A propósito da recente notícia publicada pelo jornal PÚBLICO, no dia 17 de agosto de 2026, intitulada “Sobrepastoreio agrava avanço da desertificação em Portugal”, a APROSERPA – Associação de Agricultores da Margem Esquerda do Guadiana considera necessário esclarecer alguns aspetos e, sobretudo, evitar que uma questão complexa seja reduzida a uma associação simplista entre pecuária extensiva e desertificação.
A APROSERPA não contesta o alerta científico relativo aos efeitos do sobrepastoreio. Um encabeçamento desajustado à capacidade de suporte de determinado território, sobretudo em períodos prolongados de seca e escassez de alimento, pode provocar compactação, perda de coberto vegetal, erosão e degradação do solo.
Mas sobrepastoreio não é sinónimo de pastoreio. E muito menos é sinónimo de pecuária extensiva.
É precisamente aqui que consideramos que a manchete e, particularmente, a imagem escolhida para apresentar a notícia podem transmitir à opinião pública uma perceção incompleta da realidade. A fotografia de animais concentrados sobre um solo praticamente sem coberto vegetal, associada a uma manchete sobre o avanço da desertificação, favorece uma associação imediata entre presença de gado e degradação do território que não traduz a complexidade do problema nem distingue sistemas de produção, espécies pecuárias, encabeçamentos ou formas de maneio.
O problema não é o animal. É a gestão.
O Montado é, por definição, um sistema agro-silvo-pastoril, construído e mantido ao longo de gerações através da interação entre árvores, pastagens, agricultura e animais.
A presença de herbívoros, quando corretamente gerida, desempenha funções importantes na gestão deste território. O pastoreio permite aproveitar recursos forrageiros, controlar a biomassa herbácea e arbustiva, reciclar nutrientes e contribuir para a manutenção das pastagens e para a prevenção da acumulação excessiva de combustível vegetal.
Por isso, da mesma forma que devemos reconhecer os riscos do sobrepastoreio, também não podemos ignorar os riscos associados ao abandono e ao subpastoreio, particularmente num território mediterrânico cada vez mais sujeito a períodos prolongados de seca e a incêndios rurais de elevada intensidade.
A resposta não pode ser retirar os animais do território. Tem de ser gerir melhor e adaptar permanentemente o maneio às condições do território.
QUEM VIVE DO SOLO TEM TODO O INTERESSE EM PRESERVÁ-LO
Existe ainda uma realidade económica que frequentemente fica esquecida neste debate.
Para um produtor pecuário extensivo, degradar uma pastagem significa destruir a sua própria fonte de alimento para os animais. Um solo degradado produz menos, retém menos água e aumenta a necessidade de recorrer à compra de alimentos externos, comprometendo simultaneamente a sustentabilidade ambiental e económica da exploração.
O bom agricultor não tem interesse em esgotar o solo. O solo é o seu principal capital produtivo.
Na Margem Esquerda do Guadiana existem produtores que têm vindo a adotar práticas destinadas a melhorar a gestão das explorações, através da adequação dos encabeçamentos, da rotação e repouso das pastagens, do Modo de Produção Biológico e da participação em medidas agroambientais e modelos de remuneração por resultados.
Estas realidades também devem fazer parte do debate sobre desertificação.
UM TERRITÓRIO NÃO PODE SER GERIDO ATRAVÉS DE GENERALIZAÇÕES
A capacidade de suporte de uma pastagem não é igual em todo o país, nem sequer é necessariamente igual na mesma exploração de um ano para o outro.
Um ano de precipitação favorável pode proporcionar uma determinada disponibilidade forrageira. Um ano de seca severa pode reduzir drasticamente essa capacidade. Espécies animais diferentes exercem também pressões diferentes sobre o território.
É precisamente por isso que as políticas públicas e os apoios da Política Agrícola Comum devem estar cada vez mais adaptados às características específicas dos territórios e reconhecer aqueles que asseguram uma gestão sustentável do solo, da água, da biodiversidade e da paisagem.
Não podemos exigir aos agricultores que sejam os principais agentes da conservação do território e, simultaneamente, permitir que o debate público apresente a atividade pecuária extensiva de forma indiferenciada como uma ameaça ambiental.
Não contestamos a ciência. Contestamos a generalização.
A APROSERPA reconhece que existem situações de sobrepastoreio e que estas devem ser identificadas e corrigidas. O que recusamos é que situações de mau maneio sejam confundidas com a realidade de toda a pecuária extensiva portuguesa.
Da mesma forma que um incêndio não permite condenar toda a gestão florestal, uma situação de sobrepastoreio não permite transformar o pastoreio extensivo no responsável pela desertificação do país.
Sobrepastoreio é excesso. Pastoreio sustentável é gestão. São realidades diferentes e devem ser tratadas como tal.
A desertificação resulta de uma combinação complexa de fatores climáticos e humanos: secas prolongadas, erosão, incêndios, perda de matéria orgânica, abandono rural, práticas agrícolas desadequadas, alterações do uso do solo e alterações climáticas. Reduzir este fenómeno à presença de animais no território não ajuda a encontrar soluções.
UM CONVITE AO CONHECIMENTO DO TERRITÓRIO
A APROSERPA deixa, por isso, um convite aberto aos jornalistas, investigadores e decisores políticos para conhecerem as explorações da Margem Esquerda do Guadiana e dialogarem diretamente com quem diariamente gere estes territórios.
Queremos mostrar as dificuldades, mas também as boas práticas. Queremos discutir encabeçamentos, pastagens, água, biodiversidade, erosão, alterações climáticas e sustentabilidade económica com base na realidade concreta de cada território.
Os agricultores devem fazer parte desta discussão, porque são eles que permanecem no terreno todos os dias e porque não haverá verdadeira política de combate à desertificação sem uma agricultura economicamente viável.
A pecuária extensiva, quando devidamente gerida e adaptada à capacidade do território, não é inimiga do ambiente. É uma componente essencial da gestão do Montado e uma importante linha de defesa contra a degradação dos solos, os incêndios e o abandono do território.
Fonte: APROSERPA













































