Há perguntas simples que expõem problemas complexos.
Hoje qualquer consumidor consegue distinguir um frango do campo de um frango de aviário. Consegue distinguir ovos de galinhas criadas ao ar livre, ovos de solo ou ovos biológicos. Em poucos segundos percebe que existem modos de produção diferentes e, por isso, faz escolhas diferentes.
Mas será que consegue fazer o mesmo quando compra azeite?
Consegue distinguir um azeite proveniente de um Olival Tradicional, com oliveiras centenárias, forte ligação ao território e elevados custos de produção, de um azeite produzido em sistemas altamente mecanizados e orientados para a escala?
A resposta, na maioria dos casos, é não.
E aqui reside um dos maiores desafios do setor olivícola português: o consumidor não pode valorizar aquilo que não consegue identificar.
Durante os últimos anos discutimos intensamente o preço do azeite. Uns consideraram-no excessivo. Outros lembraram que, durante décadas, o azeite foi vendido abaixo do seu verdadeiro custo de produção. Mas enquanto discutíamos o preço, esquecemo-nos de discutir algo mais importante: o valor.
Porque o preço é conjuntural. O valor é estrutural.
Os mercados internacionais apontam para uma recuperação da produção mediterrânica e para uma progressiva normalização dos preços. Quando isso acontecer, a pergunta será inevitável: como sobreviverão os territórios onde produzir azeite custa mais? Como sobreviverão os Olivais Tradicionais, as regiões de montanha e os agricultores que não conseguem competir apenas pelo preço?
A resposta não pode ser produzir mais barato.
Muitos destes territórios nunca conseguirão produzir mais barato.
A resposta tem de passar por produzir valor.
E aqui Portugal continua atrasado.
Enquanto Itália, Espanha e Grécia construíram ao longo de décadas extensas redes de denominações de origem para o azeite, Portugal conta atualmente com apenas seis DOP reconhecidas. Para um dos maiores produtores mundiais de azeite, este é um número modesto.
O problema não é burocrático.
É estratégico.
As denominações de origem não servem apenas para proteger nomes. São instrumentos de inteligência territorial. Servem para organizar territórios, comunicar diferenças e transformar origem em valor económico.
No vinho compreendemos isso há muito tempo.
Ninguém estranha que um vinho do Douro seja diferente de um vinho do Alentejo. Ninguém estranha que uma vinha velha tenha identidade própria. Ninguém estranha que a origem faça parte do preço.
No azeite continuamos demasiadas vezes a agir como se tudo fosse igual.
Mas não é.
Não é igual produzir numa planície mecanizada ou numa encosta difícil.
Não é igual colher em olivais recentes ou em árvores que atravessaram gerações.
Não é igual produzir num território que transporta séculos de história agrícola.
E quando o mercado trata tudo por igual, o resultado é simples: vence quem produz mais barato.
É precisamente por isso que os processos de valorização da origem devem ser encarados numa perspetiva mais ampla.
As DOP e as IGP não são meros instrumentos administrativos. São ferramentas de diferenciação económica, organização territorial e comunicação com o consumidor.
A proposta da DOP Azeite de Murça, atualmente a aguardar despacho governamental, constitui apenas um exemplo de um desafio que se coloca a muitos territórios olivícolas portugueses.
O objetivo não é proteger um nome por si só.
O objetivo é criar mecanismos que permitam ao consumidor reconhecer diferenças reais de origem, de sistema produtivo e de identidade territorial.
Murça não é um caso isolado.
É apenas um exemplo de uma realidade que atravessa muitas regiões onde o Olival Tradicional continua a desempenhar um papel essencial na economia local, na paisagem, na cultura e na ocupação do território.
Se queremos que estes territórios continuem vivos, precisamos de criar mecanismos que permitam ao consumidor reconhecer aquilo que hoje permanece invisível.
Porque o verdadeiro desafio do azeite português não é produzir mais.
Também não é vender mais caro.
É conseguir que o consumidor reconheça quando está perante um azeite proveniente de Olival Tradicional. Um azeite produzido em explorações familiares, em terrenos difíceis, com árvores antigas e custos de produção muito superiores. Um azeite que transporta uma paisagem, uma história e uma forma de agricultura que dificilmente poderá ser reproduzida noutro lugar.
O setor enfrenta hoje uma escolha decisiva.
Pode continuar a discutir apenas produção, volume e preço.
Ou pode começar a discutir diferenciação, origem e valor.
Porque quando um produto não consegue comunicar aquilo que o torna diferente, acaba inevitavelmente por competir apenas pelo preço.
E quando tudo se resume ao preço, os primeiros a desaparecer são precisamente os sistemas agrícolas que mais território preservam, mais pessoas fixam e mais identidade transportam.
O futuro do Olival Tradicional português dependerá, em grande medida, da nossa capacidade coletiva para tornar visível aquilo que hoje continua invisível.
Francisco António Vilela Ribeiro
Presidente do Conselho de Administração Cooperativa Agrícola dos Olivicultores de Murça
Administrador FENAZEITES – Federação Nacional das Cooperativas de Olivicultores














































