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CELPA

Floresta Global aborda formas diferentes de gerir a floresta e o território nacional

por Biond
20-09-2018 | 15:51
em Comunicados, Notícias florestas, Florestas, Dossiers
Tempo De Leitura: 11 mins
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A CELPA – Associação da Indústria Papeleira participou em mais uma edição da Agroglobal nos passados dias 5, 6 e 7 de Setembro.

Além da presença de um stand, que foi visitado pelo Primeiro Ministro António Costa, pelo ministro da Agricultura Capoulas Santos, o secretário de Estado da Agricultura Luís Medeiros Vieira e ainda pela líder do CDS Assunção Cristas, a CELPA organizou dois eventos: uma conferência de balanço do Projecto Melhor Eucalipto, no dia 5 de Setembro e o seminário Floresta Global, em parceria com a UNAC – União da Floresta Mediterrânica, no dia 7 de Setembro.

“Nesta feira de grandes culturas, cabe seguramente a maior cultura deste País”, afirmou Carlos Vieira, director geral da CELPA – Associação da Indústria Papeleira na abertura do seminário de dia 7. O primeiro painel, que contou com as apresentações de Joana Paulo, do ISA – Instituto Superior de Agronomia, José Rafael, The Navigator Company, Henk Feith, da Altri Florestal e Paulo Américo, da Amorim Florestal, tinha como principal tema “Novas técnicas e Modelos de Gestão Florestal”.

Joana Amaral Paulo, investigadora da linha de investigação Forchange do Centro de Estudos Florestais do Instituto Superior de Agronomia, fez uma apresentação intitulada “Investigação e transferência de conhecimento para a promoção de modelos de gestão agroflorestais sustentáveis”. A apresentação incluiu resultados da tese de Doutoramento em curso de Josep Crous Duran. A principal evidência é que os sistemas agroflorestais, onde se misturam espécies florestais com culturas agrícolas e/ou atividade pecuária, apresentam um melhor desempenho económico e ambiental quando comparados com monoculturas florestais ou agrícolas: “Uma combinação adequada de árvores com culturas agrícolas e/ou animais numa área de 1 hectare de sistema agroflorestal permite obter um rendimento que na situação de monocultura seria obtido em 1,12 hectares. Um resultado que se deve ao aumento da eficiência no uso dos recursos naturais (solo, luz, água e nutrientes). Estes sistemas contribuem ainda para a redução das taxas de erosão do solo, lixiviação de nitratos e para o aumento do sequestro de carbono”, afirma.

Joana Paulo, ISA

Membros do comité executivo da European Agroforestry Federation, entidade que promove o conhecimento das potencialidades de novos sistemas agroflorestais no contexto de um desenvolvimento rural sustentável, Joana Paulo e Josep Crous Duran são delegado e sub-delegado nacionais por Portugal.

Henk Feith, da Altri Florestal, apresentou “Mudanças nas operações florestais”, concretamente três: a possibilidade de abate com máquina Feller, equipamento que no passado já operou em Portugal mas que entrou em desuso, estando agora a ser recuperado por questões relacionadas com mão de obra e por questões de segurança; o aproveitamento dos cepos de eucalipto em projetos de reflorestação para biomassa ou mesmo produção de papel; e, finalmente, a máquina de plantar árvores.

Henk Feith, Altri Florestal

A Altri comparou a capacidade da máquina Feller em relação ao abate manual e ao abate com Harvester e concluiu que a Feller oferece um conjunto de vantagens face aos outros modelos de exploração testados, nomeadamente ao nível de produtividade. A produtividade desta máquina equivale à de 4 motosserristas e aumenta a produtividade do processamento das árvores em 22%. Mas não só. Também há melhoria significativa de condições de trabalho: mais segurança e conforto.

No que concerne ao aproveitamento de cepos de eucalipto, que representam, em Portugal, entre 20 a 60 toneladas de material lenhoso por hectare, Henk Feith considera que pode ser usado para produção de energia (biomassa) ou para produção de pasta celulósica, apresentando diversas vantagens para proprietários/produtores, indústria, prestadores de serviço e sociedade em geral.

Sobre a máquina de plantar árvores, o responsável da Altri Florestal contou que, na sequência dos grandes incêndios de 2016/17  e da cada vez maior falta de mão-de-obra florestal, a Altri adquiriu uma cabeça de máquina (Risutec SKB-180), que será experimentada em várias circunstâncias, sobretudo em operações de adensamentos de áreas ardidas onde a rebentação das toiças é deficiente, em parceria com a empresa SilvoKoala. O objectivo é que esta máquina possa plantar árvores (não só eucaliptos), tal como já é feito em outros locais do mundo: veja aqui.

