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Joaquim Sande

As espécies florestais e o fogo – Joaquim Sande

por ECO
18-11-2019 | 10:25
em Nacional, Últimas
Tempo De Leitura: 4 mins
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Joaquim Sande Silva, professor na Escola Superior Agrária do Instituto Politécnico de Coimbra, fala sobre as espécies florestais e o fogo.

A propósito da polémica em torno do eucalipto, ganhou algum relevo a ideia, diga-se algo perversa, de que as espécies florestais são todas iguais, porque todas têm supostamente igual potencial para arder. Esta ideia, conveniente para alguns grupos de interesse, é a negação de muitas décadas de investigação em torno das características adaptativas das espécies. Todas as espécies são diferentes entre si, a vários níveis, quer na forma como resistem à passagem do fogo, quer nas condições que criam para a sua propagação.

A questão da resiliência das formações florestais ou arbustivas é bastante mais pacifica que a questão da combustibilidade dessas formações, ou seja, da facilidade com que são percorridas pelo fogo. Na verdade, os estudos sobre mortalidade associada à passagem do fogo são bastante conclusivos, permitindo inclusivamente a produção de modelos em que entram como variáveis explicativas quer as características da árvore quer as condições onde vegeta quer ainda o próprio comportamento do fogo. Uma das espécies mais estudadas nos últimos anos tem sido o sobreiro, devido à sua extraordinária resistência ao impacto térmico causado pela passagem do fogo. Sabe-se por exemplo que a taxa de mortalidade aumenta com a altura do chamuscado no tronco ou na copa e com a idade da árvore, e que diminui com a espessura da cortiça e em exposições norte. Já no que toca às resinosas a taxa de mortalidade é bastante mais elevada que a das folhosas, variando inversamente com a altura da base da copa e com o diâmetro da árvore.

Já as questões sobre a combustibilidade das formações arbóreas estão menos bem esclarecidas pela ciência, na medida em que não é tão fácil produzir modelos com poder preditivo, devido à multiplicidade de fatores a ter em conta. Um dos aspetos críticos com particular relevo no nosso país, devido ao caráter marcadamente artificial das nossas florestas, prende-se com o tipo de estrutura de combustíveis associado a cada espécie. Por exemplo um eucaliptal, a floresta mais comum em Portugal, é, na sua fase adulta, tipicamente composto por árvores de fuste alto, com copas a grande distância do solo e com um espaçamento padronizado. Os combustíveis de superfície, determinantes para o comportamento do fogo, dependem da gestão praticada, da fase de desenvolvimento do povoamento e da estação onde se encontra o povoamento.

Em plantações geridas de forma intensiva a suscetibilidade ao fogo é relativamente baixa. No entanto, devido à massificação do uso do eucalipto existe atualmente toda uma gradação de situações que vão das plantações clonais em que os combustíveis são periodicamente incorporados no solo através de gradagens, até aos povoamentos jardinados provenientes de regeneração natural, frequentemente resultado de fogos passados e de abandono das parcelas. A diferença de combustibilidade entre um extremo e outro é obviamente muito grande. Há então a tentação de concluir que tudo se deve exclusivamente à gestão que é praticada. Este argumento colhe também no exemplo dos montados, soutos e pinhais mansos, todos estes sistemas de caráter mais ou menos marcadamente agroflorestal.

Neste tipo de sistemas, há tipicamente uma baixa carga de combustíveis no subcoberto, o que dificulta a propagação do fogo, comparativamente a sistemas onde a gestão do subcoberto não é tão frequente. Mas será que tudo se resume a um problema de gestão? A ciência diz-nos que não. Por exemplo, são muitos os trabalhos que mostram que em regiões de florestas naturais não geridas, as florestas de folhosas caducifólias são normalmente menos percorridas pelo fogo que as florestas de resinosas. Mesmo no nosso país são já vários os estudos que apontam para esta mesma tendência. Pegando num exemplo bem ilustrativo deste princípio, temos o caso da Mata da Margaraça, composta essencialmente por árvores folhosas, que escapou quase incólume aos incêndios de 15 de outubro de 2017, contrastando com toda a paisagem em redor. No entanto para além desta dicotomia resinosas-folhosas, há muitas outras diferenças na facilitação da propagação do fogo, que resultam estritamente da natureza das espécies, mas que carecem ainda de estudos mais aprofundados.

Uma coisa é certa, resumir a questão da combustibilidade da floresta apenas a uma questão de mais um menos gestão é uma tremenda simplificação da realidade e uma forma muito enviesada de olhar para o problema. As espécies são todas diferentes e propagam o fogo de forma diferente. Esta é uma questão muito importante a ter em conta relativamente ao fomento das espécies florestais, mais que não seja porque convém assumirmos de uma vez por todas que o território e as florestas nunca poderão ser todas geridas. Isso não acontece em país nenhum do Planeta e não irá seguramente acontecer em Portugal.


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