“Não partimos todos do mesmo sítio. Há quem tenha terra, capital, apoio familiar, e isso faz toda a diferença.”
A frase é de um jovem agricultor que entrevistei na minha investigação de doutoramento sobre juventude, empreendedorismo e inovação social nos territórios rurais portugueses. Talvez diga mais sobre a renovação geracional na agricultura do que muitos discursos sobre “atrair jovens para o setor”.
A possibilidade de ser jovem agricultor ou agricultora não começa quando se preenche uma candidatura. Começa muito antes: no acesso à terra, no capital disponível, nos conhecimentos adquiridos, na família, nas redes de apoio, no território onde se vive e nas portas que se conseguem abrir. E mesmo ter terra ou apoio familiar não é garantia de sucesso.
Nem todos os jovens partem das mesmas condições. E, entre essas diferenças, o género conta. O género, a par da idade, teve destaque em todas as tipologias de pessoas entrevistadas (ver figura).
Uma das jovens que entrevistei colocou a questão de forma clara: “Ser rapariga, jovem, empreendedora não é a mesma coisa que ser rapaz, jovem, empreendedor.”
Não se trata de opor mulheres e homens. Quem trabalha na agricultura conhece bem as dificuldades comuns: investimento, preços, clima, burocracia, acesso à terra, risco e incerteza. A questão é outra: perante dificuldades semelhantes, todas as pessoas encontram as mesmas condições de reconhecimento, acesso e oportunidade?
A agricultura continua também a ter um problema de representação. Queremos atrair jovens qualificados, promover digitalização, inovação, eficiência no uso da água, agricultura regenerativa e sistemas alimentares mais sustentáveis. Mas continuamos, demasiadas vezes, a comunicar a agricultura através de uma imagem antiga, pouco qualificada e, em muitos contextos, ainda muito masculina.
“Não é um emprego que as pessoas achem que seja o emprego ideal, intelectual, ou o emprego que lhes vai trazer algum tipo de status à sociedade. Acho que se continua a achar que as batatas que chegam ao mercado são tratadas com a enxada.” Estas frases são de uma jovem agricultora que entrevistei, têm alguma ironia e abordam um problema complexo.
Desmistificar a agricultura como uma profissão exclusivamente pesada ou “para homens” não significa negar a sua exigência. Mas será fundamental reconhecer que a agricultura exige conhecimento, inovação, capacidade empresarial, experimentação, tecnologia, gestão de risco e competências transversais muito diversas. E que mulheres e homens têm igualmente capacidade para as desenvolver e mobilizar, embora nem sempre encontrem as mesmas oportunidades para o fazer.
Há ainda um problema comum a todas as pessoas jovens entrevistadas: a dificuldade em navegar entre instituições, apoios, candidaturas e informação dispersa. Uma outra jovem agricultora descreveu-me dúvidas que poderiam ser esclarecidas logo à partida e que sem resposta podem significar “dois ou três meses de confusão”. Para quem está a iniciar uma exploração, a investir, a produzir e a tentar criar rendimento, esse tempo pode ser decisivo.
Talvez por isso uma das conclusões mais importantes seja a necessidade de mediação de proximidade. Isto é, ter alguém a quem recorrer, capaz de explicar, encaminhar, traduzir procedimentos e acompanhar um projeto. Não necessariamente mais uma plataforma, mas acesso à mediação humana, competente e próxima, sobretudo nos territórios de baixa densidade.
Do que ouvi no terreno, destaco quatro prioridades
Primeiro, conhecer melhor quem são os jovens que estão realmente a entrar, a tentar entrar ou a permanecer na atividade agrícola, considerando idade, género, percurso, acesso à terra, condições familiares e o território onde se pretende instalar, em vez de tratar o “jovem agricultor” como um perfil único.
Segundo, reforçar a mediação de proximidade. Uma pessoa jovem não deveria precisar de meses para descobrir quem responde a uma dúvida que poderia ser esclarecida de forma eficaz.
Terceiro, criar e fortalecer redes entre jovens agricultores de diferentes regiões, aproximando experiências, conhecimento e oportunidades, com especial atenção à participação e visibilidade das jovens agricultoras. Importa também criar pontes com jovens de outros setores, porque o futuro da agricultura não se constrói isoladamente das outras atividades e do território onde acontecem.
E quarto, deixar de separar artificialmente agricultura de condições de vida. Habitação, escolas, saúde, mobilidade, conectividade e acesso a uma cidade próxima também pesam na decisão de permanecer. Como me disse outra jovem agricultora, “os jovens dos meios rurais são exatamente iguais aos jovens dos meios urbanos. Querem algumas estruturas, querem bons serviços.”
Atrair jovens para a agricultura sem criar condições para que possam viver plenamente nos territórios não resolverá o problema da renovação geracional.
Talvez devêssemos, por isso, mudar ligeiramente a pergunta. Em vez de perguntar apenas como atrair mais jovens para a agricultura, importa perguntar aos que já lá estão, e aos que pretendem instalar-se, mulheres e homens, o que lhes permite ficar, o que os faz desistir e o que mudariam se fossem efetivamente ouvidos.
Valorizar a resiliência dos jovens agricultores é importante, mas muitas das dificuldades que enfrentam são estruturais e não podem ser ultrapassadas apenas pelo seu esforço individual.
Se queremos renovação geracional na agricultura portuguesa, não basta contar quantos jovens entram no setor ou quantos apoios e estatutos são atribuídos. Precisamos de perceber quem consegue efetivamente estabelecer-se, permanecer e construir o seu futuro na agricultura.
A investigação de doutoramento que desenvolvi leva-me a olhar para a agricultura não apenas nas suas dimensões económica, social e ambiental, mas também enquanto atividade socioecológica, moldada pelas interdependências entre pessoas, territórios, recursos naturais e condições biofísicas, diferentes formas de conhecimento, setores e instituições.
E, para compreender quem consegue realmente construir esse futuro e encontrar condições para permanecer, o género também conta.

Figura: Temas associados à relevância da inovação social para o empreendedorismo rural, identificados nas entrevistas, por grupo de participantes: jovens, professores-investigadores, associações e entidades governamentais. A idade e o género, associados ao perfil de ser jovem, destacam-se nos quatro grupos.
Fonte: Elaboração própria. Investigação financiada por fundos nacionais da FCT – Fundação para a Ciência e Tecnologia ao abrigo da bolsa de doutoramento 2021.06974.BD. https://doi.org/10.54499/2021.06974.BD. A figura corresponde a uma exportação direta do software MAXQDA, utilizado pela autora na análise de conteúdo das entrevistas.
Maria João Horta Parreira
Doutora em Ecologia Humana, Agrónoma, mestre em Comunicação de Ciência















































