O 9.º Congresso Nacional do Azeite, organizado pelo CEPAAL – Centro de Estudos e Promoção do Azeite do Alentejo e que este ano contou com o apoio da Câmara Municipal de Moura, reuniu os principais protagonistas da fileira oleícola portuguesa para refletir sobre os desafios e oportunidades que marcam um dos setores mais relevantes e onde estão a acontecer algumas das mais dinâmicas transformações da agricultura nacional.
A sessão de abertura contou com a participação do Presidente do CEPAAL, Manuel Norte Santo, e do Presidente da Câmara Municipal de Moura, Álvaro Azedo.
Um setor em expansão, entre tradição e inovação
Na abertura do Congresso, Manuel Norte Santo sublinhou que este encontro representa muito mais do que um espaço de partilha de conhecimento: é um momento de reflexão estratégica sobre o presente e, sobretudo, sobre o futuro de um setor profundamente ligado à identidade, à economia e à paisagem portuguesa.
Num contexto internacional marcado por uma procura crescente de azeite – cada vez mais reconhecido como produto de excelência associado à saúde, ao bem-estar e à qualidade de vida, o setor enfrenta desafios significativos, desde a volatilidade dos mercados e o aumento dos custos até às exigências ambientais, à escassez de mão de obra e à crescente complexidade geopolítica.
Apesar destas pressões, o Presidente do CEPAAL destacou que o setor vive uma fase de forte dinamismo e oportunidade. Em Portugal, a produção de azeite quintuplicou nos últimos 26 anos e continua em crescimento, refletindo uma transformação estrutural que posiciona hoje o país entre os protagonistas internacionais da produção oleícola.
Segundo Manuel Norte Santo, Portugal afirma-se na vanguarda da produção de azeite ao conjugar qualidade reconhecida internacionalmente, inovação tecnológica e digitalização, sem perder o valor da experiência acumulada dos olivicultores. Defendeu, por isso, uma convergência efetiva entre tradição e inovação, entre diferentes gerações e modelos produtivos, como condição essencial para assegurar um crescimento sustentável e reforçar a competitividade do azeite português.
Agricultura mais produtiva, mas com défice crescente de talento
A keynote de abertura esteve a cargo de Pedro Santos, Diretor-Geral da CONSULAI, que apresentou as principais conclusões do estudo Evolução do Trabalho na Agricultura em Portugal.
A análise revela uma profunda transformação económica e laboral do setor agrícola nas últimas três décadas: embora o número de trabalhadores tenha reduzido para cerca de metade, a produtividade mais do que duplicou, impulsionada pela mecanização, pela modernização tecnológica e pela crescente profissionalização das explorações.
Em 2023, a agricultura portuguesa gerou 3.362 milhões de euros de Valor Acrescentado Bruto (VAB), sustentada por apenas 211,5 mil trabalhadores, reforçando o seu papel estratégico na economia nacional, na segurança alimentar e na gestão sustentável dos recursos naturais.
Contudo, o estudo identifica fragilidades estruturais preocupantes. Atualmente, a agricultura é o setor mais dependente de mão de obra estrangeira em Portugal, que representa já mais de 40% da força de trabalho — um peso que quadruplicou na última década e que se tornou indispensável à continuidade produtiva.
Paralelamente, a idade média dos agricultores subiu para os 59 anos, refletindo a dificuldade em atrair novas gerações. Apesar de os salários terem aumentado mais de 50% nos últimos dez anos, continuam significativamente abaixo da média nacional, comprometendo a capacidade de captar jovens e profissionais com competências técnicas e digitais.
Para Pedro Santos, o futuro dependerá da capacidade de combinar inovação tecnológica com valorização do capital humano, através de políticas públicas eficazes, investimento em qualificação e maior articulação entre empresas, associações e instituições de ensino.
Diversidade do olival português é vantagem competitiva estratégica
No painel “Do Sequeiro à Sebe: Eficiência e Diversidade no Olival Nacional”, especialistas do setor defenderam que a principal riqueza do olival português reside precisamente na coexistência de diferentes modelos produtivos.
Moderado por António Correia Nunes, da Caja Rural del Sur, o debate contou com a participação de António Bento Dias (Universidade de Évora), Francisco Sepúlveda Castanheira, Henrique Herculano (Casa Relvas), João Domingos (Fio da Beira) e José Maria Falcão (Torre das Figueiras).
O debate sublinhou a profunda evolução do setor nas últimas quatro décadas, impulsionada pela rega, pela mecanização e pela inovação tecnológica. A conclusão foi clara: o futuro passa por encontrar equilíbrio entre produtividade, sustentabilidade e resiliência, assegurando condições para que diferentes modelos (sequeiro, regadio, tradicional e em sebe) possam coexistir em igualdade competitiva.
A gestão eficiente da água, as alterações climáticas, a preservação de variedades autóctones, a investigação aplicada e a escassez de mão de obra foram apontadas como prioridades estratégicas para garantir que Portugal continue a afirmar-se como um dos grandes protagonistas mundiais do azeite.
