Vídeos captados em Agosto em Ourém, Ferreira do Zêzere e Batalha mostram um trabalhador a golpear coelhos contra o chão, coelhos vivos e mortos nas fossas de dejectos e cadáveres de galinhas em avançado estado de decomposição dentro de gaiolas com aves vivas. Veterinário, advogado e médica pedem inspecção urgente. Mais de 28.000 pessoas já pediram um Portugal sem gaiolas.
Um trabalhador agarra num coelho e bate com ele contra o chão. Depois atira-o para uma arca, onde estão outros coelhos, alguns aparentando ainda sinais de vida. A cena foi filmada em Agosto de 2026 numa exploração de coelhos em gaiolas em Atouguia, concelho de Ourém, e faz parte de um conjunto de vídeos e fotografias de três explorações portuguesas que chegou à Frente Animal por denúncia anónima. A fonte pediu anonimato.
Nas mesmas imagens vêem-se coelhos caídos das gaiolas para as fossas de dejectos, vivos e mortos, coelhos mortos no chão, um deles com insectos sobre o corpo, e o cadáver de um coelho a decompor-se dentro de uma gaiola onde continuam animais vivos. Vários coelhos têm feridas, crostas e pelo empastado, lesões que o médico veterinário que analisou o material considera compatíveis com doença e que, diz, exigem “exame veterinário prioritário”.
Galinhas reduzidas a restos, ao lado de aves vivas
Na exploração da Zêzerovo, em Ferreira do Zêzere, empresa que se apresenta como uma das maiores produtoras de ovos do país, com capacidade para cerca de dois milhões de galinhas, as imagens mostram galinhas mortas dentro das gaiolas, junto de aves vivas. Segundo o parecer jurídico, há cadáveres “em avançado estado de decomposição”, em alguns casos reduzidos a partes do corpo, o que pode indicar que ali ficaram durante muito tempo. O mesmo parecer descreve “roedores circulando livremente nas instalações”, ovos partidos e ovos com pequenos organismos vivos à superfície. Na exploração da Clara & Gema, no concelho da Batalha, foram registados ratos vivos e roedores mortos, moscas e dejectos acumulados por baixo das gaiolas.
Três especialistas pedem intervenção urgente
O material foi analisado pelo médico veterinário Nuno Paixão, pelo advogado Diogo Trabulo e pela médica Júlia Ferreira Rebelo. O advogado conclui que há “indícios suficientemente relevantes para questionar a conformidade” das explorações com a lei de protecção animal. A médica alerta que os cadáveres em decomposição, os roedores e as moscas “constituem focos ativos de risco sanitário”, para quem alitrabalha e para quem vive perto.
Sobre o abate, a lei europeia exige que os animais sejam poupados a dor e sofrimento evitáveis, que o método seja aplicado por pessoal competente e que nenhum animal seja manuseado como morto enquanto apresentar sinais de consciência. A Frente Animal pede à DGAV que verifique os métodos de abate usados na exploração de Ourém.
“Um coelho atirado contra o chão e depois para dentro de uma arca. Galinhas a apodrecer ao lado das que ainda estão vivas. Isto não é um acidente isolado. É o dia-a-dia de animais que passam a vida inteira numa gaiola, sem poderem fugir de nada, nem da doença, nem dos dejectos, nem do corpo que ficou ao lado”, afirma Nuno Alvim, porta-voz da Frente Animal.
Portugal, um dos países das gaiolas
O que as imagens mostram não acontece por acaso. Em Portugal, 67,1% das galinhas poedeiras vivem em gaiolas, quase o dobro da média da União Europeia (35,5%), segundo o painel de dados da Comissão Europeia. Uma galinha numa gaiola passa toda a vida produtiva num espaço de rede metálica partilhado com outras aves, sem se poder afastar de um animal doente ou morto. Os coelhos vivem em gaiolas de arame e, na União Europeia, não têm sequer legislação específica de bem-estar.
A ciência europeia já se pronunciou. Em 2023, a Autoridade Europeia para a Segurança dos Alimentos (EFSA) recomendou, para melhorar o bem-estar de frangos e galinhas poedeiras, que se evitem as mutilações, a restrição alimentar e o uso de gaiolas. Em 2020, concluiu que o bem-estar dos coelhos adultos é mais baixo em gaiolas convencionais do que nos outros sistemas avaliados. Na Europa, a iniciativa de cidadania “End the Cage Age” reuniu cerca de 1,4 milhões de assinaturas validadas e levou a
Comissão Europeia a comprometer-se, em 2021, a propor a eliminação progressiva das gaiolas. A proposta legislativa continua por apresentar.
Em Portugal, mais de 28.000 pessoas já assinaram o manifesto Portugal Sem Gaiolas, promovido pela Frente Animal, que pede um calendário nacional para o fim da produção de animais em gaiolas.
O que a Frente Animal pede
À DGAV, à Autoridade de Saúde Local e ao SEPNA/GNR, uma inspecção presencial urgente às três explorações, com exame dos animais doentes, verificação dos métodos de abate e recolha de amostras.
Ao Governo e à Assembleia da República, um calendário nacional para a eliminação progressiva das gaiolas na produção de galinhas poedeiras e de coelhos, sem esperar pela legislação europeia. À indústria e à distribuição, compromissos públicos e datados de transição. Aos cidadãos, dois gestos simples: assinar o manifesto em www.portugalsemgaiolas.com e verificar o código impresso nos ovos, em que o algarismo 3 identifica galinhas criadas em gaiolas.
Fonte: Frente Animal














































