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Aumento das perturbações florestais requer atenção política

por Florestas.pt
27-05-2026 | 09:35
em Últimas, Notícias florestas, Blogs
Tempo De Leitura: 12 mins
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Os decisores europeus devem considerar o aumento das perturbações florestais e integrar esse risco nas suas políticas e estratégias relacionadas com a floresta, a biodiversidade, a bioeconomia e a adaptação climática. A recomendação é feita pelo Instituto Florestal Europeu (EFI), na sequência de um estudo que projeta, até ao final do século XXI, um aumento entre 31% e 122% da área florestal anualmente afetada por perturbações severas, dependendo do cenário climático analisado.

A política e a gestão florestal na Europa necessitam de considerar que as próximas décadas serão marcadas por perturbações florestais mais extensas. Esta é uma das recomendações que o EFI deixa aos decisores e aos profissionais do sector, com base nas conclusões de um estudo científico desenvolvido com contributos de investigadores deste Instituto.

Publicado na revista Science, como parte do projeto RESONATE, o estudo “Climate change will increase forest disturbances in Europe throughout the 21st century” projetou a evolução das perturbações florestais decorrentes das alterações climáticas ao longo do século XXI. Foram usadas várias décadas de observações de satélite em conjunto com simulações florestais avançadas, para treinar um modelo de inteligência artificial capaz de projetar o que acontecerá nos próximos 80 anos.

As conclusões indicam que os níveis de perturbação vão ultrapassar aqueles que têm sido observados recentemente, variando consoante os cenários de aquecimento global projetados – os cenários Representative Concentration Pathways(RCP), do Painel Intergovernamental para as Alterações Climáticas (IPCC). Assim, no final do presente século (2081–2100), estima-se que as perturbações vão afetar anualmente mais área florestal:

  • mais 31% no cenário mais otimista (RCP2.6);
  • mais 61% no cenário intermédio (RCP4.5);
  • e mais 122% no cenário mais severo (RCP8.5).

O estudo perspetiva a evolução de três agentes de perturbação que, em conjunto, representam cerca de “87% de todas as perturbações ocorridas nos últimos 70 anos”: incêndios florestais de elevada severidade, pragas por surtos de insetos (especificamente pelo Ips typographus) e derrubes pelo vento (tempestades).

Considerando estes três agentes, os investigadores projetaram qual será a taxa de perturbação (a área anual de floresta que poderão danificar severamente) no final do século, face aos indicadores de perturbações registados por satélite entre 1986 – 2020. Este é a base temporal de referência para o estudo e os investigadores assumem-na como um intervalo de tempo em que o nível de perturbação foi já “o mais elevado dos últimos 170 anos”.

As projeções indicam que as perturbações causadas por incêndios serão as que mais vão aumentar, afetando ainda mais área de floresta mediterrânica, mas danificando também as florestas temperadas e boreais de forma crescente. As pragas de insetos deverão aumentar em particular na zona temperada, em resposta ao aumento da temperatura e das secas.

Estas perturbações vão alterar a estrutura e a idade das florestas europeias, com aumento de proporção das florestas jovens e redução das florestas maduras. Além de desequilíbrios na biodiversidade, estima-se que as consequências nocivas irão também abranger o armazenamento de carbono, a disponibilidade de madeira e o planeamento da bioeconomia de base florestal.

Como limitar a futura magnitude das perturbações florestais?

“O aumento adicional das perturbações florestais nas próximas décadas é altamente provável”, refere o estudo, reforçando a adaptação como um imperativo.

Os autores recomendam, assim, que as perturbações florestais passem a ocupar um lugar central na política florestal e que a gestão da floresta se adapte ao aumento esperado das perturbações, incrementando as florestas mistas com espécies mais adaptadas às alterações climáticas e os povoamentos diversos, mais complexos estruturalmente e de idade heterogénea.

