Revisão científica alerta para um “fosso de validação” entre a precisão molecular e os efeitos concretos nos alimentos e no consumidor. Para ultrapassar esta lacuna, os investigadores sugerem um novo modelo de validação mais abrangente e centrado na exposição real. A proposta passa por combinar diferentes tipos de dados “ómicos” (como genómica, proteómica e metabolómica), estudar o comportamento dos alimentos após a colheita e acompanhar o seu desempenho já no mercado.
✍️ Carla Amaro / CiB
A edição genética está cada vez mais a ser apontada por inúmeros estudos científicos como uma ferramenta promissora para melhorar a segurança alimentar e a qualidade nutricional dos alimentos. No entanto, o seu impacto no mundo real ainda depende de fatores que vão muito além da precisão ao nível do ADN. Esta é a principal conclusão de uma revisão científica publicada na revista Nature (npj Science of Food), da autoria de Pinar Sekerci Keles e Yusuf Esen
O estudo analisa evidência acumulada sobre a forma como alterações genéticas se traduzem em efeitos concretos ao longo de toda a cadeia alimentar — desde os fenótipos das plantas até à sua interação com a matriz alimentar, os processos de transformação, a ecologia microbiana e, por fim, a exposição alimentar dos consumidores.
Os autores identificam um “fosso de validação” persistente entre os indicadores técnicos utilizados nas fases iniciais do desenvolvimento, como a precisão da edição genética, e os resultados que realmente importam para a segurança alimentar. Ou seja, uma alteração bem-sucedida ao nível molecular não garante, por si só, benefícios mensuráveis no alimento final ou na saúde do consumidor.
Para colmatar esta lacuna, os investigadores propõem um novo modelo de validação, baseado numa abordagem multidimensional e centrada na exposição. Este enquadramento inclui a integração de dados “ómicos” (como genómica, proteómica e metabolómica), a análise do comportamento dos alimentos após a colheita, e ainda a monitorização após a sua entrada no mercado.
Segundo os autores, só com este tipo de abordagem será possível alinhar a inovação em edição genética com melhorias concretas na segurança dos sistemas alimentares e na proteção dos consumidores.
A revisão sublinha, assim, a necessidade de ir além dos critérios laboratoriais tradicionais, defendendo uma avaliação mais abrangente e contínua dos impactos da edição genética ao longo de toda a cadeia alimentar.
Leia o abstract na Nature.
O artigo foi publicado originalmente em CiB – Centro de Informação de Biotecnologia.
















