Financiamento especializado ganha relevância no setor
Na apresentação da Caja Rural del Sur, Eládio Petro Gonçalves destacou a necessidade de uma banca mais próxima e especializada, capaz de responder às especificidades da fileira do azeite.
Entre os principais desafios identificados estão a volatilidade dos preços, os custos energéticos, a necessidade de modernização do regadio e dos lagares, a pressão climática, a internacionalização e os longos ciclos de tesouraria.
Segundo o responsável, o setor precisa de soluções financeiras desenhadas à medida, incluindo financiamento para novas plantações, reconversões, modernização industrial e eficiência hídrica, com prazos e carências ajustados à realidade agrícola.
A sustentabilidade surge também como área prioritária, com tendência crescente para condições bonificadas em projetos ligados a critérios ESG, energia solar e eficiência no uso da água.
Inteligência Artificial posiciona-se como “novo colega estratégico” do olival
Um dos temas centrais do Congresso foi o papel da Inteligência Artificial (IA) no processo de decisão agrícola.
No painel moderado por Rute Xavier, da Universidade Católica Portuguesa, Luís Rosado da Fraunhofer, Miguel Bello da Nova SBE, Pedro Santos da CONSULAI, Ricardo Santos Lopes da Capgemini e Vítor Rodrigues da Magic Beans, defenderam que a IA será determinante para aumentar competitividade, eficiência e sustentabilidade na fileira do azeite.
Desde a otimização da rega à previsão de colheitas, passando pelo controlo de pragas e pela eficiência dos lagares, a IA surge como uma ferramenta capaz de transformar grandes volumes de dados em conhecimento acionável para decisões mais rápidas e informadas.
Os especialistas sublinharam que a próxima etapa será a chamada IA física, com aplicações em robotização, sistemas autónomos e humanoides no terreno.
No entanto, alertaram para desafios críticos como a cibersegurança, a fiabilidade dos dados e a dificuldade de escalar projetos-piloto para operações reais.
A recomendação aos produtores foi clara: começar já, identificando prioridades concretas, investindo em formação e escolhendo parceiros especializados para integrar a IA nos seus processos.
Diferenciação e storytelling são decisivos para criar valor
No painel dedicado aos Casos de Sucesso na Valorização através da Diferenciação, Carlos Mendes Gonçalves da Casa Mendes Gonçalves; João Paulo Magalhães da Ventozelo; José Duarte da Cooperativa Agrícola de Moura e Barrancos/ CAP; de Mariana Carmona e Costa da Casa Agrícola HMR; de Rita Rivotti da Rita Rivotti Design Studio e de Sérgio Nicolau da Vinha Viva, defenderam que o futuro do azeite português depende da capacidade de transformar um produto tradicional num ativo de marca global. O debate foi moderado por Paulo Salvador.
Inspirando-se no percurso do setor vitivinícola, os participantes destacaram a importância do posicionamento, do design, da inovação de produto e da comunicação estratégica.
Foi sublinhada a necessidade de reforçar a valorização do azeite embalado, apoiar a internacionalização das marcas, sobretudo das pequenas e médias produções, e construir uma narrativa coletiva forte para o azeite português.
O storytelling foi apontado como ferramenta central de valorização, desde o rótulo até à experiência global associada à marca, influenciando não apenas a perceção do consumidor, mas também o valor económico do produto.
Álvaro Beleza: “Portugal precisa de pensar estrategicamente o seu futuro”
A keynote de encerramento esteve a cargo de Álvaro Beleza, Presidente da SEDES, que apresentou uma reflexão alargada sobre o posicionamento do país sob o tema “Portugal: porto de abrigo da Europa”.
Na sua intervenção, aquele orador destacou a fileira do azeite como exemplo de sucesso e transformação, sublinhando que a qualidade é um fator decisivo de criação de valor económico e reputacional.
Defendeu igualmente que os agricultores desempenham um papel essencial como guardiões do território e da sustentabilidade ambiental, particularmente num contexto de crescente desequilíbrio entre litoral e interior.
Numa perspetiva mais ampla, alertou para a necessidade urgente de reformas estruturais nas áreas fiscal, da justiça e do mercado de trabalho, bem como para a importância da imigração como resposta ao declínio demográfico e suporte à economia nacional.
A mensagem final foi inequívoca: Portugal precisa de mais visão estratégica, maior ambição económica e capacidade de transformar oportunidades em progresso sustentável.
Congresso Nacional do Azeite do CEPAAL: um espaço privilegiado para pensar o futuro da fileira do azeite
A sessão de encerramento do 9.º Congresso Nacional do Azeite esteve a cargo de Álvaro Mendonça e Moura, Presidente da CAP – Confederação dos Agricultores de Portugal, e de Ricardo Pinheiro, Presidente da CCDR Alentejo.
O Congresso voltou a afirmar-se como um espaço privilegiado para pensar o futuro da fileira do azeite, num momento em que Portugal consolida a sua posição entre os principais produtores mundiais e enfrenta decisões estratégicas determinantes para garantir crescimento, diferenciação e sustentabilidade.
Fonte: CEPAAL













































