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resina

Modernização da resinagem com incisão circular mecanizada

por Florestas.pt
12-05-2026 | 09:55
em Produção e conservação, Últimas, Notícias florestas, Blogs
Tempo De Leitura: 8 mins
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Obter resina sem impurezas, melhorar a eficiência das operações e reduzir o esforço físico que os métodos tradicionais exigem aos resineiros são objetivos assegurados pelo novo método mecanizado de incisão circular para recolha de resina em saco fechado. Este é mais um passo na modernização de uma atividade florestal que precisa de ser revitalizada.

Desde 1857 que os resineiros percorrem os pinhais para recolher resina em árvores vivas em Portugal e, embora as técnicas de resinagem se tenham aperfeiçoado, a profissão continua a ser fisicamente exigente e maioritariamente dependente de processos manuais, que se mantêm semelhantes há mais de um século. A modernização da resinagem é essencial para atrair novos profissionais e para tornar a atividade mais produtiva e compensadora, apoiando uma fileira promissora em Portugal.

Na sequência de novas técnicas testadas pelo Projeto Integrado Resina Natural 21 (RN21), foi dado um novo passo neste processo de modernização da resinagem, com a aprovação, em abril de 2026, de uma norma que permite fazer uma incisão circular no tronco dos pinheiros (em vez da ferida vertical), com recurso a um berbequim com uma broca circular específica, e recolher a resina num saco fechado.

A nova técnica respeita os requisitos técnicos e legais do diploma que regula a atividade de resinagem em Portugal (Decreto-Lei n.º 181/2015, de 28 de agosto), assim como a saúde das árvores, e possibilita a recolha de uma resina mais pura, evitando a contaminação por impurezas que antes caíam nos recipientes abertos (folhas, carumas e água, por exemplo). Em simultâneo, permite reduzir o esforço físico dos resineiros, um fator que 46% dos profissionais consideraram poder melhorar a sua atividade, num inquérito realizado pelo projeto SustForest Plus, em 2021.

O mesmo inquérito identificou que as preocupações dominantes dos resineiros quanto ao futuro da sua atividade estavam, então, relacionadas com a falta de mão de obra que desse continuidade à profissão, com a elevada frequência dos incêndios e com o risco de que o preço pago pela resina não compensasse os custos envolvidos na sua recolha. Espera-se que a maior eficácia proporcionada pelo novo método mecanizado de incisão circular (identificado como RMC) e a pureza da resina recolhida possam contribuir para responder a esta última inquietação, proporcionando aos resineiros um retorno mais compensador.

Como funciona o novo método RMC?

Com esta modernização da resinagem, o esforço físico despendido na realização das feridas reduz-se, mas as etapas tradicionais do trabalho não se alteram significativamente. Neste sentido, com o método mecanizado de incisão circular estão previstos os seguintes passos:

  • Descarrasque: remover a porção superior da casca, com descarrascadeira ou cabeça de corte mecanizada, para preparar a zona de incisão. Esta operação poderá não ser necessária com o novo método se a casca for pouco espessa.
  • Riscagem: delimitar, com o riscador, a faixa onde se vai fazer a incisão: uma faixa de 12 ou 11 centímetros, consoante o pinheiro se encontre nos primeiros três anos de exploração ou do quarto ano em diante. Os resineiros mais experientes nem sempre necessitam de recorrer ao riscador.
  • Incisão: perfurar a casca, com o berbequim e a broca adaptada, até atingir o lenho. A incisão inicial (primeira, no início da exploração) deve ser feita a uma altura não superior a 20 centímetros do solo. As seguintes (renovas) serão feitas em sentido ascendente, na mesma fileira ou em ziguezague.
  • Aplicação da pasta estimulante, com o frasco aplicador, em todo o perímetro da incisão.
  • Colocação do saco, pressionando o bocal do saco na incisão, para que fique encaixado, de modo que a resina seja encaminhada para o seu interior.
    Recolha do saco: quando estiver cheio, retira-se e coloca-se a tampa

Como a resina se mantém protegida dentro do saco e deixa de estar exposta ao ar, evitando a cristalização, serão provavelmente necessárias passagens menos frequentes em cada árvore para a recolher. Também por esta via, a produtividade dos resineiros pode melhorar.

Prosseguir na modernização da resinagem e revitalização da fileira

Em meados do século XX, Portugal era um dos principais produtores de resina do mundo, mas desde os anos 1980-90 que perdeu competitividade. Com a entrada de novos players no mercado global – como a China, a Indonésia e o Brasil – e depois de várias décadas de êxodo rural, o número de resineiros caiu a pique, a quantidade de resina recolhida reduziu-se e desfizeram-se a maioria das estruturas e indústrias que sustentavam a fileira.

Mais recentemente, a procura crescente por soluções naturais e renováveis, que contribuam para reduzir o uso de materiais de origem fóssil, voltou a evidenciar o potencial da resina natural e têm sido feitos novos esforços de modernização da resinagem.

Em 2013, a fileira voltou a ter uma Associação de Destiladores e Exploradores de Resina, a Resipinus. Esta organização, juntamente com outras entidades, como o Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF), o Instituto de Inovação Agrária e Veterinária (INIAV) e o ForestWise, tem promovido e integrado projetos técnico-científicos que procuram valorizar os resineiros e revitalizar a cadeia de valor da resina, nas suas várias etapas.

