O uso das algas para alimentos, rações ou medicamentos foi otimizado e aumentado nos últimos anos, mas o “maior desafio” continua a ser legislativo, nacional e europeu, dizem responsáveis do setor.
O balanço foi feito à agência Lusa por elementos do consórcio Vertical Algas, que hoje apresentou os resultados de quatro anos de investimentos, no âmbito da iniciativa Pacto da Bioeconomia Azul.
O Pacto da Bioeconomia Azul foi um projeto inserido no Plano de Recuperação e Resiliência (PRR), no valor de 139 milhões de investimento até 2026. Vertical Algas foi a maior iniciativa do plano, juntando 37 entidades, liderada pela empresa Necton, e mobilizando 44 milhões de euros.
Contribuiu, dizem os responsáveis do consórcio, para “posicionar Portugal como uma referência europeia no setor das algas”, com processos produtivos mais sustentáveis e digitalizados, aumento de produtividade, desenvolvimento de produtos para alimentação humana e animal, incluindo rações para peixes, ou produtos para a industria farmacêutica e cosmética ou para a agricultura (como biofertilizantes).
Hugo Pereira, da GreenColab, plataforma de ligação entre a academia e a indústria que faz parte da Vertical Algas, destacou à Lusa como fundamental do projeto a instalação de unidades de produção, e como resultado disso a colocação já de novos produtos no mercado, e de outros que serão lançados em breve, a par de avanços na investigação.
“Portugal é uma referência. É dos países da União Europeia (UE) com mas força nas algas” e o projeto financiado pelo PRR não só tornou o país “mais forte” como permite a continuação do trabalho, eventualmente com outros apoios europeus.
“As algas são uma matéria-prima emergente”, disse, defendendo o aumento da capacidade de produção e alertando que os custos elevados levam à necessidade “de escala” para tornar o setor mais competitivo.
Para já, afirmou, melhoraram-se as algas, há mais algas em estudo, houve melhoramentos usando a biotecnologia ou a proteção do microbioma, houve a preocupação com a sustentabilidade, o foco em reduzir custos, na água, na eletricidade, também na automação das unidades.
Destacando a grande diversidade de algas, referindo que novos produtos estarão no mercado nos próximos meses, Hugo Pereira disse que ainda que este seja um mercado que cresce todos os anos há muito trabalho legislativo a fazer. “O grande problema é a legislação”, alertou.
E deu como exemplo a alga invasora “Rugulopteryx okamurae”, que enche praias do Algarve ou de Cascais nos últimos anos, e que se tornou um problema para banhistas e para as autarquias.
“Não podemos estudar a alga, por ser invasora. Mas se em vez de ir para aterros fosse para unidades de tratamento o risco era o mesmo”, disse, lamentando que proteínas, lípidos e hidratos estejam a dar à costa e não sejam aproveitados. “É importante mas não conseguimos”, resumiu.
João Navalho, presidente da Necton, para quem o projeto superou o que esperava e deixou pistas para desenvolvimentos futuros, também disse à Lusa que o maior desafio se prende com a legislação, nacional e europeia.
Com uma indústria muito nova (começou nos anos 1970), com muito por descobrir no aproveitamento das algas, o responsável disse à Lusa que não há forma de competir com a agricultura, que começou há milhares de anos e é fortemente subsidiada.
“As algas têm de ter um papel preponderante, fazem sentido em todo o processo de circularidade. Mas estão incluídas na aquacultura, cuja legislação é feita a pensar em peixes. Como não estamos enquadrados é como se não existíssemos”, lamentou.
É por isso que sem políticas adequadas as algas não conseguem o seu espaço, não se consegue por exemplo fazer proteína vegetal que possa competir com a agrícola. “Não temos força” e o mesmo se passa a nível europeu, referiu, dando também o exemplo da “Rugulopteryx okamurae”, que “podia ser aproveitada mas vai bater no texto legal”.
Ainda assim João Navalho não duvida que tem de haver mudanças, que não se pode progredir com legislação obsoleta enquanto outros países vão avançando. Porque hoje, justificou, “é mais fácil introduzir na Europa produtos de outros países do que aprovar produtos dentro da UE”.














































