Identificar os ovinos que melhor toleram temperaturas elevadas e transformar essa capacidade numa ferramenta de seleção genética é um dos objetivos do projeto europeu SheepHeatIT, que envolve ciência, tecnologia e produção animal.
Porque é que, perante o mesmo episódio de calor extremo, alguns ovinos conseguem manter o seu comportamento e desempenho, enquanto outros sofrem alterações fisiológicas e produtivas mais acentuadas? É a esta questão que o projeto SheepHeatIT – Harnessing Information Technologies for Heat Resilient Sheep Breeding pretende responder, procurando encontrar novas formas de preparar a produção ovina para um clima cada vez mais quente.
As alterações climáticas estão a aumentar a frequência e a intensidade dos períodos de temperaturas elevadas, colocando uma pressão crescente sobre os sistemas pecuários, sobretudo em regiões mediterrânicas. Nos ovinos, o stress térmico pode provocar alterações no comportamento e na fisiologia, levando, entre outros efeitos, à redução do consumo de alimento e a impactos no crescimento, na reprodução, na saúde e na produção.
O SheepHeatIT pretende perceber o que distingue os animais mais tolerantes ao calor. Para isso, serão estudados ovinos de diferentes raças e regiões europeias, combinando informação genética com dados recolhidos diretamente nos animais e no ambiente onde são criados.
Temperatura corporal, frequência respiratória, sudação, consumo de água e comportamento são algumas das características que serão analisadas. Serão igualmente considerados indicadores hormonais e metabólicos, características da lã e informação genética e genómica. A combinação destes dados permitirá procurar sinais que ajudem a explicar a capacidade de determinados animais para enfrentar períodos de calor sem comprometer significativamente o seu funcionamento normal.
Segundo Ana Mira Geraldo, investigadora do Instituto Mediterrâneo para a Agricultura, Ambiente e Desenvolvimento (MED) da Universidade de Évora, o objetivo não é simplesmente encontrar “o animal que aguenta mais calor”, mas identificar animais que consigam combinar tolerância ao calor com saúde, bem-estar, reprodução e produtividade.
Um dos resultados mais relevantes previstos no projeto é o desenvolvimento de um índice genómico de seleção para resistência ao calor. Esta ferramenta poderá, no futuro, permitir incorporar a tolerância às temperaturas elevadas nas decisões de melhoramento genético, à semelhança do que já acontece com características como crescimento, produção ou reprodução.
Na prática, produtores e associações de criadores poderão vir a dispor de informação adicional para selecionar reprodutores e animais de substituição mais preparados para enfrentar condições de calor. O projeto prevê ainda a criação de um Índice de Resistência ao Calor do Rebanho – uma medida usada para indicar o quanto um rebanho ou animal consegue manter o desempenho e a saúde quando exposto a temperaturas elevadas e stress térmico, destinado a apoiar a tomada de decisão ao nível do efetivo, e de uma plataforma digital para armazenar, partilhar e explorar os dados produzidos.
Para os produtores, a expectativa é que animais mais tolerantes ao calor sofram menores alterações fisiológicas e comportamentais durante os períodos quentes e consigam manter de forma mais estável o consumo, o crescimento, a reprodução e a produção. A longo prazo, esta abordagem poderá contribuir para reduzir algumas das perdas associadas ao stress térmico e aumentar a resiliência das explorações.
Mas há ainda questões a responder. Uma das principais passa por perceber quais das diferenças observadas entre animais são realmente consistentes e têm uma componente genética que possa ser transmitida às gerações seguintes. Será também necessário validar os resultados em diferentes raças, países, condições climáticas e sistemas de produção.
A seleção genética será, por isso, uma ferramenta complementar e não uma substituição das medidas de maneio. Água disponível, sombra, alimentação adequada e condições que facilitem a dissipação do calor continuarão a ser fundamentais para proteger os animais.
Ao procurar transformar respostas fisiológicas e comportamentais em informação genética e ferramentas digitais utilizáveis pelo setor, os investigadores pretendem dar um passo no sentido de uma questão cada vez mais importante para a produção animal: como criar hoje animais melhor preparados para o clima de amanhã?
Fonte: Universidade de Évora
















































