A necessidade de reforçar a monitorização do rio Sorraia, de limitar a presença de plásticos e de preparar o território para episódios de cheia mais intensos marcou as 1.ªs Jornadas TRAP – Reimaginar o Rio: as Cheias do Sorraia e os Caminhos do Plástico, realizadas ontem em Coruche.
O debate teve como pano de fundo um cenário climático paradoxal: menos precipitação anual no futuro, mas maior probabilidade de chuvas intensas em curtos períodos.
Segundo Jorge Ponte, da Divisão de Previsão Meteorológica e Vigilância do Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA), as projeções apontam para uma diminuição de 30% a 40% na precipitação até ao final do século.
No entanto, o aquecimento do ar, que já se situa entre 1 e 2ºC acima da média histórica, aumenta a capacidade de retenção de vapor de água na atmosfera, o que favorece episódios de chuva mais intensa e agrava o risco de ocorrência e a dimensão das cheias.
Foi neste contexto que comunidade, organismos públicos, investigadores e decisores se reuniram para refletir sobre os desafios do rio Sorraia, no âmbito do projeto europeu TRAP – Libertando os Nossos Rios de Plásticos, que tem em Coruche o seu local-piloto em Portugal.
Para Manuela Saramago, Chefe da Divisão de Avaliação das Disponibilidades da Água da Agência Portuguesa do Ambiente (APA), “não se gere aquilo que não se conhece”. A responsável destacou o défice de monitorização hidrométrica do Sorraia, que nunca deixou de ser monitorizado mas não em contínuo no tempo nem de forma abrangente no espaço e defendeu a necessidade de o colmatar para garantir medições rigorosas e um sistema eficaz de alerta.
Manuela Saramago apelou ainda à colaboração da autarquia e da Administração da Região Hidrográfica do Tejo e Oeste e da população para identificar um local adequado para a instalação de uma nova estação hidrométrica e assegurar a vigilância necessária para prevenir a vandalização frequente destes equipamentos.
Os investigadores do projeto TRAP têm vindo a fazer apelo semelhante, para conseguirem os dados que permitam desenvolver um gémeo digital do rio e, com ele, oferecer uma ferramenta de previsão do comportamento do Sorraia, o maior rio português sem monitorização ao longo de todo o seu percurso.
José Núncio, diretor delegado da Associação de Regantes e Beneficiários do Vale do Sorraia, salientou que dois terços da bacia hidrográfica do Sorraia não estão monitorizados. Defendeu a criação de uma rede de dados acerca do rio facilmente acessível a todos os interessados, para melhor tomada de decisão, e o envolvimento da população na prevenção do vandalismo.
Carlos Castro, da Administração da Região Hidrográfica do Tejo e Oeste, sublinhou a importância de um correto planeamento do território, com espaço para o rio e sem construções em leito de cheia, bem como a criação de áreas urbanas permeáveis e zonas verdes que permitam o espraiamento das águas. A preservação das galerias ripícolas foi igualmente apontada como medida essencial para reduzir os impactos das cheias que, inevitavelmente, afetam a região do Sorraia.
Nas imagens históricas partilhadas por Aníbal Mendes, do Museu Municipal de Coruche, pôde ver-se o sucessivo avançar da ocupação humana na zona do Sorraia e os cíclicos desafios que tal representou para as populações – mas também convívio, encontro e a ligação próxima e contínua da comunidade ao seu rio.
Luís Fonseca, coordenador da Protecção Civil Municipal de Coruche, apelou à preparação pelos cidadãos de kits de emergência para 72 horas como medida essencial para enfrentar as cheias.
As cheias foram também abordadas como uma oportunidade para compreender melhor o rio e os impactos da atividade humana. Para Filipa Daniel, da Ecolezíria, estes episódios revelam consequências anteriormente invisíveis, nomeadamente a presença de plásticos nos cursos de água.
As várias décadas de atividades no rio Sorraia pela Búzios, Associação de Nadadores Salvadores de Coruche, permitiram a Alexandre Tadeia testemunhar a diversidade de resíduos plásticos que nele se encontram, destes garrafas, copos e embalagens domésticas até embalagens de produtos agrícolas, fitas de rega e redes de pesca ilegais.
Rosa Lopes, Chefe da Direção de Ambiente e Energia da Câmara Municipal de Coruche, focou a importância do Sorraia para a comunidade, tanto nas atividades de lazer como nas económicas, bem como os serviços que presta ao ecossistema, enquanto regulador térmico e suporte à biodiversidade. Salientou ainda a importância da consciencialização de todos os agentes para um uso sustentável do rio.
Perante os desafios colocados pelas alterações climáticas e pela poluição, o encontro destacou a importância da colaboração entre entidades públicas, investigadores, organizações da sociedade civil e populações, enquanto agentes de mudança e parte da solução. Como sublinhou Nuno Azevedo, presidente da Câmara Municipal de Coruche, “cuidar do Sorraia é cuidar do futuro de Coruche”.
Fonte: Projeto TRAP














