O documento sublinha que o aumento das perturbações será transversal às florestas de todo o continente europeu, mas que as projeções identificam zonas com maiores taxas de perturbação face ao seu histórico (hot-spots), podendo encontrar-se também zonas refúgio sujeitas a menor pressão, pelo que é essencial desenvolver respostas coordenadas à escala europeia, mas adaptadas localmente.

Da mesma forma alerta que é fundamental integrar estas projeções nas políticas europeias relativas ao clima, ao carbono, à biodiversidade e à bioeconomia, reforçando a mitigação das alterações climáticas como aspeto central: “Os resultados sublinham a necessidade de uma rápida redução das emissões de gases com efeito de estufa (GEE), de modo a prevenir os impactes climáticos mais graves, que trarão aumentos de perturbações muito mais extremos”, refere o artigo.

Na mesma linha de recomendações, o EFI criou uma “síntese política”, que apela a várias linhas de ação prioritárias:

  • Integrar as perspetivas de evolução das perturbações florestais nas políticas europeias e nacionais relacionadas com o armazenamento de carbono nas florestas, os mercados de madeira, a biodiversidade e a bioeconomia;
  • Integrar a gestão do risco de perturbações no planeamento florestal, com base em estratégias integradas de gestão de perturbações a nível pan-europeu, regional e local.
  • Apoiar a monitorização e a gestão de perturbações a nível transcontinental, promovendo a partilha de informação e os recursos que permitam desenvolver sistemas de alerta precoce e estratégias de resposta eficientes.
  • Promover estratégias de restauro florestal que promovam a heterogeneidade das florestas e o estabelecimento de florestas mistas e estruturalmente diversas, com maior resiliência estrutural e genética (por exemplo, reduzindo restrições legais na gestão pós-perturbação e através de programas de subsídios direcionados).
  • Financiar a investigação sobre as causas e as consequências da alteração dos regimes de perturbação florestal, para apoiar a tomada de decisões baseada em evidência;
  • Reforçar a importância de atuar na redução rápida das emissões de GEE, para limitar a magnitude futura das perturbações.

Diferentes agentes de perturbação podem interagir entre si, e as retroações entre perturbações, vegetação e clima podem ter efeitos de atenuação ou de amplificação nas perturbações futuras. Devido a esta complexidade, têm faltado, até agora, projeções robustas e de longo prazo dos regimes de perturbação, com elevada resolução e a uma escala espacial alargada. Estas projeções são, contudo, necessárias para quantificar os riscos futuros para os ecossistemas e os serviços que nos proporcionam, e para desenvolver estratégias de mitigação de risco e instrumentos de política integrados.

Perturbações: causas e consequências

O estudo considera três principais tipos de perturbações florestais responsáveis por mortalidade e danos de elevada severidade:

  • Incêndios florestais. Causados pelo aumento da temperatura e aridez, provocam mortalidade elevada ou total das árvores na área perturbada.
  • Surtos de Ips typographus. Levam à mortalidade massiva das árvores hospedeiras e são causados, sobretudo, pelas temperaturas mais elevadas, que promovem mais gerações anuais de insetos, e pela maior debilidade das árvores, devida ao stress hídrico, que as deixa menos resistentes a outras perturbações, como as tempestades (derrube pelo vento, por exemplo).
  • Derrubes por vento – tempestades. Causam o derrube de árvores e, embora estes fenómenos sejam geralmente localizados, alteram a estrutura (vertical e horizontal) das florestas. Afetam principalmente zonas florestais maduras (árvores mais altas) e levam a descontinuidades que causam desequilíbrios nas dinâmicas do ecossistema. Embora com um contributo inferior face aos incêndios e insetos para o aumento de perturbações florestais, este é um fator-chave no desencadear destas outras perturbações.

Refira-se que os autores pressupõem que, independente do cenário, o vento mantém um comportamento similar ao do período de referência, por falta de projeções robustas sobre a sua potencial evolução. Esta é uma limitação assumida, que pode refletir-se em projeções menos extensas do que serão no futuro, uma vez que o vento tem sido um importante agente de perturbação na floresta europeia.

