O incêndio que deflagrou sábado em Torre de Moncorvo e que no domingo alastrou para Carrazeda de Ansiães provocou ansiedade e medo nas populações atingidas, e há perdas importantes em culturas agrícolas, disseram à Lusa os populares.
Quem passa pelas estradas que ligam a Cabeça Boa à Lousa, no concelho de Torre de Moncorvo, e depois seguir para o concelho de Carrazeda de Ansiães por Vilarinho da Castanheira, no distrito de Bragança, depressa se apercebe de um manto negro que cobre centenas de hectares de floresta, mato, sobreiros e terrenos agrícolas.
O fogo deixou nos últimos dias os habitantes em sobressalto, porque viram as suas aldeias ameaçadas.
António Almeida, habitante da Lousa, disse que “foram vividos momentos de terror ao longo dos últimos dias” na aldeia, porque “o fogo esteve sempre nas costas e próximo das povoações”.
“O incêndio esteve sempre nas nossas costas, mas hoje já se afastou em direção ao rio Douro, [porque] aqui nas imediações já não há nada para arder. Não tive grandes prejuízos porque tratei atempadamente dos meus terrenos, mas há quem tenha perdido sobreiros, amendoeira, vinha ou mel”, vincou o morador.
António Almeida explicou ainda que faz uma agricultura preventiva porque todos os anos há que comentar os fogos, recordando o que aconteceu em 2017, contudo, segundo disse, nesse ano “não teve a amplitude deste que se iniciou no sábado”.
“Há meia dúzia de anos que não acontecia nada, mas este ano o fogo veio em força e com força, e deixou para trás várias aldeias até chegar aqui. A nossa região está toda de luto, é só cinzas”, sublinhou.
Numa estimativa inicial, as autoridades no terreno apontam que já tenham mais de dois mil hectares de terreno ardido, número que poderá aumentar uma vez que o incêndio ainda ativo mobilizava, às 16:30, 453 operacionais, apoiados por 144 veículos e seis meios aéreos.
Já outro habitante da Lousa, que preferiu apenas dizer ser Manuel, sempre foi dizendo que estes três últimos dias foram vividos “com muita aflição” e havia muitas labaredas que pareciam “um inferno”.
“Agora há que recomeçar de novo quem puder, e quem não puder terá de deixar para trás. Tenho vinha e amêndoa e olival. Houve muitos estragos como na cortiça, os sobreiros vão secar. Mas a terra fica e haverá novas culturas”, perspetivou.
Já em Vilarinho da Castanheira, no concelho de Carrazeda de Ansiães, esta manhã, em frente a um dos cafés da aldeia, o rasto deixado pelo fogo era tema de conversas, nas quais a tristeza e a ansiedade eram notórias entre quatro habitantes que falavam entre si.
“Havia muito fumo e stress, a juntar aos prejuízos agrícolas que ainda não foram contabilizados na sua totalidade, porque há áreas que ainda não estão acessíveis. Houve também animais que morreram no incêndio devido ao fumo, principalmente cabras e ovelhas. As colmeias foram também muito afetadas”, indicou Luís Vicente.
Já ao lado, Alberto Febre relatou que ainda não sabe os prejuízos que teve, mas pelo andar do fogo na direção das suas propriedades e afirmou que “são relevantes”
“Tenho oliveiras e estão lavradas, mas com o calor intenso das labaredas do fogo acredito que estejam queimadas”, disse.
Por seu lado, o presidente da Câmara de Torre de Moncorvo, José Meneses, adiantou à Lusa que ainda não se consegue fazer um cálculo real dos prejuízos deixados nas culturas pelo fogo, mas logo que possível os técnicos municipais vão para o terreno fazer essa avaliação.
“Temos a noção de que é uma área [ardida] muito grande de mato, mas, para além do mato, temos agricultura com cerca de 400 hectares de terreno arável e áreas de sobreiros. Há muitos proprietários nesta zona que do dia para noite perderam os seus rendimentos”, frisou.
O autarca acrescentou ainda “que logo que possível vai enviar um relatório dos prejuízos causados pelo fogo às autoridades competentes, para reclamar ajudas para os produtores de cortiça e para os agricultores do seu concelho”.













































