Um mecanismo da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP) tem permitido intercâmbios entre comunidades tradicionais africanas e brasileiras, com foco na troca de saberes ancestrais, valorização dos modos de vida locais e fortalecimento da segurança alimentar.
A professora da Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira (Unilab), Jaqueline Sgarbi, defendeu, em declarações à Lusa, a valorização dos saberes tradicionais e das comunidades locais como base para a construção de políticas de segurança alimentar nas nações da CPLP.
A investigadora brasileira coordena o projeto Ecossistema de Tecnologias Socioterritoriais Afro-Brasileiras em Agroecologia e Segurança Alimentar e Nutricional (Ecosan), que tem formado uma rede com pesquisadores, comunidades, profissionais e ex-alunos africanos.
No âmbito do Ecosan e da rede de universidades da CPLP, têm-se realizado missões técnicas, escolas de verão e atividades de formação em países como Guiné-Bissau, Moçambique e São Tomé e Príncipe, explicou.
De uma das iniciativas resultou a criação de uma especialização internacional em Segurança Alimentar e Nutricional, envolvendo diferentes países da CPLP, além de apoiar a estruturação de um mestrado em agroecologia em São Tomé e Príncipe.
Na entrevista à Lusa, Jaqueline Sgarbi afirmou que uma das metas do Ecosan é criar, na Unilab, um espaço com tecnologias socioterritoriais que possam ser úteis tanto para o Brasil quanto para os países africanos lusófonos.
Em concreto, referiu a instalação de cisternas, hortas circulares e sistemas agroflorestais na universidade, localizada no estado brasileiro do Ceará.
A escolha dessas tecnologias ocorre porque elas dialogam com as condições e necessidades dos territórios rurais dos dois lados do Atlântico, em particular por promoverem a produção sustentável de alimentos e conviverem com limitações como o acesso à água.
“O Brasil é uma referência em termos de tecnologia. O rural do Brasil é um rural dinâmico. A gente tem essa dicotomia: agronegócio, agricultura familiar”, pontua ao dizer que é muito fácil entregar tecnologia de ponta que não condiz com realidades locais.
“Temos países com uma democracia frágil, instituições governamentais também fragilizadas, questões ligadas a infraestrutura, estradas, água”, listou.
Jaqueline destacou que o projeto tem promovido intercâmbios entre comunidades tradicionais africanas e brasileiras, com foco na troca de saberes ancestrais, na valorização dos modos de vida locais e no fortalecimento da segurança alimentar nos territórios participantes.
“Então, a ideia é, a partir da valorização de saberes ancestrais, de saberes locais, de modos de vidas tradicionais, isso possa ser valorizado, apoiado, manejado da forma que as comunidades querem”, concluiu.
O objetivo, salientou, não é apenas reproduzir técnicas, mas adaptar experiências às realidades locais, inclusive invertendo a lógica “de abordagem vertical, de cima para baixo” das universidades.
“Nossa perspetiva é entender os territórios e as tecnologias a partir do que já é feito nesses espaços”, afirmou.
No âmbito da iniciativa, ajudou a organizar um intercâmbio entre lideranças femininas da Guiné-Bissau e da comunidade quilombola Kalunga, em Goiás, no Centro-Oeste brasileiro, entre os dias 22 e 26 de junho, acompanhado pela Lusa.
As participantes desempenham um papel central na segurança alimentar das suas comunidades e o propósito de trazer as guineenses ao Brasil foi permitir refletir sobre as experiências brasileiras a partir das suas próprias realidades, e não apenas que reproduzam práticas observadas.
O território Kalunga abriga aproximadamente 39 comunidades, abrangendo uma área de cerca de 262 mil hectares, onde residem cerca de 8 mil quilombolas (descendentes de escravos fugitivos), espalhados por três cidades goianas, na região do Parque Nacional Chapada dos Veadeiros.
Na freguesia do Engenho II, na cidade de Cavalcante, os Kalungas estruturaram há 20 anos uma forma organizada em que homens e mulheres, a maioria de pequenos agricultores, conseguem beneficiar do ecoturismo no bioma cerrado e do turismo comunitário.
Durante caminhadas por entre ruas de terra, casas rurais e trilhas para lavouras, as similaridades do uso de plantas medicinais, manejo ancestral do solo e do envolvimento da comunidade para o plantio conectou os dois povos.
A roça de toco, como é chamada, é um sistema de cultivo consorciada desses camponeses que preserva árvores e raízes, favorecendo a regeneração do solo e da vegetação local, sem uso de agrotóxico.
À agrónoma guineense Leodinilde Pinto Caetano chamou a atenção o plantio em consórcio realizado pelos Kalungas, com milho, feijão e abóbora cultivados no mesmo solo.
“Oitenta por cento da nossa população vive nas zonas rurais, dependem da agricultura, da comercialização dos produtos”, conta, ao dizer que replicar saberes é uma forma de contribuir para o desenvolvimento do próprio país.
Formada em agronomia pela Unilab desde 2018, Leodinilde trabalha na organização não-governamental Tiniguena, que desenvolve atividades agrícolas com comunidades locais de Guiné-Bissau, e não perdeu laços de trocas com o Brasil desde então.
Para a professora de sociologia rural na Escola de Agronomia da Universidade Federal de Goiás Fabiana Thomé da Cruz, que integra o projeto Ecosan, as técnicas ancestrais dos Kalungas de manejo e uso do solo é um exemplo de soberania alimentar.
“Pensando em termos de soberania alimentar, se acontecesse um colapso e não pudéssemos suprir de insumos a produção agropecuária, nessas regiões, nesses territórios, onde a agricultura que se faz é ancestral, essas comunidades seguem a sua soberania, porque continuam produzindo alimentos” indica.
“Porque não dependem de insumos externos. As técnicas, os manejos que essas comunidades fazem garantem com que elas consigam produzir alimentos, vidas e saúde para as pessoas e para o ambiente”, concluiu.













































