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É possível lutar sem violência?

por Carlos Neves
02-04-2022 | 23:09
em Últimas, Blogs
Tempo De Leitura: 4 mins
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Este texto é baseado na minha experiência no associativismo agrícola, mas partilho-o na expetativa que seja útil noutras lutas cívicas dos meus leitores.

Os custos de produção de leite aumentaram no último ano e o preço do leite ao produtor, na Europa, subiu acompanhando esse aumento. Subiu em todos os países? Não. A sul dos Pirinéus, na Península Ibérica, os produtores de leite de Portugal e Espanha sofrem com os piores preços da Europa.

Face a isto, em Portugal, a Associação de produtores de leite onde sou Secretário-geral, a APROLEP, publicou comunicados, cartas abertas, reuniu com governantes, organizou uma manifestação simbólica com 200 pares de botas no Porto (Fevereiro) e uma enorme manifestação na Trofa (Agosto), interpelou a ministra da Agricultura com seis tratores à Porta da Agros (Setembro), colocou fardos de palha à porta de Hipermercados, levou o Presidente da República a visitar uma vacaria em Maio e manteve os problemas do setor do leite na ordem do dia. Fizemos o máximo “barulho” possível sem violência e sem causar danos ou incómodos à sociedade. Há quem pense de maneira diferente.

Em Espanha, os “sindicatos agrícolas” demoraram a reagir mas nos últimos meses do ano 2021 organizaram intensas manifestações, primeiro junto das superfícies comerciais, depois junto das indústrias que pagam o leite a preço baixo. Manifestações que aumentaram de intensidade ao longo das semanas. No momento em que escrevo estas linhas, a meio de Janeiro, permanece um impasse sobre o futuro preço do leite, mas começam a chegar as “faturas” das ações mais violentas: um agricultor que atirou ovos à porta da sede da indústria Lactalis, em Madrid, recebeu uma multa de 600 euros para pagar. Cinco agricultores que enfrentaram com paus a polícia numa manifestação em Oviedo foram detidos para acusação e o processo seguirá para tribunal. Outras multas semelhantes chegaram… o preço do leite em Espanha subiu um pouco mas segue semelhante ao português, ambos ainda abaixo dos custos de produção que continuam a subir.

Prefiro pecar por excesso de prudência do que por excesso de risco. Ao longo da minha carreira “associativa”, colegas mais experientes avisaram-me sobre o excesso de voluntarismo nas nossas ações. Às vezes a gente vai à frente, entusiasma-se e quando olha para trás está sozinho. Nunca senti verdadeiramente isso, mas sempre procurei ser prudente para não me meter em sarilhos nem arranjar problemas para aqueles que me acompanharam. Gente que tem uma família em casa à espera, animais para cuidar, campos para tratar e não tem tempo para ir a tribunal responder por desacatos.

Comoveu-me a solidariedade manifestada pelos agricultores espanhóis que voluntariamente contribuíram para pagar a multa do colega que atirou ovos. Mas revolta-me que tenhamos que chegar a este ponto. Esta gente que se manifestou em Madrid e noutros pontos da Espanha ou Portugal, por causa do preço do leite, não são arruaceiros ou ativistas defensores da anarquia. Não são trabalhadores analfabetos, desesperados ou embrutecidos por uma vida de miséria. São pequenos e médios empresários, gente que herdou alguma coisa do trabalho dos antepassados e que trabalhou muito para comprar ou alugar mais um terreno, construir um novo estábulo e comprar um trator mais potente ou confortável. Gente que trabalha com a família e dá trabalho a outras famílias, que tem responsabilidades. Gente que, se vendesse tudo o que tem investido no negócio ao preço do mercado, podia ir especular para os mercados financeiros ou investir noutra área mais rentável. Gente que em muitos casos se organizou em cooperativas onde ao longo dos anos tudo comprou e vendeu, deixando em cada um dos sentidos uma margem mais ou menos significativa.

Muito falhou nas nossas cooperativas, nas nossas confederações e na nossa governação quando empresários tem que andar na rua a manifestar-se em desespero. Cada um procure identificar e corrigir as falhas nas suas organizações.

Há um caso na Europa, que é a França, onde as manifestações dos agricultores são “pesadas” e parecem ser toleradas pelas autoridades. Lá também houve os coletes amarelos, há uma escola de manifestações mais fortes. Há mais alguns casos, mas a maioria dos agricultores, na maioria dos países, não anda na rua a manifestar-se com violência.

Na minha opinião, num estado de direito, numa democracia, a violência deve ser reservada às autoridades (à polícia, por exemplo) e só devemos recorrer à violência em situações de legítima defesa ou de desespero total, em último recurso.

Como lutar, como fazer pressão, sem violência?

Podemos comunicar regularmente e claramente, de forma simples e consistente, através das redes sociais e dos meios de comunicação.  Repetir a mensagem para passar, em todas as oportunidades. Devemos ser persistentes como a viúva do Evangelho que reclamou com o juiz iníquo. Abordar os políticos e governantes nacionais e locais. Podemos ser irreverentes e ter iniciativas inovadoras que chamem a atenção. Devemos refletir em conjunto, ouvir outras opiniões e envolver o número máximo de pessoas focado num objetivo comum. A união faz a força. (artigo escrito a 19 de fevereiro para o “mundo rural” de março / abril de 2022) 

O artigo foi publicado originalmente em Carlos Neves Agricultor.

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