O projeto europeu INCREASE chegou ao fim após seis anos de trabalho, deixando como um dos principais resultados o INCREASE Web Portal, uma plataforma de acesso aberto com dados sobre recursos genéticos de leguminosas alimentares.
De acordo com o comunicado de imprensa, a iniciativa teve como objetivo apoiar a conservação da biodiversidade agrícola e o desenvolvimento de sistemas alimentares mais sustentáveis.
Financiado pela União Europeia (UE) através do programa Horizon 2020, o projeto INCREASE — Intelligent Collections of Food Legumes Genetic Resources for European Agrofood Systems — reuniu 25 parceiros de 12 países, incluindo a Universidade Católica Portuguesa (UCP).
O trabalho centrou-se na preservação e promoção da utilização sustentável dos recursos genéticos de quatro leguminosas alimentares: grão-de-bico, feijão comum, lentilha e tremocilha, também designada lupino.
A UCP participou no consórcio através do Centro de Biotecnologia e Química Fina da Escola Superior de Biotecnologia. No âmbito do projeto, a equipa de investigadores caracterizou cerca de 1.300 amostras de feijão comum cultivadas em Espanha, Itália e Polónia ao longo de dois anos.
As análises incluíram a avaliação do teor de proteína, compostos fenólicos, minerais essenciais, hidratos de carbono, óleo e humidade. O trabalho contribuiu para aprofundar o conhecimento sobre a qualidade nutricional destas variedades e para estudar as interações entre genótipo e ambiente.
“Um dos aspetos mais inspiradores do INCREASE foi a capacidade de envolver milhares de cidadãos na conservação da agrodiversidade europeia. Este projeto mostrou que a ciência participativa pode desempenhar um papel determinante na valorização dos recursos genéticos e na sensibilização da sociedade para a importância das leguminosas na alimentação e na sustentabilidade agrícola”, afirmou Marta Vasconcelos, investigadora do Centro de Biotecnologia e Química Fina da Escola Superior de Biotecnologia da Universidade Católica Portuguesa e coordenadora do projeto em Portugal.
A componente de ciência cidadã foi uma das marcas do projeto. Através de uma aplicação móvel desenvolvida no âmbito da iniciativa, mais de 27 mil cidadãos europeus participaram na avaliação e conservação de variedades de feijão comum. Os participantes cultivaram plantas em jardins, escolas e espaços urbanos e partilharam observações com a comunidade científica.
Outro resultado do INCREASE foi a criação de “Coleções Inteligentes”, subconjuntos selecionados de recursos genéticos que representam de forma eficiente a diversidade existente nos bancos de genes. Estas coleções combinam diversidade genética representativa, dados fenotípicos harmonizados, relativos às características observáveis das plantas, e informação genómica de alta resolução.
“Para o feijão comum, por exemplo, foram geradas cerca de 8.000 linhas geneticamente estáveis, apoiadas por sequenciação genómica extensiva e ensaios de campo em múltiplos locais europeus”, explicou Marta Vasconcelos.
No caso do lupino, o projeto realizou a caracterização mais completa alguma vez feita para esta cultura. Estes recursos permitem aos investigadores identificar características genéticas relevantes de forma mais eficiente e apoiar o desenvolvimento de novas variedades adaptadas a diferentes condições ambientais.
Com recurso a tecnologias de genómica e outras ferramentas de análise, o INCREASE identificou regiões genéticas importantes em várias leguminosas. No grão-de-bico, foram identificadas regiões associadas à tolerância à seca. Na lentilha, foram estudados genes ligados à adaptação a condições de altitude. No feijão comum, foram identificados genes associados à resistência a doenças.
Segundo a informação divulgada, a combinação destes dados com novos métodos estatísticos permite identificar genes cujos efeitos dependem do ambiente em que a planta cresce. Esta informação alimenta modelos preditivos que ajudam a determinar quais as variedades mais adequadas a cada contexto, incluindo perante alterações climáticas.
Embora o projeto tenha terminado em abril de 2026, os recursos genéticos, dados científicos e ferramentas desenvolvidas permanecerão disponíveis para investigadores, agricultores, melhoradores de plantas e bancos de genes em toda a Europa.
A continuidade da comunidade criada em torno do INCREASE será assegurada pela associação Diversitas, criada para dar seguimento às atividades de conservação descentralizada e investigação participativa iniciadas pelo projeto.
O artigo foi publicado originalmente em Vida Rural.












































