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Agroportal

Brasil passa a contabilizar carbono de produtos florestais madeireiros

por Embrapa
07-03-2023 | 16:48
em Últimas, Internacional, Notícias florestas
Tempo De Leitura: 7 mins
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Um estudo da Embrapa Florestas deu origem ao levantamento inédito de emissões e remoções de carbono de produtos florestais madeireiros (PFM).

Os PFM são definidos como produtos manufaturados após a colheita da madeira.

Uma das conclusões foi a de que produtos com a matéria-prima de florestas plantadas causaram uma remoção de 50,7 milhões de toneladas de CO2 atmosférico, 3,5% do total de emissões do Brasil.

Apesar de pequeno, quando comparado a de outros países, esse valor é deduzido da conta final de emissões brutas, o que é estratégico para o País.
Para o cálculo foram considerados produtos em uso e em locais de eliminação de resíduos sólidos.
Graças ao apelo ambiental, madeiras com tecnologia sustentável começam a ser priorizadas na construção civil.
Um estudo inédito da Embrapa Florestas (PR) começou a mensurar os dados de acúmulo de carbono em produtos florestais madeireiros (PFM), como madeira serrada, painéis de madeira e papel e papelão, bem como resíduos descartados desses materiais. O primeiro levantamento foi elaborado em 2020, utilizando o ano de 2016 como referência, e contabilizou 50,7 milhões de toneladas de CO2 equivalente no País. O número obtido, apesar de ser considerado ainda pequeno, quando comparado a outros países, representa 3,5% do total de emissões de gases de efeito estufa (GEE), e é deduzido da conta final de emissões brutas, o que pode ser cada vez mais estratégico para o Brasil.

Esses dados foram incluídos no Inventário Nacional de GEE enviado à Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (UNFCCC, na sigla em inglês). O relatório, publicado a cada cinco anos, apresenta um panorama sobre a implementação no País da chamada Convenção do Clima e tem como um dos principais componentes a revisão e atualização do Inventário Nacional de Emissões e Remoções Antrópicas de Gases de Efeito Estufa (GEE) não Controlados pelo Protocolo de Montreal.

De acordo com o pesquisador da Embrapa Florestas Luiz Marcelo Rossi, responsável pela coordenação do relatório sobre a remoção dos PFM, a metodologia do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC-2006) estabeleceu modelos, cálculos e dados de referência, como, por exemplo, a densidade de cada madeira considerada e o teor de carbono dos produtos. “A madeira é composta por carbono em cerca de 50%, assim todo PMF, como um móvel, um livro, uma tábua contém carbono que foi retirado da atmosfera pelas árvores. Dessa maneira o carbono permanece armazenado no produto até que inicie a decomposição e consequente emissão e CO2 após o uso. Assim, a produção e uso de PMF é uma forma de aumentar a remoção de CO2 da atmosfera contribuindo para redução dos efeitos das mudanças climáticas”, afirma Rossi. A contribuição dos produtos florestais na remoção de CO2 representa cerca de 13% das emissões brutas do setor Uso da Terra, Mudança do Uso da Terra e Florestas (LULUCF).

Produtos contabilizados

Os dados brutos de produção madeireira são obtidos do banco de dados estatísticos da Agência das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO) e usados nos cálculos do carbono dos produtos florestais. O banco de dados possui informações desde 1961, com atualizações periódicas. “Para o cálculo das estimativas de carbono, considera-se a produção e as perdas de madeira anuais, além do descarte dos produtos em uso e a taxa de decomposição da madeira, a qual emite CO2 para a atmosfera, obtendo-se assim o balanço de carbono desses produtos a cada ano” explica o pesquisador.

Para a estimativa final do estoque de carbono dos produtos florestais madeireiros é considerada a produção de toras que se destina a vários processos industriais, exceto madeira e carvão, já que, pela metodologia do IPCC, essas categorias geram emissão imediata de carbono. “A madeira em tora produzida pelos plantios é transformada em três tipos principais de produtos industriais: produção de papel e papelão, painéis, chapas e laminadose madeira serrada.”, acrescenta Rossi. Os produtos são contabilizados até essa etapa de processamento, apesar de a madeira seguir por outros processos de transformação como, por exemplo, painéis que viram móveis, papéis para confecção de livros e madeira serrada para construção de casas.

Perdas e cálculos

Após serem colhidas, as toras geram resíduos, que são descartados e, portanto, não considerados na conta do carbono estocado, como por exemplo, galhos, pontas, raízes e cascas, além das perdas no processamento industrial da madeira.

