Portugal já esgotou cerca de 98% do limite de área ardida previsto para toda a década 2020-2030 — e ainda faltam cinco anos para 2030. É esta a conclusão mais alarmante da avaliação da ZERO ao Relatório de Atividades 2025 do Sistema de Gestão Integrada de Fogos Rurais (SGIFR), divulgado esta semana pela Agência para a Gestão Integrada de Fogos Rurais, I.P. (AGIF), e que a ZERO apresenta agora, no arranque do período mais crítico do ano de combate aos incêndios — o chamado “nível Charlie”, que decorre entre 1 de julho e 30 de setembro.
Os dados traçam um retrato duplo. Por um lado, registaram-se menos vítimas mortais e uma resposta operacional mais eficaz. Por outro, 2025 foi o quarto pior ano em área ardida desde 2001, com o dobro da área queimada em 2024 e mais ignições do que no ano anterior — enquanto o incendiarismo continua a ser uma das causas mais destrutivas do sistema.
A isto soma-se uma AGIF institucionalmente mais fragilizada — sem presidência efetiva desde 2024 e subordinada, desde este ano, a um ministério setorial —, numa altura em que a implementação do Plano Nacional de Ação avançou apenas para 53%, com 21% das iniciativas ainda por iniciar. Para a ZERO, as metas de 2030 estão cada vez mais distantes de serem cumpridas.
Mais ignições e mais área ardida
Em 2025, Portugal registou 8 252 incêndios rurais, um acréscimo de 1 997 face a 2024, um crescimento de 32% que interrompe a trajetória de descida observada desde 2018. Agosto concentrou, por si só, 80% de toda a área ardida anual, que atingiu cerca de 271 mil hectares, praticamente o dobro dos 137 mil registados em 2024.
Os grandes incêndios (>500 hectares) somaram 44 ocorrências em 2025 (0,47% do total) mas foram responsáveis por 91% de toda a área ardida do ano, superando os já alarmantes 84% do ano anterior, falhando, pelo segundo ano consecutivo, a meta de 0,3% definida para 2030. As ignições por uso negligente do fogo voltaram também a subir (+27%), confirmando que já não há contraste entre comportamento social e severidade meteorológica: ambos os indicadores pioraram em simultâneo. Dos seis maiores incêndios do ano (160 048 hectares, mais de metade da área ardida total), apenas um teve origem em fogo posto; os restantes resultaram de dois raios, dois usos do fogo (um cigarro, uma fogueira) e um acidente de transportes, todos numa mesma janela de sete dias de condições meteorológicas extremas.
Relativamente às vítimas mortais, registaram-se seis (dois civis, quatro operacionais), uma redução expressiva face às 16 de 2024, apesar da área ardida ter praticamente duplicado.
O incendiarismo continua a não ser tratado com a importância merecida
Em 2025, o incendiarismo e o uso do fogo mantiveram-se como as principais causas identificadas dos incêndios, respondendo em conjunto por cerca de 78% das ocorrências com causa determinada — 1 990 casos de incendiarismo (38%) e 2 056 de uso do fogo (40%). O retrato muda, contudo, de forma acentuada quando se olha para a área ardida: o incendiarismo, que em 2024 tinha sido responsável por 84% da área com causa conhecida (84 272 ha), caiu para apenas 29% em 2025 (73 182 ha) — uma queda que não resulta de menos incendiarismo, mas de um fator inesperado: as causas naturais (raios), historicamente residuais, dispararam para 32% da área ardida (79 773 ha), um valor muito acima do padrão habitual. Já o uso negligente do fogo seguiu a trajetória inversa à do incendiarismo, subindo de menos de 10% da área ardida em 2024 (9 600 ha) para 30% em 2025 (74 574 ha) — um crescimento muito significativo, que confirma que a redução do peso do incendiarismo não traduz uma melhoria geral de comportamentos, mas antes uma redistribuição do problema entre diferentes causas humanas e naturais.
À primeira vista, estes dados parecem descredibilizar que o incendiarismo continua a ser um grave problema estrutural não reconhecido. No entanto, resultam de um efeito estatístico de um único evento extremo, mas porque um único mega incêndio (Trancoso, Guarda, agosto de 2025), classificado como causado por um cigarro, consumiu sozinho 46 917 ha, mais de metade de toda a área atribuída a “uso do fogo” no ano. Sem este outlier, o incendiarismo volta a ser claramente mais destrutivo por ocorrência (37,3 ha vs. 13,1 ha, quase o triplo) — confirmando que gera, por ignição, incêndios tipicamente mais graves, e que a redução do seu peso estatístico não traduz uma mudança real de comportamentos.
