Na tradição oral portuguesa encontram-se dezenas de histórias relacionadas com árvores. São várias as que evocam espécies e exemplares concretos, as que procuram explicar episódios marcantes ou as que estão há muito associadas a crenças e ganharam um lugar especial na memória popular. Descubra seis destas lendas que perduram por gerações.
Nas lendas sobre as árvores, encanto e medo são dois ingredientes frequentes, mas não faltam histórias de amor, milagres, saudade ou vingança. Entre factos e fantasia, muitas lendas das árvores ajudam a explicar fenómenos que, noutros tempos, eram difíceis de compreender. Outras cruzam episódios históricos com imaginação popular ou procuram encontrar uma origem para nomes, lugares e crenças.
Amendoeiras, nogueiras, castanheiros, freixos e carvalhos são algumas das árvores que encontramos nestas narrativas. Umas surgem associadas à magia e ao sobrenatural; outras tornam-se testemunhas de histórias de amor, símbolos religiosos e protagonistas de acontecimentos associados à alteração da paisagem.
Conheça seis lendas portuguesas onde as árvores ocupam um lugar central, mostrando como natureza, paisagem e cultura popular estão, há muito, interligadas.
1. A lenda do Carvalho Santo e das águas milagrosas
Depois de vários dias de chuva intensa, a 5 de abril de 1895, em Leça do Balio, um grande carvalho deslizou juntamente com o terreno onde estava enraizado, mas manteve-se de pé. No local abriu-se uma fenda de onde começou a brotar água.
A explicação para o fenómeno estaria no deslizamento das terras provocado pela chuva, que arrastou consigo a árvore e abriu caminho à emersão de águas subterrâneas, mas a população viu no acontecimento algo extraordinário. As águas passaram a ser consideradas milagrosas (dizia-se que eram capazes de curar feridas) e a árvore foi batizada como Carvalho Santo. A fama espalhou-se e, segundo os relatos que chegaram até aos nossos dias, houve até quem se aproveitasse da procura para engarrafar e vender aquela água.
O carvalho acabaria por secar no verão seguinte. A história, porém, não desapareceu com a árvore. Do seu tronco terá sido esculpida uma imagem de Nossa Senhora dos Remédios, reforçando a associação entre o episódio, a devoção religiosa e a ideia de cura.
Mais de um século depois, a tradição permanece na própria identidade do lugar. Em Leça do Balio continuam a realizar-se, em agosto, as Festas em Honra de Nossa Senhora dos Remédios, também conhecidas como festas do Carvalho Santo.
2. A lenda das amendoeiras em flor que salvaram a princesa Gilda
É provavelmente uma das mais conhecidas lendas das árvores em Portugal e há diferentes versões contadas no Algarve. Tal como a publicada por Gentil Marques, em “Lendas de Portugal”, a maioria das versões recua ao tempo em que esta região, então chamada Al-Gharb, estava sob domínio muçulmano.
Conta a história que Ibne-Almundim, poderoso rei mouro que se apaixonou por Gilda, uma princesa das terras do Norte, capturada após uma batalha. O amor foi correspondido e os dois casaram. Apesar da felicidade inicial, Gilda começou a ficar cada vez mais triste e sem forças. Nem os sábios chamados pelo rei conseguiam perceber o que a fazia adoecer. A explicação chegou através de um velho prisioneiro vindo das mesmas terras da princesa: Gilda sofria de saudades da neve que todos os anos cobria de branco a paisagem da sua terra natal.
Ibne-Almundim encontrou então uma forma de lhe devolver simbolicamente aquilo de que sentia falta. Mandou plantar milhares de amendoeiras junto ao palácio e, quando estas floriram, o branco das flores cobriu a paisagem. Ao olhar pela janela e ver aquele manto alvo, semelhante aos campos cobertos de neve, Gilda recuperou a alegria.
A lenda encontrou no ciclo natural de uma árvore característica da paisagem algarvia uma explicação poética para a abundância de amendoeiras na região. E a imagem continua a fazer sentido: por florescer em pleno inverno, a amendoeira é capaz de transformar temporariamente a paisagem com um extenso manto branco ou rosado.
