Julie Escobar, cofundadora e presidente da Global Women Fresh, explica como esta organização internacional sem fins lucrativos está a capacitar mulheres, a promover a equidade de género e a criar novas oportunidades na indústria agrícola mundial.
Ana Gomes Oliveira
Fundada em 2019 ao lado de Viviane Schappo e Monica Bratuti, a Global Women Fresh nasceu com a missão clara de fechar a lacuna de género no sector dos produtos frescos. Numa indústria onde a presença masculina ainda é dominante nos cargos de liderança, a organização já conecta mais de 3.500 mulheres em todo o mundo através de formação contínua, projectos de impacto social e eventos de networking.
A agricultura e a indústria dos produtos frescos constituem pilares fundamentais da economia e do abastecimento alimentar mundial. No entanto, historicamente, a representatividade feminina nos cargos de tomada de decisão, nos conselhos de administração e nos grandes fóruns internacionais permaneceu aquém da sua contribuição real no campo, na agroindústria e na gestão empresarial.
É precisamente no centro deste desafio que surge a Global Women Fresh (GWF). As fundadoras identificaram a necessidade premente de criar uma rede internacional dedicada à equidade de género e a promover a igualdade de oportunidades no sector hortofrutícola global.
A actuar como uma rede internacional sem fins lucrativos, a missão da Global Women Fresh assenta em três pilares estratégicos fundamentais: capacitação e desenvolvimento profissional, reinvestimento social de impacto, e redes de contactos e visibilidade.
Hoje, reunindo uma comunidade global já bastante extensa e distribuída por diversos continentes, a Global Women Fresh reafirma que a promoção da equidade de género não é apenas uma questão de justiça social, mas também um motor indispensável para a inovação, a sustentabilidade e a resiliência do sector agroalimentar do futuro.
Em entrevista, Julie Escobar, cofundadora e presidente da Global Women Fresh, faz um retrato dos desafios do sector e do papel fundamental que a liderança feminina desempenha no seu futuro.
Para começar, fale-nos da sua experiência e, em traços gerais, da missão principal da Global Women Fresh?
Tenho trabalhado na indústria agrícola há mais de 25 anos, com uma carreira bastante global que passou pelos mercados da América do Norte, América do Sul, Europa e Ásia-Pacífico. Durante esse percurso, participei em inúmeras feiras do sector e era evidente a abundância da presença masculina nas posições de liderança. Em 2019, eu, a Monica Bratuti e a Viviane Schappo, juntámo-nos com a ideia de unir as mulheres e dar-lhes uma plataforma onde pudessem conectar-se e criar redes de networking. Começámos de forma modesta na Fruit Logistica, em Berlim, onde nos cederam um espaço e, logo no primeiro evento, reunimos mais de 150 mulheres líderes. Hoje temos uma comunidade global com mais de 3.500 membros.
Quais são as principais linhas de acção da organização?
Estruturámos o nosso modelo sem fins lucrativos assente em três vertentes fundamentais. A primeira é a aprendizagem e desenvolvimento: trabalhamos com uma coach executiva para oferecer webinars e seminários individuais a mulheres que querem continuar a crescer na carreira. A segunda é o reinvestimento social: afectamos uma percentagem do capital que angariamos a projectos sociais em locais como África, Índia e Peru, sempre sob uma perspectiva de equidade de género. No Peru, por exemplo, concedemos cerca de 25 bolsas a mulheres para formação técnica em gestão de água; em África, em parceria com as Nações Unidas, promovemos formações em competências de gestão, negociação internacional, marketing e finanças. Por fim, a terceira vertente é a criação de espaços próprios de networking, onde as mulheres possam encontrar novas oportunidades e parceiras longe dos ambientes tradicionais exclusivamente masculinos. Actualmente, temos uma presidente para a zona da Europa, a Danitza Sánchez, que no seu trabalho diário é Directora de Desenvolvimento de Negócios na Dole. Contamos também com um conselho de administração eleito anualmente que nos ajuda a expandir a nossa missão. Neste momento, a nossa equipa na Europa está a preparar a participação na Fruit Attraction, em Madrid, onde teremos o nosso próximo evento. Costumam ser encontros muito dinâmicos, com sessões de oradores de 30 a 45 minutos — muitas vezes em parceria com a Fruitnet — seguidos de um momento de convívio e networking.
No seu entender, quais são os maiores desafios que as mulheres enfrentam actualmente na indústria global de produtos frescos?
Denominámos a organização de Global Women Fresh porque cada continente tem a sua própria realidade. Nos Estados Unidos, por exemplo, a equidade de género nem sempre é uma prioridade política, o que faz com que as mulheres sintam que estão a perder terreno em várias frentes. No mundo corporativo, vejo muitas mulheres exaustas ao tentar equilibrar a vida pessoal, a maternidade e a carreira. Além disso, a realidade varia consoante a posição: uma mulher CEO enfrenta desafios muito diferentes dos de uma agricultora em África, onde muitas vezes a legislação nem sequer permite que as mulheres sejam proprietárias da terra, o que as impede de obter empréstimos bancários. Por outro lado, enfrentamos os desafios transversais ao próprio sector hortofrutícola: interrupções na cadeia de abastecimento, sustentabilidade, escassez de água e acordos comerciais. Algumas empresas estão mais inclinadas a adoptar boas práticas de equidade de género, mas outras não têm tempo ou recursos. O nosso objectivo é promover essa equidade e trazer para a discussão os bons exemplos, para que outras empresas possam ser inspiradas e “educadas” para que outras mulheres possam ter as mesmas oportunidades. O sector tem de ser feito por todos, como sociedade.
Como é que a organização tem adaptado a sua actuação perante as mudanças geopolíticas e globais dos últimos anos?
Temos de ser capazes de nos adaptar, de mudar. E é isso que temos feito desde o início. Quando fundámos a organização, logo a seguir veio a pandemia, em 2020, e as pessoas deixaram de poder viajar e ir a feiras. Mudámos rapidamente para um modelo totalmente digital e focado no Zoom e outras plataformas digitais semelhantes. Agora, o mundo mudou novamente: as pessoas procuram o contacto humano, querem ir às feiras, apertar mãos e conversar pessoalmente. Por isso, estamos novamente a adaptar a nossa oferta para responder àquilo de que a nossa comunidade global precisa neste momento.
Que conselho deixaria às jovens mulheres que estão a considerar entrar ou desenvolver uma carreira no sector agrícola?
Hoje fala-se muito de Inteligência Artificial e de tecnologia, mas a grande beleza da nossa indústria é ser profundamente orientada às pessoas. A presença e o contacto humano serão sempre fundamentais. O meu conselho é que saiam à rua, façam networking e sejam intencionais na construção da sua rede de contactos: enviem aquele e-mail a alguém que não conhecem mas que admiram, ou a uma empresa onde gostariam de trabalhar no futuro. É preciso “pegar o touro pelos cornos” e não ter medo da rejeição. Estarem confortáveis com um “não” e serem resilientes é essencial para continuarem a avançar, a conhecer produtores, embaladores, exportadores ou especialistas em logística e tecnologia. Existem oportunidades fantásticas no nosso sector e as pessoas estão genuinamente dispostas a ajudar; o segredo é não ser passivo e manter a determinação.
O artigo foi publicado originalmente em Revista Frutas Legumes e Flores.
















