A terceira apresentação esteve a cargo de José Rafael, da The Navigator Company, que trouxe à Agroglobal o tema “Silvopastorícia – um modelo de gestão de combustíveis”, que a The Navigator Company está a desenvolver com o apoio de Mário de Carvalho, da Universidade de Évora – ICAAM.

José Rafael, Navigator Forest

No ensaio apresentado, que decorreu numa propriedade da The Navigator Company na charneca ribatejana (Ulme, Chamusca), testaram-se três tratamentos: prado natural (testemunha), com gradagem de 3 em 3 anos; prado natural fertilizado, com gradagem e adubação à base de fósforo e com calagem para correção da acidez; e prado fertilizado e semeado. Foram utilizadas vacas para pastoreio nas três áreas.

Nesta região existem extensas áreas com baixa densidade de árvores e com muito mato, tendo por isso baixo rendimento e elevado risco de incêndio. Este facto deve-se aos solos aí predominantes, geralmente ácidos e de baixa fertilidade (com particular destaque para o fósforo), que limitam quer o crescimento agro-florestal, quer a pastagem. Em consequência, verifica-se uma elevada tendência para o abandono da terra e a invasão de matos. Quando se tenta desenvolver a pecuária só são possíveis encabeçamentos muito baixos, com necessidade ao recurso a alimentos conservados, o que torna o sistema insustentável do ponto de vista económico.

Uma das conclusões defendidas por José Rafael e Mário de Carvalho é que o controlo do mato feito exclusivamente com meios mecânicos (gradagem) é insuficiente, porque o mato, cortado inicialmente, acaba por desenvolver-se de forma gradual, invadindo toda a área. Esta opção despesa, além de não se rentabilizar a produção animal.

Já a produção de pastagem com a melhoria da fertilidade do solo, que permitiu gerar alimento a custo muito baixo, reduziu significativamente a perigosidade de incêndio quando a área é devidamente pastoreada.

No caso da pastagem semeada, concluiu-se que é necessário prolongar o período de pastoreio, de forma a garantir a continuidade do “banco de sementes” e garantir a produção futura. O risco de incêndio neste tratamento é elevado até meados do Verão.

Respondendo às perguntas do público, José Rafael reconheceu que neste tipo de gestão podem ser utilizados outros animais, privilegiando sempre a utilização das raças autóctones.

Sobre o projeto de “cabras sapadoras”, apresentado pelo Governo, José Rafael sugere que deverá ser promovida a implementação de projetos para aumento e melhoria das pastagens, de forma a disponibilizar alimento rico em fibra e proteína para os animais do Outono até ao final da Primavera.  Esta seria também uma forma de garantir a sustentabilidade económica do sistema – sendo que no Verão, estas áreas deverão estar limpas de mato, com baixo risco de incêndio.

A quarta e última apresentação do primeiro painel foi feita por Paulo Américo, CEO da Amorim Florestal, que revisitou o projeto de melhoria de produção de cortiça em Portugal.

Numa altura em que há uma forte quebra de produção corticeira e cada vez maior consumo no mundo, a solução é “cuidar do Presente”. Uma das opções é densificar a plantação de sobreiros, o que originará maior quantidade de cortiça. Por outro lado, a Amorim quer também encurtar o tempo de produção, com a instalação de rega. Uma solução que poderá resultar em mais 30% de matéria-prima.

Paulo Américo, Amorim Florestal

A promoção das boas práticas silvícolas do sobreiro e da melhoria da sua genética é outra das estratégias encontradas, à semelhança, aliás, da indústria papeleira. Uma das grandes novidades é a aquisição, pela “primeira vez na sua história”, de terra pela Corticeira Amorim: “Precisamos de terra para mostrar, para investigar, para estudarmos a melhor forma de fazer. E para mostrarmos aos proprietários e produtores como se faz”.

A multicultura é outra das soluções apresentadas por Paulo Américo, que considera ser plausível a partilha de espaço com outras espécies, como eucalipto ou pinheiro.

No segundo painel, sobre Inovação Territorial: Gestão 3.0 a Norte e a Sul, moderado por Ana Suspiro, jornalista do Observador, o tema em cima da mesa foi a reorganização do território.

Ana Suspiro, jornalista do Observador

“Henrique Pereira dos Santos, da MONTIS, foi o orador a abrir o debate, explicando que a MONTIS, ONG da área ambiental, gere terrenos “que ninguém mais quer”. Destacando a importância do pastoreio nas áreas agrícolas e florestais – porque ajudam a controlar os matos e a fertilizar os terrenos – Pereira dos Santos considera que “1/3 do território não tem alternativa económica. Mas estes territórios podem ser gestores de ecossistemas e reguladores do fogo.”