A lenda tornou-se poesia na obra de Ary dos Santos “Tempo da Lenda das Amendoeiras”, escrita para o “I Festival do Algarve, em Silves, e dada a conhecer em Agosto de 1964. Aqui fica um excerto:
3. O freixo e a espada que batizaram Freixo de Espada à Cinta
A origem do nome de Freixo de Espada à Cinta, em Trás-os-Montes, perde-se nos tempos e há várias lendas que tentam explicá-la. Quase todas têm dois elementos em comum: uma árvore – o freixo – e uma espada.
Uma das versões atribui a fundação da povoação a um fidalgo de apelido Feijão, que teria morrido em 977. Segundo a tradição registada por Pinho Leal, no século XIX, o fidalgo teria no seu brasão um freixo e uma espada e esses dois elementos acabariam por dar nome à terra.
Esta versão, atribuída ao “Dicionário Histórico, Corográfico, Biográfico, Bibliográfico, Heráldico, Numismático e Artístico, avança outra possível explicação: a existência de um capitão godo, chamado Espadacinta, que depois de uma batalha teria chegado exausto àquele lugar e descansado à sombra de um grande freixo, pousando nele a sua espada. A árvore ficou conhecida como o “freixo de Espadacinta” ou “freixo de espada à cinta”, nome que acabaria por fixar-se à povoação.
Diz-se que, no início do século XVIII, existia ainda junto à igreja matriz um freixo colossal, rodeado por assentos de pedra, que os habitantes acreditavam ser a árvore da lenda.
Há ainda uma terceira versão, ligada a D. Dinis. Contada por Bagão Félix, no seu livro “40 árvores em discurso direto”, relata que, cansado das guerras com o seu filho bastardo Afonso Sanches, D. Dinis parou nesta povoação e deitou-se a descansar à sombra de um freixo, onde deixou a sua espada. Adormecido, sonhou que o espírito do freixo lhe traçava as diretrizes para reinar Portugal. Quando acordou, decretou que a vila passasse a chamar-se Freixo de Espada à Cinta.
Não é possível saber qual destas histórias estará mais próxima da origem real do topónimo. O que atravessou os séculos foi a força da imagem: um freixo, uma espada e uma povoação cuja identidade continua a ligá-los.
4. A lenda da nogueira das bruxas
Poucas árvores acumularam, na tradição popular europeia, tantas associações ao sobrenatural como a nogueira. Em diferentes lugares, repetem-se histórias de bruxas que se encontravam durante a noite, debaixo das suas copas, para dançar, produzir encantamentos e rituais de iniciação.
Uma das tradições mais conhecidas vem da cidade italiana de Benevento, cuja famosa nogueira ficou durante séculos associada às janare, as bruxas da tradição local. A história tornou-se suficientemente conhecida para chegar à música e à dança: no século XIX inspirou o bailado Il noce di Benevento que, por sua vez, inspirou Le Streghe (As bruxas), um dos temas mais famosos do compositor e músico Niccolò Paganini.
Em Portugal circulam igualmente narrativas que associam nogueiras e bruxas. Numa versão passada em Trás-os-Montes, conta-se que os habitantes de uma aldeia evitavam aproximar-se, durante as noites de luar, de uma velha nogueira onde se avistavam vultos, em danças e sussurros numa língua desconhecida.
Segundo o relato, certa noite, um rapaz decidiu esconder-se por perto para descobrir se as histórias eram verdadeiras. Levou consigo sal, tradicionalmente conhecido como proteção contra o mal. À meia-noite, o vento parou e a nogueira começou a estremecer. Surgiram então sombras que dançavam em redor do tronco. Quando uma delas reparou no rapaz, este lançou três grãos de sal na sua direção, invocando a Santíssima Trindade. As figuras desapareceram, o vento regressou e a árvore deixou de estremecer.
Não é fácil determinar a antiguidade desta versão portuguesa, pelo que deve ser entendida, sobretudo, como exemplo de um imaginário mais amplo em torno da nogueira. A própria árvore tem características que podem ter alimentado a aura peculiar que a rodeia. A nogueira produz juglona, um composto químico que pode inibir o desenvolvimento de algumas plantas nas suas proximidades. Talvez por isso, e pela sombra densa da sua copa, a espécie tenha inspirado também diferentes crenças populares. Entre elas está o velho ditado: “Debaixo da nogueira, não faças cabeceira.”