Para os cálculos de carbono nos produtos, pela metodologia do IPCC, considera-se o tempo de meia-vida de cada produto, sendo dois anos para os de papel e papelão e 30 anos para a madeira sólida (serrada) e painéis de madeira. A medida de meia-vida significa que ao final daquele tempo, o produto terá somente metade do carbono que possuía no momento da fabricação ou retirada da floresta. Para cada ano decorrido desses produtos, contabiliza-se também a perda natural do carbono que é emitido pela decomposição. E todos esses produtos são adicionados à conta, os novos, os já existentes e os descartados, que ficam em decomposição em aterros e lixões, ou que são reaproveitados/reciclados.

Segundo o guia metodológico do IPPC, as estimativas de carbono em produtos florestais podem ser feitas por três diferentes abordagens (mudança de estoque, fluxo atmosférico e de produção), cabendo a cada país, decidir qual a mais adequada para elaborar seu inventário de emissões. Isso porque cada uma delas é influenciada pelas características de produção, consumo, exportação e importação de produtos florestais de cada país. A abordagem utilizada pelo Brasil para a estimativa da contribuição dos produtos florestais madeireiros é a de fluxo atmosférico, que favorece os grandes países produtores e exportadores de produtos madeireiros.

Acúmulo e emissão

O gráfico acima mostra a contribuição dos produtos florestais madeireiros para o setor de Agricultura, Florestas e Uso do solo (Agriculture, Forests and other Land Use – AFOLU). A remoção de CO2, promovida pelos PFMs aumentou muito com o passar dos anos. De 1990 a 2016 a remoção anual variou de -11 milhões a -50 milhões de toneladas, segundo a abordagem de fluxo atmosférico. O valor negativo retrata justamente que houve remoção de carbono da atmosfera por parte desses produtos.

Construções mais sustentáveis

O aumento do número de produtos florestais madeireiros, além de estratégico para o País no balanço final de emissões, é um fator que está atrelado a políticas mais sustentáveis, que incentivam o uso da madeira. “A madeira é um bem renovável, em substituição a outros materiais, principalmente na construção civil na qual tem dupla função: além de armazenar o carbono nas estruturas de madeira, também substitui o aço e o concreto, produtos com grande emissão de CO2 na produção”, pontua o pesquisador.

A utilização da madeira em construções é uma prática milenar e muito comum na atualidade, sendo utilizada há várias décadas por países como Canadá, Alemanha, Estados Unidos, Chile, e países escandinavos, entre outros de regiões mais frias. No Brasil (São Paulo e Paraná) também já existem construções modernas feitas de madeira, que usam tecnologia sustentável. Atualmente, a busca por materiais mais sustentáveis e de menor impacto ambiental – que reduzem a emissão de resíduos e o consumo de água – tem se tornado uma tendência global, o que coloca a madeira em maior evidência no mercado da construção.

A madeira engenheirada passa por processos industriais que otimizam seu desempenho para uso na construção civil e tem sido usada na composição de prédios com dezenas de andares como, por exemplo, o de 85 metros, localizado na Noruega. Há países, como a França, que deram um passo além, ao tornar obrigatório, a partir de 2022, o uso de materiais naturais, como a madeira, em pelo menos 50% dos edifícios públicos financiados pelo estado. Seu objetivo é continuar a melhorar o desempenho energético e o conforto dos edifícios, reduzindo ao mesmo tempo o impacto de emissão de gases de efeito estufa, durante toda a sua cadeia produtiva.

A tecnologia embutida na madeira engenheirada sendo usada nas construções atuais traz muita inovação, minimizando as vulnerabilidades da madeira comum. O processo construtivo atual oferece materiais em madeira com maior potência, durabilidade, segurança e resistência a insetos.

“Nas últimas décadas, priorizamos o uso de tijolos e cimento na construção, o que levou à diminuição da oferta de madeiras de florestas nativas. Culturalmente, casas de madeira passaram a ser vistas como casas mais simples ou pobres. Essa tendência começa a se reverter com avanços na arquitetura de madeira e no desenvolvimento de novos sistemas construtivos, com peças industriais”, diz Erich Schaitza, chefe-Geral da Embrapa Florestas.

Schaitza enfatiza que cada vez mais o mundo tem acordado para a madeira como material construtivo de qualidade e com emissões menores do que as de outros materiais. “Daqui para frente, vamos ter que pensar em balanços de gases de efeito estufa em todas as nossas atividades e construir casas de madeira de forma sustentável, o que implica manter mais florestas produtivas e armazenar carbono nas estruturas das casas. Estudos como este, que contabilizam o carbono nos produtos florestais madeireiros, evidenciam o lado positivo de se usar madeira”, aponta.

Artigo publicado originalmente em Embrapa.

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