O que revelam os três cenários projetados?

Cada um dos cenários climáticos projetados revela um aumento das perturbações por incêndios e surtos de insetos com diferentes dinâmicas temporais e dimensões:

– Cenário otimista: RCP2.6: Forte mitigação não trava aumento das perturbações

Assumindo uma redução rápida e consistente das emissões de GEE, capaz de limitar o aquecimento médio global a cerca de +1,3 °C até 2100, o estudo antecipa que, em 2081-2100, as perturbações florestais afetarão mais 31% da área florestal face ao período de referência. O principal aumento de área perturbada será sentido na próxima década (anos 2030) e tende a aligeirar-se depois, embora se mantenha continuamente acima do registado até aqui.

Os surtos de insetos aumentarão até à década de 2040, podendo atingir 46,4 mil hectares anuais de floresta (face aos 32,2 mil hectares do período base), mas reduzem-se depois para valores mais próximos dos base. Por sua vez, no final do século, a área florestal queimada anualmente subirá para cerca de 108,5 mil hectares. Quer isto dizer que, em cada ano, em média, haverá mais 26,5 mil hectares de floresta ardidos face aos cerca de 82 mil hectares anuais do período base.

RCP2.6 Área em 1986 – 2020 Área em 2081 -2100 Diferença média
Incêndios 82,016 mil hectares/ano 108,580 mil hectares/ano + 26,564 mil hectares/ano
Pragas 32,251 mil hectares/ano 33,512 mil hectares/ano +1,261 mil hectares/ano

– Cenário intermédio RCP4.5: Aumenta a pressão dos incêndios e pragas

Num cenário em que a ação climática limita o aquecimento médio a cerca de 2,2°C até 2100, as perturbações totais vão ampliar-se em cerca de 61% em finais do século. As taxas de perturbação atingem o auge por volta dos anos 2050, após o que diminuem ligeiramente, mantendo-se sempre acima dos níveis atuais.

Perspetiva-se um aumento muito expressivo dos incêndios, com a área florestal destruída pelo fogo a elevar-se acima dos 145,8 mil hectares por ano no final do século. O estudo sublinha que, neste cenário, o que agora consideramos como anos extremos de incêndios passarão a ocorrer, em média, de dois em dois anos. A área perturbada por surtos de insetos aumenta dos recentes 32,2 mil hectares por ano para cerca de 40,7 mil hectares no final do século.

RCP4.5 Área em 1986 – 2020 Área em 2081 -2100 Diferença média
Incêndios 82,016 mil hectares/ano 145,856 mil hectares/ano + 63,840 mil hectares/ano
Pragas 32,251 mil hectares/ano 40,714 mil hectares/ano + 8,463 mil hectares/ano

Cenário severo RCP8.5: Área de floresta severamente danificada mais que duplica

Num cenário de aumento de emissões que promove um aquecimento médio da temperatura de cerca de +4,3 °C até 2100, a extensão das perturbações florestais mais do que duplica e o aumento persiste ao longo de todo o século.

A área florestal devastada por incêndios aumenta muito, para cerca 232 mil hectares por ano no período 2081-2100. Ficarão severamente perturbados mais 150 mil hectares em cada ano do que no período base e, deste modo, todos os anos passarão a ser anos extremos de incêndios. Os surtos de escaravelho-da-casca também aumentam acentuadamente, causando perturbações em quase 59 mil hectares por ano no final do século.

RCP8.5 Área em 1986 – 2020 Área em 2081 -2100 Diferença média
Incêndios 82,016 mil hectares/ano 232,061 mil hectares/ano +150,045 mil hectares/ano
Pragas 32,251 mil hectares/ano 58,923 mil hectares/ano +26,672 mil hectares/ano

O artigo foi publicado originalmente em Florestas.pt.

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