Henrique Pereira dos Santos, Montis

Sobre o fogo, que “trouxe a gestão territorial e florestal para a ordem do dia”, como reconheceu Ana Suspiro, Henrique Pereira dos Santos não tem dúvidas: “O fogo é natural. Mas como não o reconhecemos como natural, não valorizamos a gestão do fogo como um serviço de ecossistema. Temos de contribuir para que arda quando queremos e da forma que queremos. Isto só é possível gerindo combustíveis e gerindo territórios”.”

Em substituição de José Miguel Cardoso Pereira, do ISA, que teve de cancelar a sua presença por motivos de saúde, Henk Feith abordou o tema da conservação da Natureza pela Altri, respondendo a uma pergunta da jornalista do Observador sobre o facto da indústria papeleira, apesar de saber gerir a sua floresta, lucrando com ela, ser quase sempre o centro das críticas. Henk Feith respondeu dizendo que “temos 8 mil hectares de áreas de conservação, 10% da nossa área total, por isso não somos novatos nesta área. A divulgação dos nossos projetos e valores de conservação junto do público em geral tem sido insuficiente e pretendemos melhorar, por exemplo através da Estações de Biodiversidade, que são percursos pedestres implementados em áreas importantes de conservação no nosso património e que estão abertos para o púbico, que poderá saber mais sobre a natureza existente através de painéis explicativos ao longo do percurso”.

Henk Feith considera que a forma de gerir floresta da indústria papeleira devia ser “alargada para mais áreas”. “Há três formas de gerir floresta em Portugal: a tradicional, a intensiva (como é o caso da realizada pela indústria de celulose) e o abandono. A forma tradicional perdeu, ao longo do último século, grande parte da sua área, sobretudo para o abandono. Parte do território abandonado podia ser reconduzida para uma gestão mais intensiva. Não só de eucalipto, mas de outras espécies, como o sobreiro ou pinheiro”.

Rui Igreja, da UNAC, considerou, por seu turno, ser necessária uma forma diferente de gerir território. “Ninguém estava preparado para os incêndios. Desde a década de 90 que andamos a correr atrás do prejuízo”.

Rui Igreja, UNAC

Mais tarde, António Gonçalves Ferreira, presidente da UNAC, faria um apelo aos media: “A informação que passa é que a floresta é um risco para a sociedade. Os jornalistas têm de ouvir todos e não apenas as opiniões radicais que tentam sempre encontrar culpados”. Defendendo uma solução inovadora, nomeadamente ao nível do financiamento e da estrutura fundiária, Gonçalves Ferreira defende que “não se pode ficar agarrado aos mitos do costume”. “Precisamos de uma mensagem informativa mais verdadeira”, defendeu, dirigindo-se também ao secretário de Estado das Florestas, a quem pediu uma “reprogramação do PDR” tendo em conta novos factores como um “território com cada vez menos gente”.

Na sessão de encerramento foi a vez de Miguel Freitas, Secretário de Estado das Florestas e do Desenvolvimento Rural, intervir.

Revelando que todas as semanas há uma reunião entre o Primeiro Ministro e cinco ministros com Tiago Oliveira, coordenador da Estrutura de Missão para a instalação do Sistema de Gestão Integrada de Fogos Rurais para monitorizar as metas a que se propuseram, porque “a floresta é o centro de todas as atenções do Governo”, Miguel Freitas anunciou que as questões da propriedade, do investimento e dos serviços de ecossistema estão a ser trabalhados, assim como os contratos-programa para gestão de 80 mil hectares de baldios.

António Gonçalves Ferreira, presidente da UNAC, e Miguel Freitas, secretário de Estado das Florestas.

Sobre a execução dos programas do PDR para a floresta, Miguel Freitas, reconheceu o atraso na sua execução, mas destacou outros fundos disponíveis para a floresta: o Fundo Florestal Permanente, que passa a receber 50 milhões de euros, face aos 20 milhões anteriores, e o reforço substancial do Fundo Ambiental.

Concretamente para as matas nacionais, Miguel Freitas referiu que em dois anos (2018-19), será realizado um investimento total de 10 milhões de euros.

Miguel Freitas destacou ainda a importância dos sistemas agrosilvopastoris e anunciou que as cabras sapadoras deverão ser alargadas a todo o território no próximo ano.

Uma das outras novidades é a nova lei orgânica do ICNF, assim como a territorialização da sua actividade, que deverá ter mais gente mais próxima do território e dos agentes florestais, com a floresta de produção a ganhar uma divisão própria.

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