Em vésperas da vindima no Douro, os viticultores Manuel Veiga e José Ventura ainda não sabem o que fazer com as uvas porque as empresas com que trabalham informaram que não vão comprar ou vão comprar menos uvas.
Manuel Veiga, de Sedielos, no Peso da Régua disse à agência Lusa que recebeu uma carta da empresa para a qual vendia uvas há 12 anos a informar que não quer uvas, “nem para o benefício nem para o vinho de mesa”.
“E não me deram justificação nenhuma, disseram que não querem uvas nem para o cartão [de benefício]. Vou ver como vai correr, neste momento não sei como vai ser”, afirmou o produtor que participou esta manhã na concentração em frente à sede do Instituto dos Vinhos do Douro e Porto (IVDP), na Régua.
O produtor tem seis hectares e colhe cerca de 40 toneladas de uvas, das quais cerca de 10 pipas são para o benefício, e contou que este ano o fruto “está bom e bonito”.
O benefício é a quantidade de mosto que cada produtor pode destinar à produção de vinho do Porto e é também a principal fonte de rendimento dos viticultores do Douro. O Conselho Interprofissional do IVDP fixou, para a vindima de 2026, um beneficio de 76 mil pipas (550 litros cada), mais mil pipas do que no ano passado.
A poucos dias do arranque da vindima, Manuel Veiga admitiu ter esperança de ainda conseguir vender o quantitativo de benefício, mas, quanto ao resto, teme que terá que deixar na vinha.
“Não está a ser fácil e, se assim continuar, o que se pode fazer? Abandonar?”, questionou, referindo que já bateu à porta de duas adegas, mas que não conseguiu nada até ao momento.
Foi emigrante e investiu na vinha, de onde retira o rendimento e “até tem dado”, porque o trabalho está mecanizado e é feito maioritariamente por si.
“Investi mal, isto já deu o que tinha a dar e estou convencido de que isto nunca mais levanta”, lamentou agora.
José Ventura também participou no protesto convocado pela Confederação Nacional d Agricultura (CNA) e a Associação dos Viticultores e da Agricultura Familiar Douriense (Avadouriense) e trazia uma corda colocada ao pescoço.
Veio de Folgosa do Douro, em Armamar, e referiu que há cerca de um mês recebeu uma carta através da qual foi informado de que só vai entregar uvas autorizadas (benefício), ou seja cerca de quatro pipas.
“A partir daí, não querem nem mais um quilo. Só me querem o benefício, mais nada. Como é que nos podemos sentir? Só mesmo com a corda na garganta e só falta mesmo o último esticão. É assim que me estou a sentir, sou forçado a abandonar”, afirmou.
Quanto ao resto das uvas, disse que “vão lá ficar penduradas”, depois de ter andado “um ano inteiro de volta delas”.
“É só mesmo cortar meia dúzia de quilos e o resto fica lá, não tenho outra solução. Não vamos ser todos produtores e engarrafadores, então ainda é pior a emenda do que o soneto. Não está fácil, por isso é que estou com a corda na garganta”, salientou.
Contou que, no ano passado, também recebeu uma carta da empresa só que, a meio da vindima, como foi ano de quebra de produção, foi-lhe pedido para entregar tudo, porque não havia muitas uvas.
Este ano prevê-se um aumento na colheita que pode atingir os 25% na Região Demarcada do Douro e já há, nesta altura, quintas a cortar as uvas mais precoces.
Quanto aos custos de produção, José Ventura disse: “É sempre a subir, todos os anos a subir, só o vinho é que não sobe há 30 anos”.
Por pipa de vinho do Porto, os produtores recebem uma média de mil euros.
“Não há empresa nenhuma, não há comércio nenhum que aguente há 30 anos sempre os mesmos preços e tudo a subir. É impossível”, sublinhou.
Após a concentração em frente ao IVDP, uma delegação de viticultores e dirigentes da CNA foi recebida pelo presidente do instituto público, Gilberto Igrejas, a quem entregou uma proclamação onde se reafirma que a situação vivida no Douro é “insustentável e insuportável”.
Neste documento exigem a obrigatoriedade de contratos e que o Estado fixe preços mínimos para as uvas, proibindo a compra de uvas abaixo dos custos de produção, e reclamam a utilização de aguardente regional na produção de vinho do Porto para promover o escoamento e a valorização de toda a produção.
Reclamam ainda a destilação de crise, a implementar nesta vindima, direcionada particularmente para os sócios das adegas cooperativas e para os produtores que não tenham adquirido vinhos a terceiros.













































