No rescaldo da Reunião Geral da Indústria que realizámos no passado dia 28 de abril, sob o tema “Desafios e Vulnerabilidades em Tempos de Incerteza”, felizmente, com assinalável êxito, devido a um leque de oradores e uma Mesa-Redonda de excelência (uma vez mais, obrigado a todos, participantes, oradores e patrocinadores), revisitámos as Notas de 7 de fevereiro de 2025, intituladas “Ao Ritmo de Trump?”.
No espaço de mais de um ano, muita coisa mudou, mas mantém-se, para o bem e para o mal, o essencial: vivemos um autêntico carrossel de instabilidade e volatilidade, caminhamos ao ritmo de Trump, as relações transatlânticas seguem tensas, a intervenção dos Estados Unidos da América (EUA) e de Israel no Irão, iniciada em 28 de fevereiro, continua a arrastar-se e evoluiu para uma guerra no Médio Oriente. Desde então, o carrossel deu lugar a uma montanha-russa, em função dos acontecimentos no Estreito de Ormuz e das negociações entre os EUA e o Irão.
Como é possível tamanha sensibilidade dos mercados a estes desenvolvimentos, não raras vezes erráticos e contraditórios, flutuando ao sabor de declarações com pouco sentido, em que as redes sociais substituíram os canais tradicionais de comunicação dos governos e a própria diplomacia? Sinais dos tempos em que vivemos.
A semana foi claramente marcada pelas tensões entre os EUA e a Europa, decorrentes dos acontecimentos no Golfo. A Administração Trump a ameaçou com novas tarifas às exportações de automóveis, na sequência de críticas do chanceler alemão, o que, a concretizar-se, terá impacto na Alemanha, o motor da economia europeia. Nada disto é um acaso e, já aqui o tínhamos dito, seriam de esperar retaliações da Administração norte-americana ao posicionamento da União Europeia e da NATO (Organização do Tratado do Atlântico Norte, na sigla inglesa) acerca da intervenção no Irão.
A postura de retaliação, de diplomacia transacional do Presidente Trump, de “desconsiderações” aos aliados, misturadas com arrogância e desrespeito, já não nos deve surpreender, mas importa, apesar de tudo, não reagir no mesmo tom. Aconselha-se cabeça fria e (algum) gelo nos pulsos.
As relações transatlânticas são muito importantes para a União Europeia, Portugal incluído, mas temos de fazer o nosso caminho, seja no quadro de um projeto europeu cada vez mais alargado (não a qualquer preço), seja no âmbito da NATO, reforçando o peso de cada aliado, autonomizando-nos cada vez mais face aos EUA, que já demonstrou não ser o aliado (con)fiável de outros tempos. A (8ª) Cimeira da Comunidade Política Europeia que teve lugar esta semana na Arménia e que contou com a presença de líderes mundiais de quase 50 países, incluindo o primeiro-ministro canadiano Mark Carney, sob o mote “Construir o futuro: unidade e estabilidade na Europa”, talvez seja o virar de página.
Acorda, Europa?
Com um cenário de estagflação, sem dúvida que o futuro imediato se joga no Estreito de Ormuz. A resolução da tensão nesta região ditará o sucesso, ou insucesso, do encontro entre Donald Trump e Xi Jinping, marcado para os dias 14 e 15 de maio. Não por acaso, também esta semana, o Ministro dos Negócios Estrangeiros do Irão visitou a China.
Para já, os impactos continuam a fazer-se sentir nos preços do petróleo, nas matérias-primas, nos custos de produção e na inflação, que voltou a subir e não se prevê que possa abrandar no curto prazo. A pressão sobre o petróleo impacta diretamente os biocombustíveis e as disponibilidades (e preços) das matérias-primas e coprodutos.
Recorde-se que pelo Estreito de Ormuz passam entre 25 a 30% do petróleo mundial, 20% do gás natural, 20-45% dos fertilizantes e 15 milhões de toneladas de matérias-primas. Por outro lado, em 2025, o Médio Oriente representou para a União Europeia 13,2 biliões de euros de exportações e 898 milhões de euros de importações.
O tema dos fertilizantes é dramático, mas convém recordar aqui que a ureia também é um aditivo para a alimentação animal, os fosfatos são igualmente importantes, e começa a ser um grave problema para alguns países o acesso à metionina, ou seja, temos impactos muito negativos para a indústria da alimentação animal e uma forte pressão sobre o setor agroalimentar.
Das sucessivas reuniões em que temos participado – uma vez mais o lamento e a crítica do Governo (ainda) não ter reunido as organizações da cadeia de abastecimento e da logística agroalimentar para analisar o ponto de situação – ficou também a certeza de que, se fosse conseguido um acordo de paz duradouro, seriam necessárias entre 6 a 8 semanas, pelo menos, para a normalização dos fluxos de aprovisionamento, num cenário otimista.
Esta semana ficou ainda marcada pelas novidades (positivas) da parte do Conselho de Ministros relativamente a algumas ajudas (sempre insuficientes e tardias) e medidas para a agricultura e atividade pecuária que veremos como se vão concretizar. Além destas, em Bruxelas, a Comissão Europeia avançou com uma proposta de simplificação do EUDR e com um processo de consulta pública em torno de atos legislativos que, aparentemente e sob reserva, não darão resposta às questões que aqui temos levantado. Não ficam afastadas eventuais disrupções no abastecimento dos produtos envolvidos, com destaque para a soja.
E por falar em soja, não por acaso, quando se inicia o acordo com o Mercosul, no qual estão previstos controlos reforçados na importação, a Europa está a confrontar-se com um potencial problema de vestígios de um evento geneticamente modificado (HB4) não autorizado em bagaço de soja proveniente da Argentina e do Brasil. Estamos na presença de métodos analíticos diferentes na Argentina e nos Países Baixos. Estes últimos notificaram o RASFF. É urgente encontrar-se uma solução para esta situação concreta e, face ao reforço nos controlos, a harmonização de métodos e protocolos é absolutamente fundamental.
Em conclusão, para além da geopolítica, incerteza e volatilidade, estamos perante um “colete de forças” legislativo e de enormes condicionantes quando a Europa quer apostar (e bem) no caminho do multilateralismo (aproximação à China?) e na sua Autonomia Estratégica, recusando o protecionismo. Pode ser um caminho penoso, mas é, certamente, obrigatório.
Para já, era bom que terminasse esta montanha-russa. Será para breve?
Jaime Piçarra
Secretário-Geral da IACA













































