A aldeia de Celeirós do Douro, em Sabrosa, transformou as tradicionais lagaradas numa atração turística que, a cada vindima, junta turistas e também durienses para a pisa a pé das uvas nos antigos lagares de granito.
“É muito tradicional, é muita raiz, alegria, é uma confraternização muito forte. A gente percebe que todos vivenciam isso com muita intensidade. Para mim também é uma experiência maravilhosa”, afirmou à agência Lusa Regina Porto, que veio do Brasil e vive há cinco anos em Vila Real.
Regina foi uma das primeira a entrar num dos quatro centenários lagares de granito, onde decorrem, neste fim de semana, as lagaradas.
Os lagares são privados e a experiência em plena época de vindima é gratuita. As uvas são fornecidas por produtores da Região Demarcada do Douro (RDD).
Alice Pais veio de Santa Maria da Feira de propósito para a lagarada. “A minha nora viu uma publicação e incentivou-nos a vir, alugámos aqui uma casa pertinho e viemos para fazer a experiência pela primeira vez”, contou.
Entrar no lagar e sentir o mosto foi, descreveu, “engraçado e agradável”.
Susana Maria vive na Suíça e veio ao Douro com o filho e os pais, residentes em Felgueiras.
“É maravilhoso, nunca tive a possibilidade de experimentar isto e estou a adorar. É viver as raízes, os meus pais cresceram nisto, eu já não tive possibilidade e estou a achar maravilhoso”, afirmou.
Grupos de concertinas, bombos e ranchos animam a lagarada e dentro dos lagares dança-se e canta-se.
Torben Mandrup trouxe um grupo de dinamarqueses para lhes mostrar o Douro, as suas tradições, as paisagens e as pessoas que produzem o vinho do Porto, produto com que trabalha na área da importação. “Estão a gostar muito, muito mesmo”, frisou.
Pelas ruas da aldeia, espalham-se barraquinhas que vendem produtos regionais e cruzam-se visitantes e residentes.
Na RDD, as máquinas têm vindo a substituir o trabalho do homem, trocando a pisa a pé dos vinhos nos lagares de granito tradicionais pela fermentação mecânica nas cubas de inox.
Mas ainda há quintas que optam pela pisa a pé para programas de vindima para turistas ou, por exemplo, para vinhos mais exclusivos ou diferenciados.
A presidente da Câmara de Sabrosa, Helena Lapa, realçou que a lagarada recria, a cada edição, a tradição vitivinícola do concelho e da região do Douro e promove e preserva tradições, costumes, cultura, produtores e vinhos.
“Queremos mostrar que esta realidade ainda existe e faz parte da nossa identidade”, frisou Helena Lapa.
O evento transformou-se também numa homenagem aos agricultores que mantêm a paisagem vinhateira classificada pela UNESCO em 2001.
“Este ano com um significado especial porque está a ser particularmente difícil para os pequenos viticultores do Douro e, aqui no concelho, a maior parte dos viticultores são de pequena dimensão”, realçou a autarca, referindo-se às dificuldades sentidas no escoamento das uvas.
Celeirós Douro, no distrito de Vila Real, assume-se como a “Capital das Lagaradas” e a festa, que teve início no sábado, prolonga-se até hoje.
A festa recupera, segundo o presidente da Junta de Celeirós, Sérgio Gonçalves, “memórias de famílias, vivências antigas e de vindimas”.
“Para além dos locais, que sentem o que é a tradição, os que vêm de fora têm a possibilidade de experimentar o que é pisar o vinho, o que é fazer vinho”, salientou, explicando que a comunidade está envolvida no evento que quer mostrar “o que é a aldeia, a sua comida, o vinho”.
A 14.º Lagarada Tradicional é organizada pela Junta de Freguesia de Celeirós do Douro, pelo município de Sabrosa e pela Associação Sabrosa Douro XXI.
Celeste Marques, da Associação Sabrosa Douro XXI, disse que se pretende também dar a conhecer a “aldeia e o Douro” e “valorizar o produto da terra e os viticultores da região que estão a passar por uma fase difícil”.
“Queremos também transmitir esta tradição às novas gerações”, salientou.
Este ano, o Alto Douro Vinhateiro celebra 25 anos da distinção pela UNESCO e também se comemoram 260 anos da RDD.
O presidente do Instituto dos Vinhos do Douro e Porto (IVDP), Gilberto Igrejas, defendeu que é “importante conciliar a tradição com a inovação”, mostrar os lagares, arte ancestral na elaboração dos vinhos, mas também mostra que esta é uma região que inova e moderniza a cultura da vinha.
O programa da lagarada inclui um cortejo etnográfico, missa com a bênção do mosto e teatro pela companhia Filandorra.
















































