.
As conclusões são de um estudo internacional liderado pela Universidade de Bonn, na Alemanha, que analisou o potencial económico de tecnologias como sistemas inteligentes de rega, robôs agrícolas, drones e equipamentos de aplicação localizada de fatores de produção.
A investigação, desenvolvida por uma equipa que incluiu investigadores da ETH Zurich e da Universidade da Califórnia, Berkeley, procurou identificar em que condições a adoção destas tecnologias pode ser rentável para as explorações agrícolas.
Os resultados indicam que a viabilidade económica é atualmente mais elevada em regiões com rendimentos elevados, explorações de maior dimensão, custos de mão de obra superiores e regulamentação ambiental mais exigente.
Regras ambientais influenciam rentabilidade
Um dos principais resultados do estudo está relacionado com a influência da regulamentação ambiental na rentabilidade da agricultura de precisão.
Segundo os investigadores, a existência de mecanismos de governação ambiental mais exigentes foi o fator com maior capacidade de prever a viabilidade económica destas tecnologias.
Num cenário em que os países reforcem as regras ambientais, a proporção de terras agrícolas onde a agricultura de precisão poderá ser rentável aumenta para 75%. Pelo contrário, se todos os países flexibilizarem a regulamentação ambiental, essa percentagem poderá descer para 31%.
Estas projeções resultam de modelos desenvolvidos pelos investigadores e não representam resultados já observados nas explorações agrícolas.
A análise sugere que as exigências ambientais podem tornar economicamente mais atrativas as tecnologias que permitem reduzir a utilização excessiva de fertilizantes, pesticidas e água.
De acordo com David Wuepper, professor da Universidade de Bonn que liderou a investigação, as tecnologias de agricultura inteligente apresentam potencial para tornar a produção agrícola mais sustentável. No entanto, os autores sublinham que os benefícios ambientais não se concretizam automaticamente sem políticas públicas que favoreçam a sua adoção.
Rega inteligente, drones e robôs entre as tecnologias analisadas
O estudo avaliou diferentes soluções de agricultura de precisão, incluindo sistemas autónomos de rega, robôs para remoção de ervas daninhas, drones de monitorização, equipamentos de aplicação localizada de fertilizantes e pesticidas e sistemas de orientação por GPS.
Na Europa Ocidental, Canadá, Estados Unidos e Austrália, os investigadores identificaram condições económicas favoráveis à utilização destas tecnologias.
A aplicação localizada de fertilizantes e pesticidas permite ajustar as quantidades utilizadas às necessidades das culturas, enquanto os sistemas de orientação por GPS ajudam a evitar sobreposições nas operações agrícolas.
Os robôs podem também reduzir a dependência de mão de obra em regiões onde os custos laborais são elevados.
Na gestão da água, os sistemas inteligentes de rega permitem utilizar dados sobre a humidade do solo para ajustar a aplicação de água às necessidades das plantas.
O estudo identifica um potencial particularmente relevante para estas tecnologias em regiões com escassez hídrica, onde os benefícios económicos e ambientais podem coincidir.
Pequenas explorações enfrentam maiores limitações
Apesar do potencial identificado, a rentabilidade da agricultura de precisão continua limitada em várias regiões, particularmente na África Subsaariana.
Segundo os investigadores, uma das razões está relacionada com o facto de muitos equipamentos disponíveis terem sido desenvolvidos para grandes explorações agrícolas, sobretudo na América do Norte e na Europa.
Estas soluções podem não ser adequadas à dimensão e às condições económicas das pequenas explorações, dificultando a sua adoção.
A equipa defende, por isso, maior investimento em investigação e desenvolvimento de tecnologias ajustadas às necessidades da agricultura de pequena escala.
Os custos de aquisição e instalação, a necessidade de conhecimentos especializados, o acesso à formação e as diferenças nos custos de mão de obra são outros fatores que condicionam a rentabilidade.
Os investigadores salientam que uma tecnologia economicamente viável numa determinada região poderá não apresentar o mesmo retorno noutra, dependendo das características das explorações e das condições locais.
Investigação analisou mais de 4.000 locais de utilização
Para avaliar o potencial económico das tecnologias de agricultura inteligente, a equipa reuniu informação proveniente de estudos de caso, relatórios de campo e literatura científica.
Os investigadores contactaram mais de 8.000 especialistas em agricultura ‘inteligente’, procurando identificar aplicações rentáveis destas tecnologias.
A informação recolhida permitiu construir uma base com mais de 4.000 locais onde eram utilizados sistemas como rega inteligente, remoção de ervas daninhas robotizada e monitorização por drones.
Posteriormente, foram utilizados modelos de aprendizagem automática para identificar as condições associadas à adoção rentável e estimar o potencial económico das diferentes tecnologias à escala mundial.
Os autores esclarecem que os resultados correspondem a uma avaliação estatística do potencial de rentabilidade, não constituindo uma garantia de retorno económico para todas as explorações.
A investigação também não demonstra que os benefícios ambientais associados à agricultura de precisão já tenham sido alcançados em toda a superfície agrícola identificada.
Segundo a equipa, a concretização desse potencial dependerá da regulamentação ambiental, das características dos sistemas agrícolas, da formação dos produtores e do desenvolvimento de soluções adaptadas a diferentes escalas de produção.
O artigo foi publicado originalmente em Vida Rural.















































