Um tomate obtido por edição genética e desenvolvido no John Innes Centre, em Inglaterra, recebeu aprovação para o seu primeiro marketing notice, aproximando-se da comercialização. O chamado “Sunshine tomato” foi concebido para acumular níveis elevados de pró-vitamina D3, que pode ser convertida em vitamina D3.
✍️ Carla Amaro
Um tomate desenvolvido através de edição genética para apresentar um maior teor de pró-vitamina D3 deu mais um passo rumo à comercialização em Inglaterra. O “Sunshine tomato”, desenvolvido por uma equipa liderada pela investigadora Cathie Martin, do John Innes Centre, foi objeto de um marketing notice (uma notificação formal de intenção de comercialização) e recebeu confirmação do seu estatuto como organismo obtido por melhoramento de precisão pelas autoridades inglesas.”
O tomate foi desenvolvido através de alterações precisas no genoma da planta, recorrendo a edição genética, para impedir que a pró-vitamina D3 seja rapidamente convertida noutros compostos. Desta forma, a fruta e as folhas acumulam níveis muito mais elevados deste precursor da vitamina D3.
A pró-vitamina D3 pode ser posteriormente convertida em vitamina D3 através da exposição à luz solar ou à radiação UVB. A vitamina D é essencial para a saúde óssea e muscular e desempenha também um papel importante no funcionamento do sistema imunitário.
Uma fonte vegetal de vitamina D
A vitamina D é pouco abundante nos alimentos de origem vegetal. Entre as fontes alimentares mais conhecidas encontram-se os peixes gordos, a carne vermelha e a gema de ovo. A possibilidade de aumentar através do melhoramento de precisão o conteúdo de um nutriente numa cultura alimentar comum poderá, por isso, abrir novas possibilidades de biofortificação.
No caso do “Sunshine tomato”, os investigadores estimam que cada tomate poderá conter potencialmente uma quantidade de vitamina D equivalente à encontrada em dois ovos ou em cerca de 28 gramas de atum, depois de a pró-vitamina D3 ser convertida em vitamina D3.
O projeto já passou pela fase experimental. Em 2023, foram realizados no Reino Unido alguns dos primeiros ensaios de culturas obtidas por edição genética, tendo os investigadores demonstrado que a exposição das plantas à luz solar ou à luz UVB permite converter a pró-vitamina D3 acumulada em vitamina D3.
Mais recentemente, o projeto foi também objeto de um estudo do Quadram Institute destinado a avaliar a biodisponibilidade da vitamina D obtida a partir destes tomates. O objetivo é perceber se o consumo do tomate enriquecido pode efetivamente contribuir para aumentar os níveis de vitamina D no organismo.
Da investigação ao mercado
A aprovação agora obtida constitui um passo importante porque permite avançar no percurso regulamentar para a comercialização em Inglaterra. O “Sunshine tomato” é a primeira cultura do John Innes Centre a obter esta aprovação no âmbito do novo enquadramento britânico para organismos obtidos através de precision breeding.
O próximo passo passa pelo desenvolvimento de variedades com características mais adequadas ao consumidor. Os investigadores estão a cruzar as plantas editadas com variedades de tomate de sabor mais doce e com variedades de frutos riscados, que poderão vir a ser comercializadas sob a designação “Sunshine”.
Está também prevista uma candidatura à Food Standards Agency (FSA), a autoridade britânica responsável pela segurança alimentar, antes de uma eventual chegada do produto ao mercado.
O percurso do “Sunshine tomato” ilustra assim uma das aplicações possíveis da edição genética na agricultura: em vez de introduzir características de outras espécies, a tecnologia permite alterar de forma direcionada genes da própria planta para obter uma característica específica, neste caso, aumentar a acumulação de um precursor da vitamina D.
O projeto integra uma tendência mais ampla de utilização da biotecnologia vegetal para melhorar o valor nutricional dos alimentos. O objetivo é desenvolver culturas que, além de serem produtivas e adequadas à agricultura, possam contribuir para responder a problemas nutricionais.
Mais informação no site oficial do governo britânico.
O artigo foi publicado originalmente em CiB – Centro de Informação de Biotecnologia.















