Metas para 2030 ainda longe de serem alcançadas
Em 2025, ano intermédio da implementação do Programa Nacional de Ação (PNA 2020-2030), os 97 projetos estruturantes do SGIFR atingiram uma execução acumulada de cerca de 53%, acima dos 48% registados no ano anterior, e verifica-se que 21% das medidas não foram ainda iniciadas (uma pequena subida face aos 25% do ano anterior), evidenciando atrasos significativos para atingir os objetivos definidos para 2030.
A despesa executada foi de 600 M€ (-6% face a 2024), ainda assim o segundo maior investimento desde 2017. A prevenção manteve-se como principal área de investimento com 326 M€ (54%), face a 274 M€ em combate (46%).
Destacam-se ainda como áreas críticas: a proporção de grandes incêndios continua mais de 50% acima da meta definida para 2030, e é isso que dita a gravidade de cada ano. Mais preocupante ainda: a meio da década, Portugal já consumiu 98% de toda a área que podia arder até 2030, deixando praticamente esgotada a margem para os cinco anos que faltam. O fogo controlado, a ferramenta de prevenção mais eficaz e mais barata que existe, continua a ser a mais negligenciada e em vez de crescer, a execução caiu ainda mais em 2025, para menos de metade da meta anual. A isto, junta-se um défice de financiamento que já ultrapassa os 500 M€ desde 2021, com o Orçamento do Estado a assumir uma fatia cada vez maior da despesa (61%, o valor mais alto desde 2021), sinal de que as fontes de financiamento alternativas prometidas no PNA continuam por concretizar.
A gestão de fogos rurais continua a não ser tratada como prioridade transversal de Estado. Desde 2025, a AGIF deixou de responder diretamente ao Primeiro-Ministro e passou para a tutela do Ministério da Agricultura, uma mudança que, em vez de resolver a fragilidade institucional da Agência, parece estar a acentuá-la. O sinal mais claro deste esvaziamento é institucional: a AGIF está sem presidência efetivamente nomeada desde julho de 2024, tendo estado sempre em gestão interina há mais de um ano.
Como aspetos positivos, a ZERO reconhece que o sistema continua a investir na compreensão das causas dos incêndios: 99% das ocorrências foram investigadas, com causa determinada em 71% dos casos. A resposta pós-fogo também se reforçou, com 34 relatórios de estabilização de emergência elaborados para 109 incêndios e um investimento estimado de 16,5 milhões de euros na recuperação dos territórios afetados. E o esforço institucional de Portugal continua a ser reconhecido internacionalmente: a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE) confirmou, em 2025, progressos significativos desde 2017 — melhor governança, mais coordenação institucional e um investimento crescente na prevenção.
Em 2025, os incêndios rurais foram responsáveis pela libertação de cerca de 3,6 milhões de toneladas de carbono — aproximadamente o dobro da média histórica desde 2003 e o equivalente a 24% de todas as emissões nacionais anuais. Para a ZERO, este valor é, por si só, revelador de uma contradição incontornável: não é possível falar de política climática credível em Portugal enquanto a gestão do território rural continuar a gerar, todos os anos, um volume de emissões equiparável ao de setores inteiros da economia — e enquanto essa dimensão do problema dos incêndios continuar a ser tratada como uma questão de proteção civil, e não como uma prioridade central da ação climática nacional.
Para a ZERO, a persistência destes défices estruturais só confirma o que já se avisava em 2024: sem uma mudança efetiva de rumo nas políticas públicas — e sem que Portugal encare, finalmente, a gestão do território e a mudança de comportamentos como uma prioridade nacional, e não apenas setorial — o país continuará a afastar-se das metas de 2030, correndo o risco real de repetir tragédias que já deveriam ter sido evitadas. A ZERO defende, por isso, que a AGIF regresse à tutela direta do Primeiro-Ministro e que a sua existência nunca seja posta em causa ou extinta: os incêndios rurais são um dos desastres mais brutais que o país enfrenta, e a articulação eficaz entre equipas e setores tão diversos — ambiente, agricultura, administração interna, defesa, saúde, justiça — só é possível sob uma tutela verdadeiramente transversal e supraministerial, e não subordinada a um único ministério setorial onde se verifica uma perda de prioridade das suas solicitações dentro do Governo.
Fonte: ZERO















