Alguns dos passos já concluídos, ou em curso, neste percurso de modernização da resinagem têm beneficiado de financiamento do Programa de Recuperação e Resiliência (PRR) e, entre eles, salientam-se vários desenvolvimentos promovidos pelo projeto RN21 e pela Resipinus:

– Identificação de novas técnicas de resinagem mais produtivas e menos desgastantes para os profissionais, como este novo método mecanizado de incisão circular, para recolha em saco fechado;

– Capacitação dos resineiros. Em 2025, foi criada uma escola de resinagem – a Academia do Resineiro, em Tresminas, no concelho de Vila Pouca de Aguiar – que promove a formação e qualificação nesta área específica e noutras que contribuem para a profissionalização do sector florestal. No âmbito da Academia do Resineiro, a Resipinus está a promover workshops sobre as novas técnicas de modernização da resinagem em vários locais do país, ao longo de 2026.

– Valorização dos resineiros pelas externalidades positivas geradas pela sua atividade, atribuindo-lhes equipamentos e pagamento adicional pela vigilância, deteção de incêndios e limpeza florestal nas áreas que resinam e zonas adjacentes. Neste contexto, foi lançado em 2019 o programa “Resineiros Vigilantes”.

– Seleção de pinheiros com melhor desempenho genético para a extração de resina, promovendo maior rentabilidade;

– Desenvolvimento de novos materiais, como adesivos e biopolímeros, por exemplo, promissores em novas aplicações para sectores como o têxtil, o calçado, as embalagens e o automóvel.

Indexar os preços que os resineiros pagam (por cada incisão) aos donos dos pinhais ao valor da resina que recolhem é igualmente uma solução em teste. Segundo Marco Ribeiro, Presidente da Resipinus, o pagamento de um percentual sobre o valor obtido (em vez de um valor fixo) já começa a ser aplicado, tornando mais justa esta renda e levando proprietários e resineiros a partilhar riscos e retornos. Amélia Palma, do projeto SustForest Plus, indica que, antes desta modalidade ser aplicada, o valor médio do aluguer dos pinheiros podia atingir um euro por ferida nas regiões mais fáceis de explorar, que têm tradicionalmente boa produção por árvore. O valor médio em Portugal era, em 2021, de 56 cêntimos.

Estas medidas poderão apoiar a competitividade da resina portuguesa, mas sendo recentes, é natural que os seus efeitos ainda não se façam sentir. Adicionalmente esta fileira tem sido particularmente penalizada pelos efeitos das alterações climáticas – pelos incêndios que têm reduzido a área de pinhal e, mais recentemente, pelas tempestades que arrasaram a floresta no principal território resineiro nacional – o centro de Portugal.

Estima-se que cerca de 2500 hectares de floresta tenham sido destruídos pelas tempestades do inverno de 2026, com cerca de 750 mil bicas (incisões de recolha de resina) comprometidas. Neste sentido, Marco Ribeiro tem vindo a apelar aos proprietários florestais que disponibilizem áreas de pinheiro não afetadas, para que os resineiros que ficaram sem modo de subsistência possam recomeçar.

Considerando estas condicionantes e a realidade do mercado global, a competitividade portuguesa permanece baixa em 2026 e o esforço de modernização da resinagem necessita de prosseguir para reforçar a eficácia e produtividade deste sector. Eis o seu retrato:

– A resina recolhida é insuficiente para as necessidades da indústria, uma realidade comum a vários países do sul europeu (os únicos com condições para a produção de resina na Europa). A resina nacional abastece apenas 10% das necessidades da indústria portuguesa de primeira transformação, indicou Marco Ribeiro, Presidente da Resipinus, referindo também que a indústria de segunda transformação consome anualmente 60 mil toneladas de colofónia ou pez (um dos dois derivados da destilação da resina, sendo o outro a essência de terebintina ou aguarrás).

– Existem em Portugal 16 fábricas: metade de primeira transformação, que destilam a resina em colofónia e essência de terebentina, e a outra metade dedicada à segunda transformação, sobretudo indústrias químicas que produzem óleos essenciais, fragrâncias, aromas, solventes, colas, tintas, vernizes, adesivos, ceras e outros materiais procurados por diferentes sectores industriais, desde a impressão à construção e à cosmética. São mais empresas do que há duas décadas, embora muito menos do que nos anos 1970, em que existiam mais de 60 fábricas registadas só na destilação da resina.

– A quantidade de resina recolhida tem-se mantido baixa em Portugal, nos últimos anos, de acordo com o Instituto Nacional de Estatística (INE): depois de ter aumentado para cerca de 7-8 mil toneladas entre 2014 e 2017, tem vindo a descer desde 2018. Em 2024 foram registadas 4,4 mil toneladas. Como termo de comparação, o máximo histórico da produção anual de resina foi de 140 mil toneladas, na década de 1970.

– Os preços da resina portuguesa não compensam os da resina importada. Na última década, o valor mais elevado por quilograma de resina nacional foi de 1,52 euros, em 2022, mas reduziu-se para 1,35 e 1,26 euros em 2023 e 2024, respetivamente, embora o aumento dos preços (inflação média) tenha sido de 4,3% e 2,4% nesses mesmos anos.

– A incerteza sobre o valor que vão obter pela resina recolhida (o preço é normalmente definido pela indústria compradora, sem grande margem de negociação de parte a parte), os impostos que têm de pagar, os custos de deslocações, o esforço físico e o risco de exposição a incêndios têm contribuído para a redução e o envelhecimento do efetivo de resineiros em Portugal:

A Resipinus estima que existam cerca de 400 profissionais, um número muito distante dos 10 mil que resinavam os pinhais na década de 1960, segundo o artigo “Resinagem em Portugal – Situação Atual e Perspetivas”.

Em 2021, o projeto SustForest Plus indicava que a idade média deste coletivo era de 56,4 anos.

O artigo foi publicado originalmente em Florestas.pt.

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