A conclusão é do novo estudo da Savills Portugal, The Living Asset – Rebuilding Portugal’s Natural Capital Through Regenerative Agriculture, que identifica este modelo como uma classe de ativos emergente.
O relatório descreve Portugal como um “mercado paradoxal”: grande diversidade de climas, solos e sistemas produtivos, mas uma agricultura que pesa menos de 3% do valor acrescentado bruto nacional. Essa distância entre potencial ecológico e contributo económico é precisamente o espaço onde o investimento regenerativo pode atuar, valorizando ativos subaproveitados e recuperando a base ecológica da produção.
Alexandra Gomes, Head of Research da Savills Portugal, sublinha que “estamos a assistir a uma reconfiguração profunda da forma como a terra agrícola é avaliada. Já não basta olhar para o rendimento das culturas: a saúde do solo, a água e a biodiversidade tornaram-se variáveis financeiras tão relevantes quanto as tradicionais. Portugal tem aqui uma oportunidade de alinhar performance económica e ambiental numa mesma classe de ativos.”
Um novo modelo de avaliação da terra
O estudo aponta para uma mudança estrutural na agricultura europeia. Os modelos extrativos estão a dar lugar a sistemas que regeneram solo, água e biodiversidade. A Savills antecipa cinco dinâmicas para a próxima década: resiliência climática como fator de desempenho, integração do capital natural nas avaliações, procura crescente por produtos sustentáveis, maior especialização regional e generalização da monitorização das práticas regenerativas.
No plano financeiro, a terra agrícola em Portugal pode gerar retornos anuais entre 5% e 7%, acima dos 3% típicos dos ativos imobiliários super core.
Cada vez mais, os investidores reconhecem que a saúde do solo, a disponibilidade de água e a biodiversidade deixaram de ser apenas critérios ambientais para se tornarem indicadores centrais de estabilidade e valorização a longo prazo, com impacto no acesso a financiamento verde e no cumprimento de objetivos ESG e de investimento de impacto.
A dimensão política é outro pilar desta evolução. Apesar do enquadramento da PAC e do PEPAC, a agricultura regenerativa só beneficia parcialmente dos apoios existentes. Estima-se que entre 40% e 60% da área cultivada em Portugal integre pelo menos uma prática regenerativa, mas apenas 10% a 15% opere num regime verdadeiramente integrado.
O caso da amêndoa
Na prática, estas mudanças são particularmente evidentes em algumas culturas. A amêndoa é o exemplo mais visível desta transformação: em menos de uma década, Portugal tornou-se o terceiro maior exportador líquido mundial, apoiado nos perímetros de rega do Alqueva e de Idanha-a-Nova.
O capital internacional que acompanhou este crescimento aumentou também a pressão sobre água e solos, tornando as práticas regenerativas decisivas para proteger o investimento.
Bruno Amaro, Rural Business Developer da Savills Portugal, acrescenta que “as práticas regenerativas representam um avanço significativo para a agricultura, sendo provavelmente a evolução mais relevante desde a introdução dos fertilizantes químicos. Portugal tem assumido um papel de destaque na sua implementação e, com este estudo, procuramos evidenciar esse posicionamento e reforçar a sensibilização para o tema. O amendoal, por exemplo, destaca-se como uma das culturas onde os resultados têm sido mais expressivos.”
Uma década decisiva
Para além destes casos, o estudo olha também para o mapa do país. O relatório identifica várias zonas com maior potencial para escalar modelos regenerativos – Alentejo, Oeste, Douro, Ribatejo e Açores – e conclui que Portugal entra numa década decisiva.
A combinação de diversidade ecológica, preços de terra ainda competitivos e urgência climática abre uma janela de oportunidade para Portugal se posicionar como hub regenerativo no Sul da Europa até 2030, à medida que os mercados de carbono, biodiversidade e água ganham escala.
O estudo completo será apresentado publicamente no dia 26 de maio, em Évora, no V Congresso Portugal Nuts, dedicado à competitividade dos frutos secos e à agricultura regenerativa.
Fonte: Savills














