5. A lenda do Castanheiro dos Amores
Em Viseu, houve uma árvore conhecida como Castanheiro dos Amores. A tradição que lhe ficou associada mistura um episódio decisivo da história portuguesa, a Batalha de Aljubarrota, com uma história de amor a que nem a morte pôs fim.
A lenda, recolhida por José Leite de Vasconcelos, em “Contos Populares e Lendas II” (1911) conta que a filha de D. Lopo Soeiro, um fidalgo de Viseu, se apaixonou por D. Martim de Sousa, cavaleiro da célebre Ala dos Namorados. Antes de ele partir para combater os castelhanos, despediram-se sob um castanheiro. A jovem pediu-lhe que regressasse àquele lugar depois de terminada a batalha e Martim prometeu fazê-lo, mas acabou por morrer a lutar.
A promessa, porém, cumpriu-a de outra forma. Um ano depois, na mesma noite e à mesma hora da despedida, o seu fantasma surgiu junto ao castanheiro. Segundo a lenda, passou a regressar todos os anos, dando três voltas em redor da árvore e chamando pela amada. As aparições só terminaram quando a jovem morreu e se reuniu com Martim.
Diz-se que o castanheiro da lenda existiu realmente, o que é bem possível dado que a espécie Castanea sativa é comum nas nossas “terras altas”. Segundo a recolha de Leite de Vasconcelos, a lenda será do século XIV e o castanheiro encontrava-se nas proximidades do Paço Episcopal do Fontelo, em Viseu, tendo secado em setembro de 1889. A lenda, no entanto, mantém-se e preserva esta história de amor.
Lendas das árvores: o que conta a tradição portuguesa?
O Castanheiro dos Amores não é a única árvore assim conhecida. Também em Coimbra, a Figueira dos Amores, junto à fonte com o mesmo nome, marca o local em que o infante D. Pedro e Inês de Castro se encontravam secretamente, consolidando um amor proibido.
6. A lenda da princesa da Atlântida e as árvores do Nordeste
Nos Açores, uma lenda das árvores explica o fim da Atlântida e o surgimento do Nordeste, na ilha de São Miguel. Conta que, há muito tempo, vivia ali uma princesa muito bela, única herdeira do reino. O rei, seu pai, não queria que ela se casasse por recear que essa união levasse ao fim do reino.
Registada por Ângela Furtado-Brum, no livro “Açores: Lendas e outras histórias”, e recuperada pelo Centro de Estudos Ataíde Oliveira, a lenda relata que a princesa acabou por apaixonar-se perdidamente por um jovem cavaleiro e, enfrentando o pai, decidiu renunciar ao reinado e juntar-se ao seu amado.
Traído, o rei procurou vingança. Pediu a um feiticeiro que transformasse a filha numa árvore e a colocasse no jardim em frente à casa do cavaleiro, para que os dois permanecessem próximos, mas impossibilitados de viver o seu amor. E a árvore nunca poderia ser danificada ou a Atlântida seria engolida pelo oceano.
Desesperado, o cavaleiro passava os dias junto da árvore até que decidiu partir um pequeno ramo para guardar junto ao peito. Assim que o cortou, um enorme cataclismo abalou a terra: a Atlântida submergiu e apenas os seus pontos mais elevados ficaram acima das águas. Um deles era precisamente o território que corresponde hoje ao Nordeste.
Mas a história não acaba com o desaparecimento da Atlântida. Diz a lenda que, nas noites de lua cheia, o cavaleiro e a princesa continuam a trocar juras de amor. Quem escutar com atenção pode ouvir as árvores do Nordeste a falar e, quando a terra treme, é a princesa a soluçar pelo cavaleiro e pelo reino perdido.
Nesta lenda açoriana, embora não se saiba qual é a árvore, ela é mais do que cenário: guarda uma pessoa, desencadeia a transformação da paisagem e conserva uma memória de amor, capaz de atravessar gerações.
Verdadeiras ou imaginadas, existem dezenas de lendas das árvores em Portugal. Partilhá-las é uma forma de as preservar, mantendo vivas as tradições que se enraizaram em diferentes regiões e as relações que as suas populações estabeleceram entre o real, o fantástico e o natural, desde há muitos séculos.
O artigo foi publicado originalmente em Florestas.pt.












































