O solo, frequentemente descrito como um sistema “invisível”, esteve no centro de todas as atenções no passado dia 23 de abril. O Dia Aberto “Culturas de Cobertura, Biodiversidade e a Vida do Solo” reuniu em Coruche uma rede de investigadores, técnicos e produtores para demonstrar que a saúde da terra é o pilar fundamental para uma agricultura competitiva e sustentável.
A degradação do solo é um processo lento e silencioso, o que dificulta a sua valorização pela sociedade. Cristina Cruz, professora da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, sublinhou durante o evento que o solo é muito mais do que um suporte físico: “É um ecossistema vivo, rico em interações dinâmicas, responsável pela reciclagem de nutrientes e retenção de água”.
Para contrariar o desgaste deste recurso, o evento destacou as culturas de cobertura — plantas semeadas entre as produções principais (como o milho) para proteger a terra. Estas práticas funcionam como uma “esponja” biológica, aumentando a matéria orgânica e permitindo que o solo resista melhor ao stress térmico e à escassez de água.
Um dos momentos altos foi a apresentação da Soil Academy, uma iniciativa nascida em 2024 que inverte o modelo tradicional de ensino. “Em vez de ser centrada na universidade, é focada nos agricultores. É com eles que vamos fazer ciência e encontrar soluções em ambiente real”, explicou Cristina Cruz.
O projeto, que conta com campos piloto em Coruche, na Golegã e no Baixo Mondego, visa reduzir a dependência de fatores externos (como fertilizantes e pesticidas), promovendo a rentabilidade através da regeneração natural.
Na visita aos campos de ensaio da Estação Experimental António Teixeira, os participantes observaram diferentes misturas de sementes adaptadas a objetivos específicos:
- Fixação de Azoto: Misturas à base de leguminosas para nutrir o solo naturalmente.
- Aporte de Carbono: Uso de gramíneas como o triticale para criar massa vegetal e melhorar solos arenosos e ácidos.
- Estruturação: Misturas complexas com até 12 variedades que utilizam diferentes tipos de raízes para “mobilizar” o solo sem necessidade de máquinas pesadas.
João Coimbra, agricultor e um dos dinamizadores da iniciativa, reforçou a viabilidade económica destas práticas: “Quanto mais eu percebo o processo natural a intervir e a reciclar nutrientes, mais dinheiro o agricultor vê no fim do ano”. Segundo o produtor, o modelo de “retirar energia do sistema” (menos mobilização mecânica e menos químicos) é a resposta necessária perante a atual crise energética e os baixos preços pagos pelos alimentos.
O evento foi um exemplo prático do funcionamento do AKIS (Agricultural Knowledge and Innovation System). Maria Custódia Correia, coordenadora da Rede Nacional PAC e do AKIS, destacou a importância da colaboração entre entidades como a ANPROMIS (através do InovMilho), o INIAV, a Consulai, a Palombar e a Câmara Municipal de Coruche.
Esta parceria, que já dura há mais de uma década na estação experimental, tem sido crucial para transformar investigação académica em aplicabilidade prática, garantindo que o conhecimento chega efetivamente a quem gere o território.
O artigo foi publicado originalmente em Rede Rural Nacional.














































