Depois de um Inverno marcado por precipitação intensa e de uma Primavera com condições meteorológicas instáveis, os produtores portugueses de uva de mesa apontam para uma produção de boa qualidade.
A campanha da uva de mesa está prestes a arrancar nas principais regiões produtoras do país e as perspectivas são, de uma forma geral, favoráveis. Entre Ribatejo e Oeste, os produtores antecipam uma colheita com boa qualidade, embora mantenham alguma cautela devido às condições meteorológicas registadas ao longo do ciclo produtivo.
Nas Uvas da Carolina, em Alenquer, a área actualmente em produção ronda os 11 hectares, aos quais se juntaram recentemente mais dois hectares de novas plantações, que ainda não estão em produção. O ciclo produtivo tem sido desafiante. A exploração agrícola, em particular perto de meio hectare de uva de mesa foi afetado com a tempestade Kristin. «Tivemos cerca de três mil metros quadrados destruídos por um deslizamento de terras. A vinha ficou inacessível e terá de ser arrancada», explica Maria João Silva, representante da marca Uvas da Carolina. Ainda assim, as expectativas para esta campanha são positivas. Depois de uma quebra produtiva em 2025, provocada por uma onda de calor que reduziu a colheita para cerca de 100 toneladas, quando o objectivo eram 120 toneladas, a empresa espera agora atingir entre 120 e 130 toneladas.
«Este ano as vinhas apresentam uma produção fora do normal», afirma a responsável. A exploração trabalha com variedades tradicionais com grainha, como Cardinal, Vitória, Afonso Lavallée, Michele Palieri, Autumn Black, Ana Maria e Red Globe, sendo esta última a mais representativa. Quando os dois novos hectares entrarem em plena produção, a expectativa é aumentar a colheita em cerca de 60 toneladas adicionais.
A comercialização das Uvas da Carolina é feita sobretudo através do Mercado Abastecedor da Região de Lisboa (MARL), abastecendo revendedores de várias zonas do país, bem como clientes nos Açores, Madeira e Cabo Verde. Apesar disso, Maria João admite notar alguma retração no consumo. «O que noto é que existe uma menor procura», refere.
Ao nível fitossanitário, a produtora considera que as soluções actualmente disponíveis têm permitido controlar pragas e doenças. Já no caso das infestantes, a situação é mais desafiante. «Temos algumas infestantes resistentes aos herbicidas e fazemos o seu controlo de forma mecânica», explica.
Em Torres Novas, o Casal da Raposa dedica cerca de 22 hectares à produção de uva de mesa, actividade que continua a ser o principal pilar da exploração agrícola. Patrícia Picton, gerente da empresa, faz um balanço muito positivo da campanha anterior. «Tivemos quantidade e muita qualidade. O Verão foi longo e conseguimos colher até ao final de Outubro sem problemas», recorda. Quanto à campanha actual, a responsável admite alguma prudência. «Foi um Inverno muito rigoroso e com chuva acima do normal. É um ano um pouco diferente e ainda estamos reticentes sobre aquilo que poderá acontecer», refere. Ainda assim, acredita que a colheita deverá decorrer dentro da normalidade, com início previsto para meados de Julho.
O Casal da Raposa produz variedades tradicionais com grainha, como Cardinal, Dona Maria, Vitória e Michele Palieri. O inverno chuvoso trouxe alguns desafios, nomeadamente ao nível do míldio. «Tivemos alguns problemas, mas conseguimos controlá-los. Felizmente não tivemos problemas com o oídio», explica.
A exploração mantém toda a produção ao ar livre. Parte da área encontra-se protegida por redes antipássaro, anti-granizo e anti-escaldão, uma solução adoptada sobretudo para proteger a variedade Cardinal dos ataques de aves e javalis. «Os javalis são actualmente um dos nossos maiores problemas. Gostam muito da uva preta e causam prejuízos significativos», relata.
Tal como acontece noutros produtores, a limitação crescente de produtos fitofarmacêuticos constitui uma preocupação. «Temos de fazer uma gestão muito rigorosa das soluções disponíveis e actuamos de forma preventiva. Trabalhamos em produção integrada e o desafio é cada vez maior», afirma.
Apesar do aumento dos custos de produção, Patrícia Picton considera que a uva de mesa tem vindo a ganhar valorização junto do consumidor. «Acho que o mercado reconhece cada vez mais a qualidade da uva de mesa nacional. Os custos aumentaram, mas a uva também tem sido mais valorizada», sublinha.
O artigo foi publicado originalmente em Revista Frutas Legumes e Flores.
















































