O título parece um “trava-línguas”, mas este problema é uma espiral de pobreza que ameaça travar a produção de leite nacional. Quem irá resistir, quem arriscará instalar-se num setor e investir para depois ver o fruto do seu trabalho ser vendido mais barato do que a água?
Leite é 88% de água, mas nos restantes 12% há lactose, gordura, proteína, cálcio, iodo, micronutrientes, minerais e vitaminas essenciais. Se o leite e os produtos lácteos derivados forem nacionais, há também valor acrescentado para os agricultores, familiares, trabalhadores, fornecedores e para todos os que trabalham na transformação, embalamento e transporte deste alimento entre o prado e o prato.
Ao longo dos últimos vinte anos, o preço do leite ao produtor em Portugal teve, por longos períodos, o valor mais baixo entre os países da União Europeia. Num triste paradoxo, a causa desse preço na origem era o preço final de venda do leite ao consumidor, também extremamente baixo. A situação apenas melhorou vários meses após o início da guerra da Ucrânia, quando os custos de produção se tornaram insustentáveis. Desde então não passámos por um período de vacas gordas, como os produtores de leite do Norte da Europa ou até da vizinha Espanha, mas pudemos finalmente respirar um pouco.
Entre os vários fatores que contribuíram para a valorização do leite esteve uma manifestação organizada pela APROLEP na Trofa em agosto de 2021, com centenas de tratores que passaram em frente às cadeias de distribuição deixando simbolicamente caixões em papel, que representavam a morte do setor leiteiro por causa dos preços baixos, bem como a luta dos meses seguintes através da colocação de rolos de palha à porta de superfícies comerciais que insistiram nas promoções que desvalorizavam o leite.
Nunca sabemos quem começa uma guerra de promoções, porque, por princípio, a culpa é sempre dos “outros” que começaram primeiro, mas sabemos como continua e pode acabar: alguém baixa 5 cêntimos no pacote de leite vendido ao público e coloca no folheto das promoções, o concorrente baixa 7, outro baixa 9 e depois, como não podem ficar com prejuízo, mandam a conta para trás, para a indústria, que manda a conta para os agricultores, que não tem outro remédio senão aguentar ou desistir e fechar portas para não mais voltar, porque a produção de leite é um investimento de longo prazo e quem sai nunca mais volta. Tal como noutras guerras, “olho por olho, vai ficar tudo cego” e “quando o mar bate na rocha, quem se lixa é o mexilhão”.
As promoções são particularmente escandalosas quando se trata de leite importado ou de leite que viaja milhares de quilómetros entre os Açores e o continente ou entre o continente e os Açores. Por isso, no comunicado recente, a propósito de uma ação de promoção do leite e dos produtos lácteos nacionais, no Porto, a APROLEP desafiou o Governo da República, o Governo Regional dos Açores e os industriais a “trabalhar” para transformar o leite em produtos de valor acrescentado capazes de substituir as enormes importações de queijo e iogurtes que agravam a balança comercial de Portugal. Temos produção, temos qualidade e temos a confiança dos consumidores. Se indústria e distribuição, em vez de puxar para baixo, forem capazes de valorizar o trabalho dos agricultores portugueses, podemos ter futuro.
Agricultor, produtor de leite, Secretário-geral da APROLEP e Diretor da CAP













































